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8 de mar. de 2014

Dia Internacional da Mulher

Para lembrar esse dia de luta por igualdade de gêneros, deixo aqui o discurso de agradecimento de Lupita Nyong'o no evento "Black Women in Hollywood". O discurso foi retirado do blog Escreva Lola Escreva
Para quem não sabe, Lupita é atriz e ganhou o Oscar como Atriz Coadjuvante no filme também pemiado "Doze Anos de Escravidão".

Eis o discurso da moça:

Recebi uma carta de uma garota e gostaria de dividir um pequeno trecho com vocês: “Querida Lupita,” diz ela, “Acho que você é realmente sortuda por ser tão negra e ainda assim fazer esse sucesso todo em Hollywood da noite para o dia. Eu estava quase comprando o creme Dencia’s Whitenicious para clarear a minha pele quando você apareceu no mapa mundial e me salvou”.
Meu coração sangrou um pouco quando li essas palavras. Jamais poderia imaginar que meu primeiro trabalho após terminar os estudos seria tão poderoso em e por si mesmo que me lançaria como uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura o foram para mim.
Lembro de um tempo em que eu também não me sentia bonita. Eu ligava a TV e só via peles rosadas, clarinhas. Eu achava que minha pele de matiz noturnal era uma provocação e um insulto. E minha única súplica a Deus, o fazedor de milagres, era que eu pudesse acordar com a pele mais clara. Vinha a manhã e eu ficava tão excitada para ver minha nova pele que me recusava a olhar os meus pés até estar de frente ao espelho, porque eu queria ver meu rosto claro primeiro. E todos os dias eu vivia a mesma decepção de continuar tão escura quanto no dia anterior. 
Eu tentava negociar com Deus: dizia pra ele que iria parar de roubar torrões de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria; que ouviria todas as palavras de minha mãe e nunca mais perderia minha blusa da escola se ele simplesmente me tornasse um pouco mais clara. Mas acho que Deus não se impressionava com minhas moedas de troca porque Ele jamais atendeu aos meus pedidos.
E quando eu era adolescente meu ódio por mim mesma ficou ainda pior, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava com frequência que ela me achava linda, mas isso não me consolava: ela é minha mãe, é claro que se espera que ela me ache bonita. Foi então que Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, estava em todas as passarelas e em cada revista e todos falavam sobre o quanto ela era linda. Até a Oprah disse que ela era linda, o que tornou isso um fato. 
Eu não podia acreditar que as pessoas estavam aceitando uma mulher que se parecia tanto comigo como bonita. Minhas características físicas sempre foram um obstáculo difícil de vencer e, de repente, Oprah estava dizendo que não, elas não eram isso. Isso era espantoso e eu não queria aceitar isso porque eu estava começando a gostar da sedução da inadequação. Mas não dava para segurar a flor que estava desabrochando dentro de mim. 
Quando vi Alek eu, inadvertidamente, vi um reflexo de mim mesma que eu não podia refutar. Agora eu tinha molas nos pés, porque eu me sentia mais visível, mais valorizada pelos distantes porteiros da beleza, mas à minha volta a preferência por peles claras ainda prevalecia. Para os observadores que eu considerava importantes, eu ainda não era bonita. E minha mãe, de novo, me dizia: “Você não pode comer a beleza. Ela não te alimenta”. E essas palavras me atormentavam e aborreciam; eu não as entendi de verdade até finalmente compreender que a beleza não era algo que eu pudesse adquirir ou consumir, era algo que eu simplesmente precisava ser.
E o que minha mãe quis dizer quando me falou que não se pode comer a beleza foi que não se deve confiar no seu visual para se manter. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesma e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. É o que colocou Patsey em tantas dificuldades com seu senhor, mas também o que manteve sua história viva até hoje. Lembramos-nos da beleza de seu espírito, mesmo depois que a beleza de seu corpo se desvaneceu.
Assim, eu espero que minha presença no cinema e nas revistas possa levar você, jovem garota, em uma jornada parecida. Que você sinta a validação de sua beleza externa, mas também se dê conta do profundo trabalho de ser bela por dentro. Não há tons [jogo com os significados de shade, que pode ser sombra ou tom de cor] para essa beleza.

18 de set. de 2013

É menina!


Sobre as (des)venturas de um gênero e as frases que acompanham uma parte da vida da menina:

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney
preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Por Gregório Duvivier. Retirado daqui.

28 de mai. de 2013

Como conversar com meninas

A mudança está nas novas gerações

Mais uma vez, posto um texto muito bacana sobre crianças. Agora o foco são as meninas que desde muito cedo (ou melhor, desde a descoberta do sexo do bebê) estão sendo educadas, estimuladas, influenciadas, treinadas dentro de uma cultura extremamente machista. Precisamos não criar "princesas", mas garotas que pensem e entendam que a loucura da beleza perfeita é um caminho de muito estresse, pressão, gasto e sofrimento.
O texto foi retirado daqui.

Não, não é um guia de paquera para garotos tímidos. Este texto da Lisa Bloom nos faz pensar sobre as consequências que nossas atitudes podem ter na educação das crianças, e como podemos mudar parâmetros sociais apenas conversando de modo diferente com uma menininha, segurando o impulso de dizer o quanto ela é linda para surpreendê-la ao ressaltar as outras qualidades que ela tem. Vale dizer que a educação dos meninos também precisa ser repensada, e que autora já escreveu sobre os dois.


Como conversar com meninas

Eu fui a um jantar na casa de uma amiga na semana passada, e encontrei sua filha de 5 anos pela primeira vez. A pequena Maya tinha os cabelos castanhos e cacheados, olhos escuros, e estava adorável em seu vestidinho rosa e brilhante. Eu queria gritar, “Maya você é tão fofa! Veja só! Dê uma voltinha e desfile esse vestidinho rosa, sua coisinha linda!”
Mas eu não fiz isso. Eu me contive. Como sempre me contenho quando conheço garotinhas, negando meu primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão.
“O que há de errado nisso? É a conversa padrão de nossa cultura para quebrar o gelo com as meninas, não é? E por que não fazer-lhes um elogio sincero para elevar suas auto-estimas? Porque elas são tão lindas que eu simplesmente quero explodir de tanta fofura quando as encontro, sinceramente.”
Guarde este pensamento por um tempo.
Esta semana a ABC News informou que quase metade das meninas de 3 a 6 anos se preocupam por estarem gordas. No meu livro, Think: Straight Talk for Women to Stay Smart in a Dumbed-Down World, eu revelo que 15 a 18% das meninas com menos de 12 anos usam rímel, delineador e batom regularmente; distúrbios alimentares estão em alta e a auto-estima está em baixa; e 25% das jovens mulheres americanas prefeririam vencer o America’s Next Top Model a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Até universitárias inteligentes e bem sucedidas dizem que preferem ser ‘gostosas’ a serem inteligentes. Recentemente uma mãe de Miami morreu durante uma cirurgia estética, deixando dois filhos adolescentes. Isso não pára de acontecer, e isso parte o meu coração.
Ensinar as meninas que a aparência delas é a primeira coisa que se nota ensina a elas que o visual é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso as leva a fazer dieta aos 5 anos de idade, usar base aos 11, implantar silicone aos 17 e aplicar botox aos 23. Enquanto a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia se torna regra, as mulheres têm se tornado cada vez mais infelizes. O que está faltando? Um sentido para a vida, uma vida de ideias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações.
Eu me esforço para falar com as meninas assim:
“Maya,” eu disse, me ajoelhando até ficar da sua altura, olhando em seus olhos, “prazer em conhecê-la”.
“O prazer é todo meu,” ela disse, com a voz já bem treinada e educada para falar com adultos como uma boa menina.
“Hey, o que você está lendo?” Perguntei, com um brilho nos olhos. Eu amo livros. Sou louca por eles. Eu deixo isso transparecer.
Seus olhos ficaram maiores, e ela demonstrou uma empolgação genuína, mas contida, sobre o assunto. Ela pausou, no entanto, tímida por estar com um adulto desconhecido.
“Eu AMO livros,” eu disse. “E você?”
A maioria das crianças gosta de livros.
“SIM,” ela disse. “E agora eu consigo ler sozinha!”
“Que incrível!” eu disse. E é incrível, para uma menina de 5 anos.
“Qual é o seu livro preferido?” perguntei.
“Vou lá pegar! Posso ler pra você?”
Purplicious foi a escolha de Maya, um livro novo para mim, e Maya se sentou junto a mim no sofá e leu com orgulho cada palavra em voz alta, sobre a nossa heroína que adora rosa mas é perturbada por um grupo de garotas na escola que só usam preto. Infelizmente, o livro era sobre garotas e o que elas vestiam, e como suas escolhas de roupas definiam suas identidades. Mas depois que Maya virou a última página, eu conduzi a conversa para as questões mais profundas do livro: meninas más e pressão dos colegas, e sobre não seguir a maioria. Eu contei pra ela que minha cor preferida é o verde, porque eu amo a natureza, e ela concordou com isso.
Em nenhum momento nós discutimos sobre as roupas, o cabelo, o corpo ou quem era bonita. É surpreendente o quão difícil é se manter longe desses tópicos com meninas pequenas, mas eu sou teimosa!
Eu falei para ela que eu tinha acabado de escrever um livro, e que eu esperava que ela escrevesse um também, algum dia. Ela ficou bastante empolgada com essa ideia. Nós duas ficamos muito tristes quando Maya teve que ir pra cama, mas eu disse a ela para da próxima vez escolher outro livro para lermos e falarmos sobre ele. Ops! Isso a deixou animada demais para dormir, e ela levantou algumas vezes…
Aí está, um pouquinho de oposição a uma cultura que passa todas as mensagens erradas para as nossas meninas. Um empurrãozinho em direção à valorização do cérebro feminino. Um breve momento sendo um modelo a ser seguido, intencionalmente. Meus poucos minutos com a Maya vão mudar a multibilionária indústria da beleza, os reality shows que diminuem as mulheres, a nossa cultura maníaca por celebridades? Não. Mas eu mudei a perspectiva de Maya por pelo menos aquela noite.
Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos.Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.

21 de mai. de 2013

Dicionário feito por crianças


Olhem que reportagem bacana e que ideia genial (daquelas que tu querias ter pensado antes da pessoa fazer).
A reportagem foi retirada daqui.



Dicionário feito por crianças revela a adultos um mundo que já esqueceram



Um professor colombiano passou dez anos coletando definições de seus alunos e, como resultado, obteve um dicionário com verbetes ao mesmo tempo puros, lógicos e reais

A Feira do Livro de Bogotá, que aconteceu no final de abril, teve como maior sucesso um livro chamado “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças”. Mais especificamente, uma parte dele: um dicionário feito por crianças que traz cerca de 500 definições para 133 palavras, de A a Z.
Apesar de lançado originalmente em 1999, o livro foi reeditado neste ano. Javier Naranjo, o autor, conta que compilou as informações durante dez anos enquanto trabalhava como professor em diferentes escolas do estado de Antioquía, região rural do leste do país.
A ideia surgiu quando, em uma comemoração do Dia das Crianças, ele pediu que seus alunos definissem a palavra “criança”. O resultado encantou o professor – uma das definições era “uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo”. A partir daí foram surgindo novas definições, que eram sempre anotadas e guardadas.
Para ele, as crianças têm uma lógica diferente, uma maneira própria de entender o mundo e de revelar muitas coisas que os adultos já esqueceram. É assim que, no peculiar dicionário, o adulto é uma “pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si”,  água é uma “transparência que se pode tomar”, um camponês “não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos” e a Colômbia é “uma partida de futebol”.
Confira alguns dos verbetes encontrados no livro.
Os Verbetes

Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)
Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
Guerra:Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos

3 de abr. de 2013

Tarefas domésticas são coisas de mulher?

Publico aqui a coluna dessa semana do Ivan Martins que aborda a questão da divisão de tarefas por gêneros e os conflitos originários disso. Conviver com outras pessoas requer uma organização diferente do que morar sozinho (e ser o único responsável pela bagunça e sua organização). 
A cada dia a figura da mamãe ou esposa que limpa toda a casa e organiza a bagunça de todos está saindo de cena, ainda bem! As tarefas devem ser divididas por todos que convivem e compartilham o espaço. Dividir tarefas e dividir responsabilidades.

Segue a coluna que foi retirada daqui.

Quem cuida da casa?

Essa é a questão cotidiana das pessoas que vivem juntas, não é amor ou sexo
IVAN MARTINS


Caro Leitor:

Se você vai dividir a casa com uma mulher que trabalha, seja pelo casamento ou por qualquer outra espécie de arranjo (ela pode ser sua namorada, sua amiga ou sua irmã), tenha o cuidado, antes de cruzar o batente dela ou permitir que ela cruze o seu, de acertar quatro coisas com ela: Quem vai lavar a louça, quem vai fazer as compras, quem vai arrumar a casa e quem vai cozinhar.

Agora, no conforto do seu apartamento de solteiro, ou estendido no sofá da casa-útero da sua mãe, você pode achar que o mais importante na vida dos casais é sexo, sentimentos e dinheiro para pagar as contas. Não é bem assim.

Na noite de quinta-feira, quando você chegar em casa a fim de um romance, sua mulher vai lembrá-lo que a coisa mais importante da vida de vocês é a louça de três dias na pia da cozinha – ou a lista de compras colada há três dias na porta da geladeira, ou a roupa que você há três dias esquece de tirar da máquina. E faz todo sentido.

Se a sua mulher trabalha, o assunto mais importante da vida conjugal dela é aquilo que você faz ou não faz em casa – e não estou falando de sexo. O que vai definir a paz doméstica é a sua capacidade de dividir os trabalhos domésticos. Se você não for para pia e para a feira, está condenado a bater boca com uma frequência intolerável, e não há romance que resista a uma briga por semana.


Você não precisa acreditar nas minhas palavras. Leia aqui mesmo a reportagem especial que a Época fez sobre as expectativas atuais das mulheres em relação aos homens. Depois passe os olhos pelos comentários deixados pelos leitores ao pé da primeira parte do especial. Foi a leitura dos comentários que me fez escrever esta coluna. Foi perceber quão anacrônicos são os caras que se opõem às mudanças de hábitos. Eles são machos que temem serem emasculados pela rotina doméstica, eles são provedores injustiçados pela exigência de uma segunda jornada, são caras que acham que as mulheres que trabalham fora são todas putas. Um horror. As mulheres, por seu lado, estão exaustas e furiosas. Não entendem de onde vem a nossa autocomplacência quando elas são tão organizadas e tão exigentes consigo mesmas, quando, no exemplo de um amigo meu, elas botam as crianças para dormir, dão um tapa na casa, organizam o dia seguinte e voltam ao computador para terminar o trabalho que trouxeram do escritório, às 11 da noite...

Se você não é o sádico bilionário de Cinquenta Tons de Cinza, que dispõe de serventes, helicópteros e dinheiro inesgotável para pagar por todos os serviços, sua mulher ou namorada ou colega de moradia espera que você arregace as mangas e bote a mão na massa com ela. Não é mais opcional. A nova divisão de trabalho social é essa. Todo mundo trabalha fora, todo mundo rala, e todo mundo faz as coisas de casa. É uma simples questão de modernidade. Se a sua mulher olhasse para a sua cara e dissesse que tem o direito de ser sustentada sem trabalhar, apenas por ter nascido mulher, você perguntaria em que século ela pensa que está vivendo. Como nós, homens, achamos que elas se sentem quando sugerimos, com dezenas de argumentos meio frouxos, que temos o direito inato de que nos façam comida, lavem a nossa roupa e limpem o nosso banheiro, apenas por termos nascido homens?

Meu pai nasceu em 1930 e não gostava que a minha mãe trabalhasse fora. Eu nasci em 1960 e desde que fiquei adulto nunca namorei uma mulher que não tivesse ocupação. Meus filhos, que nasceram nos anos 1980, terão o direito de ver o jogo do time deles na TV enquanto a mulher deles lava a louça? Duvido. Só se o relógio andar para trás e o mundo for retomado pelos felicianos. Uma das medidas mais constantes do avanço civilizatório é a expansão dos direitos da mulher. Há 50 anos, quando a Betty Friedan escreveu A mística feminina, elas exigiam o direito de trabalhar fora. Conseguiram. Agora, no início do século 21, exigem que nós também trabalhemos dentro de casa - e conseguirão da mesma forma, provavelmente em menos tempo. É uma simples questão de racionalidade e de justiça. Pense no fim da servidão doméstica de metade da humanidade.

Escrevo essas coisas sem hesitação, porque eu mesmo não sou exemplo de nada. Minha mãe pedia ajuda em casa e eu fingia de surdo, enquanto as minhas irmãs cooperavam. Nunca aprendi a cozinhar. Agora, um bocado mais velho e talvez um pouco mais sábio, tento mudar, mas é duro alterar os hábitos de uma vida. A divisão das tarefas domésticas ainda é o motivo de sete em cada 10 discussões na minha casa. Não discuto SE, discuto QUANDO e COMO fazer o que tem de ser feito, mas ainda discuto. A vontade é deixar tudo para amanhã. No fundo, conto com a faxineira, que, uma vez por semana, restaura a base material do meu casamento. Ela também é mulher e provavelmente não estará na minha casa dentro de 10 anos. Nem na sua. Melhor seria aprender a fazer rápido o que tem de ser feito: lavar a louça, lavar a roupa, cuidar da casa e cozinhar.

Forte abraço,
Ivan


20 de fev. de 2013

"Tempo, tempo, mano velho..."

Adorei esse artigo da Isabel Clemente e vou postar por aqui.
A relação entre gerações, não somente nas questões tecnológicas (que cada vez estão mudando e deixando todos com aspecto de ultrapassado), mas também sobre a percepção do tempo e da trajetória de vida das pessoas. O texto foi retirado daqui.

Pais do século passado


Criança adora ter curiosidade para contar. A minha novidade era ter uma avó do século 19. Vovó Jandyra, nascida em 1900, era praticamente uma figura histórica na família. Ela trazia a marca de um tempo na data de aniversário, uma data que não pertencia ao meu século, o 21. Essa fronteira estava sempre lá, toda vez que eu olhava para vovó e penteava seus longos cabelos grisalhos, sempre caprichosamente presos numa trança.
Talvez seja a proximidade dos meus 40 anos, algo que me fez pensar muito em datas de aniversário, mas me dar conta de que os pais do século passado agora somos nós me deixou com aquela expressão de “é mesmo…”.
A última geração da minha família a ser dividida pelo calendário em séculos diferentes foi a dos meus bisavós. Nascidos em 1800 e alguma coisa, pariram seus filhos no século 20, à exceção dos pais da vovó Jandyra, claro.
O calendário nos sugere etapas a serem vencidas: um dia, uma semana, um ano…Séculos diferentes evidenciam etapas e caminhos distintos trilhados por nós antes dos filhos chegarem. Uma espécie de cortina de fumaça. Eu vi o século 20. Vocês, não.   Tudo muito psicológico, eu sei, mas agora que vocês passaram a integrar comigo a nação dos pais do século passado, psicologicamente afetados pelo fato, vou adiante.
A nossa situação ficou um pouco pior com a revisão ortográfica, tal qual aconteceu com a geração dos nossos bisavós e avós. Vovó, aquela de 1900, morreu jurando que farmácia se escrevia com ph. As mudanças na língua deixaram vovó um pouco mais para trás no tempo. Por obrigação de ofício, já tirei as tremas e os acentos assassinados da minha escrita, mas ainda não me conformo com o fim do acento que diferenciava para do verbo parar do para preposição. Por ainda ter dúvidas sobre a extinção de muitos hífens (deu tanto trabalho decorar quais prefixos levavam hífen e quais não), me sinto um pouco como vovó diante do sumiço do ph.   Minhas filhas – uma recém-alfabetizada e outra de 3 que ainda é café-com-leite na dedanha – nem saberão que, um dia, ideia levou acento.


A sensação de que um abismo secular – e agora uma revisão ortográfica – me separa delas piorou dias depois durante visita ao Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Identifiquei no acervo uma enceradeira igualzinha à que usávamos em casa para polir o chão de tábua corrida quando eu era criança. Eu adorava subir no equipamento como se faz hoje com um patinete motorizado.   Surpresa como quem reencontra na rua uma velha conhecida, tratei de apontar a geringonça para minha filha mais velha e expliquei para que servia. A garotinha de 7 anos arregalou os olhos impressionada. “Sério?“.
Em seguida, vi uma televisão com controle remoto, um dos primeiros modelos lançados por um fabricante nacional, e que também fez parte da minha infância.
“Olha aquela, olha aquela! Eu tive uma dessas em casa!”
A filha me lançou aquele olhar lá de baixo com uma careta de quem achou a pequena TV o fim da picada. A expressão infantil em seu rosto poderia levar a seguinte legenda: “E você se orgulha disso!?”
Animada, e já nem aí para minha plateia (sem acento!), fui sozinha atrás de uma máquina de escrever pensando “deve ter uma igual à minha por aqui…cadê…”
Eu não sei o que isso irá significar quando elas cresceram mais um pouco e começarem a concluir com os amigos que nossos pais são do século passado, tem que dar um desconto para eles. Preparem-se para as piadas.
Assistimos TV em preto e branco. Brincamos com o avô dos jogos eletrônicos, o Atari, e o bisavô (lembram daquele rudimentar jogo eletrônico de tênis na televisão?). Vimos surgir a TV colorida e canais abertos como grandes acontecimentos. Testemunhamos uma revolução de costumes, mas estamos a léguas de bites dos nossos filhos, criados com um cardápio televisivo que chega às centenas de canais.
Não nos ensinaram a lidar com smartphones, tablets, MACs e Ipods na escola. Chegará o dia em que minhas filhas dominarão meu computador e seus aplicativos com muito mais desenvoltura do que eu _ que tive de ir aprendendo na marra enquanto trabalhava, amamentava, cuidava delas, do meu casamento, da minha vida e tentava dormir no intervalo disso tudo _ e comentarão penalizadas “mamãe não usa nem 20% daquele Mac”. Verdade, e eu vos direi: fazemos o mesmo com nossa mente e estamos aí.



Como uma típica representante do século 20, estarei nesse curioso limbo entre a rede social e o encontro cara-a-cara. Um é legal mas o outro, muito melhor. Acho que continuarei implicando com jogos eletrônicos e com essa mania que quase todo mundo tem de falar contigo enquanto atualiza algo no smartphone.
Como pais do século passado, somos velhos o suficiente para saber que a evolução é rápida mas que se adaptar é possível. O bom é que somos jovens o bastante para nos empolgarmos com as novidades e usar a tecnologia sem perder de vista o mais importante: o tempo de conviver.
Somos o elo obrigatório entre duas eras e duas galeras. Uma que reunia a família na sala para assistir a slides da viagem e outra que compartilha álbuns no Facebook com os amigos em tempo real. Somos uns privilegiados que, como todos os pais, também querem ensinar a nossos filhos o valor de certas tradições.
Que venham as piadas, portanto. A gente aguenta.


31 de out. de 2012

Imagem do dia


Novembro é o mês da consciência negra, com o dia 20 destinado para Zumbi dos Palmares e sua imagem de resistência e luta.

Novembro também é o mês derradeiro do TCC da dona do blog. Prometo que depois darei mais atenção ao meu tão abandonado blog =/ Ossos do ofício de estudante...

Enquanto eu não termino minhas tarefas, deixo uma imagem linda sobre a África e o Brasil.



17 de set. de 2012

Racismo cotidiano

Esse post foi retirado do blog Escreva Lola Escreva e discute uma cena de racismo presenciada por uma das leitoras do blog. Racismo velado, mas muito claro para quem visualizava a cena.

GUEST POST: RACISMO NA CABELEIREIRA

Cecilia é uma cientista com um cabelão loiro, crespo, que vai até o joelho. Esta foto que ela me enviou é de quatro anos atrás. Hoje seu cabelo está muito mais longo e, como dá pra imaginar, exige muito tempo pra cuidar. 
Bom, o guest post em que o Robson falava do nosso padrão de beleza racista inspirou Cecilia a relatar algo que tinha acabado de acontecer com ela. Quer dizer, não com ela -- ela foi mais testemunha que vítima da história. A vítima? Todos nós. Uma sociedade só tem a perder quando é racista. Ainda mais quando o racismo está enraizado dentro de nós.

Este post caiu como uma luva para uma situação horrível que vivi ontem, e que gostaria de desabafar. Não quero me expor nem expor o nome do salão cabeleireiro, já que vou relatar um crime do qual não tenho nenhuma prova (além do meu testemunho). Não quero sofrer retaliação ou mesmo gerar uma onda de ódio caso a pessoa seja reconhecida. 
Moro numa cidade no interior de São Paulo. Meus pais são imigrantes europeus, o que me garantiu uma pele branca, olhos claros e cabelos loiros. 
Não sou exatamente vaidosa, mas gosto muito do meu cabelo. Muito mesmo -- ele tem mais ou menos 1,5m de comprimento, e o cultivo com muito carinho! 
Hoje resolvi experimentar um salão novo que abriu aqui perto de casa para fazer uma hidratação (faço mensalmente). Geralmente quando chego no salão já vou logo avisando que meu cabelo é difícil -- é fino, embaraça muito fácil. E que topo pagar mais por causa disso, sei que é quase tortura tratar dele. 
Como sempre, fui muito bem tratada; a moça, que é dona do salão, disse que não cobraria a mais por causa do comprimento (R$ 150 para cabelos longos) e foi logo puxando papo. Disse que iria até me fazer desconto, porque o movimento tá fraco agora em agosto, e ela está com dificuldades para pagar as contas, muitos horários vazios, naquele dia mesmo ela não tinha mais ninguém, e ainda era 13h. 
Começou o serviço. Primeiro, tentou me convencer a fazer escova progressiva (meu cabelo não é liso, é ondulado). Não, obrigada, gosto dele do jeito que é. Depois de insistir um pouco, começou a me oferecer fazer luzes, que ficaria muito bom. Novamente, não, obrigada, gosto dele do jeito que é e não quero pintar/mudar, estou satisfeita. Não gosto da ideia de passar produtos que possam prejudicá-lo, e realmente gosto dele do jeito que é. 
Aí veio o primeiro choque. Ela tentou me provar que luzes não fazem mal ao cabelo mostrando a foto da sua sobrinha de um ano (!) que tinha feito luzes. E aproveitou para compará-la comigo, que ela era loirinha como eu. Essa situação me desconcertou: dizer que a menina era loira sendo que não era. A menina (devo dizer bebê?) tinha a pele morena e traços fortemente africanos. Não tinha nada de loira além das luzes no cabelo. Não sei dizer o que me chocou mais: fazer luzes numa criança de um ano ou fazer isso para que ela fique 'loira'. Essa criança vai ouvir desde sempre que é errado ser do jeito que ela é, com seus cabelos negros -- melhor é ser loira. 
Comecei a me sentir desconfortável no salão. A moça não parava de sugerir que a cor do meu cabelo era ótima, bem melhor do que os cabelos que ela costumava atender. Como se ela me dissesse: você é melhor porque é branca. 
Mas isso não foi o que mais me chocou. Quando estava quase terminando, um carro parou na porta e uma moça entrou. A princípio não dei muita atenção, ela só estava pedindo para fazer uma hidratação. A cabeleireira disse que para o cabelo dela custaria 450 reais. Isso me chamou a atenção (três vezes mais do que ela me pediu! -- qual seria o tamanho do cabelo da moça?) e dei uma boa olhada nela. Era uma mulher bonita, vinte e poucos anos, negra, com uma cabelo muito bonito um pouco abaixo dos ombros. Ou seja, bem mais curto que o meu. 
Mesmo com o preço salgado, a moça disse ok e perguntou se poderia ser no mesmo dia ou no dia seguinte. A cabeleireira abriu a agenda e disse que estava lotada até setembro -- enquanto eu olhava a agenda pelo reflexo do espelho, vendo que não tinha NADA marcado. 
A cliente agradeceu e perguntou se ela conhecia algum salão na região. A resposta: "Ah, para tratar seu tipo de cabelo, sugiro que você procure salões nos bairros tal e tal" (bairros extremamente pobres da minha cidade). 
Novamente ela agradeceu e foi embora num carro novinho (não entendo de carro, mas era um carrão -- desses grandes, que custam bem caro). E a cabeleireira voltou para finalizar o meu, comentando:
Cabeleireira: "Ah, ainda bem que ela foi embora. Tentei colocar um preço alto mas mesmo assim ela não desistiu"
Eu (chocada): "Mas você não estava precisando de dinheiro e com horário vago?"
C: "Estava, mas ainda não tô passando fome para atender gente assim."
Eu: "Assim como?"
C: "Ah, esse pessoal de cor. O cabelo é muito ruim, não é bonito e fácil de lidar como o seu. Além do mais eles têm um cheiro esquisito, já reparou? Não cheiram bem como a gente que é loira, o suor deles é muito fedido."
Não consegui responder. Fiquei olhando para ela. Loira como a gente? Ok, eu sou loira, mas ela decididamente não era. Tinha os olhos castanhos claros, a pele bem escura, cabelos que no original deviam ser negros e ondulados, mas que estavam alisados e pintados de loiros, e traços africanos no rosto. 
Não sei o que me chocou mais: se foi o racismo, ali, na minha frente, quase cuspindo no meu rosto, ou se foi a fonte dele, uma moça comum, com óbvia ascendência negra. Não que o racismo por pessoas brancas seja justificável, mas aquela mulher, além de rejeitar o próximo, estava rejeitando a si mesma. 
Eu fiquei pensando naquela moça que foi dispensada. Não bastava ela ter dinheiro para pagar (pertencer à tão privilegiada e minoritária classe média), ter tempo livre (não é todo mundo que pode ir para um salão numa sexta à tarde), dirigir um bom carro. Nada disso importava. Ela ia continuar sendo mandada para a periferia, lá é o seu lugar, não importa quanto dinheiro tenha. Ela ia continuar sendo 'fedida'. 
Eu não consegui reagir. O que responder, Lola? O que responder, pessoal? Denunciar para quem? Provar como? Se a própria vítima foi embora.  
Essa moça não entrou no salão da Ku Klux Kan. Não havia uma suástica desenhada na parede. A pessoa que a atendeu não era um exemplar racista, era uma mulher como ela, como somos todos nós, filhos de pessoas de outras terras. Era só um salão de esquina, igual a tantos outros. E mesmo assim ela sofreu um racismo bárbaro. 
Visualizei a cena dela entrando de salão em salão e sendo rejeitada, enquanto todos a mandavam para o seu lugar. 
Não consegui falar mais nada depois disso. A moça ainda fez alguns comentários, mas respondi com monossílabos, paguei e fui embora. Sei que não vou voltar mais lá. Pessoas da minha família também não. Mas me pergunto se isso é o bastante. Mesmo que a mulher tivesse sido processada e presa (afinal, racismo é crime inafiançável), seria o bastante? Quando as pessoas negam a si próprias, tentam ser aquilo que não são, acham que os outros que têm os genes ligeiramente diferentes são melhores, o que fazer?
Parei e pensei: quantos amigos negros eu tenho? Dois. Sou racista? Não. Mas no meu mundinho de classe média pessoas negras não entram. Tenho amigos brancos como eu e asiáticos, porque essas pessoas estudam em escolas particulares, moram em bairros bons e estudam em faculdades de primeira. Os negros são minoria nesse mundo. E, quando entram, há aqueles que não os aceitam, que acham que eles devem continuar pobres, como gente fedida deve ser. 
O que fazer quando o racismo bate tão violentamente a sua porta? 

Meu comentário: Deixo para vocês responderem às questões da Cecilia. Mas eu me lembro de um dos maiores exemplos de racismo que já vi impressos. Saiu na coluna esportiva de um jornal catarinense, talvez em 1996. Tinha havido um daqueles tensos duelos do vôlei feminino, Brasil vs Cuba, arena de muita rivalidade. E o jornalista decidiu focar na aparência física das jogadoras. As brasileiras, quase todas brancas (apesar de vivermos num país em que mais de 50% da população é negra ou parda), eram lindas, delicadas e dignas, segundo o colunista. As cubanas, todas negras, ele chamou de crioulas, macacas, fedidas -- enfim, todos os termos racistas que a gente conhece. Eu fiquei de cara. Não conseguia acreditar que estava lendo aquilo. E, a ironia suprema: o jornalista é negro. Deve ser o único colunista negro de SC, se bobear.
Eu não escrevi pro jornal protestando, porque pensei: sou branca, acho, e o cara é negro. E eu vou estar acusando um negro de racismo. Hoje protestaria sem piscar. Aliás, hoje, com a internet, aquela coluna, e as reações a ela, correriam o Brasil. Mas eram outros tempos, pré-internet. Não li nenhuma carta de protesto no jornal. Nunca vi aquele colunista se retratar.
Só que individualizar o problema é fácil demais. Pensar que a cabeleireira com ascendência negra ou o jornalista negro é que são racistas, e a gente não, é bem cômodo. Dá até pra jogar aquelas frases de efeito no meio, né? Aquelas baboseiras de "negros são os piores racistas". Pena que não é verdade. A cabeleireira, o jornalista, eu e você, somos produtos da nossa época e lugar. Eles não foram jogados de uma nave espacial e vieram parar no Brasil por acaso. Eles -- nós -- respiram o racismo de toda uma sociedade. E internalizam tudo. Fica automático. Eles -- nós -- aprendem qual é a cor desejável, a cor padrão, a cor bonita, a cor de quem tem poder. Aprendem que negros são feios e fedidos. E que tudo bem chamar negro de crioulo e macaco, ainda mais se for só uma piadinha inocente, o politicamente correto quer acabar com nossa liberdade bla bla bla!
Este relato da Cecilia é interessante também para rebater o pessoal do "não somos racistas", que tá mais pra "não somos apenas racistas". Sabe o pessoal que diz que a discriminação no Brasil é pela classe social, não pela cor? Pois é. Pensem na moça que, mesmo tendo dinheiro pra pagar, não é atendida num salão por uma cabeleireira que acredita que negros cheiram mal.

7 de jun. de 2012

Quer que desenhe?

Esse post é uma dica de um vídeo retirado do site Um Sábado Qualquer. Esse site é muito bom, eu sou fã das tirinhas e histórias de Deus e sua turma. O dono do site, Carlos Ruas, de vez em quando cria uns vídeos para explicar alguns assuntos relacionados ao tema do site.

O vídeo escolhido trata de forma breve, mas muito clara, algumas vertentes religiosas. Achei interessante para trabalhar com os alunos.

Segue o vídeo:

Inté!


31 de mai. de 2012

Imagem da semana

Não adianta reclamar dos políticos corruptos se não formos honestos em pequenas atitudes cotidianas. Diz um ditado que "a ocasião faz o ladrão", o que você faria se tivesse a oportunidade de se envolver com o dinheiro público como os políticos têm?

20 de mai. de 2012

O que é patrimônio?

A palavra patrimônio possui diferentes significados que estão relacionados a uma ideia de coleção de bens: podem ser os bens financeiros que uma pessoa ou empresa herda ou adquire ao longo de um tempo, até um conjunto de bens que simbolizam e representam um grupo de pessoas dentro de um espaço e tempo.
O nosso estudo estará centrado nesse segundo conceito de patrimônio, que se relaciona com a história, memória e identidade de uma coletividade. Nos últimos anos, a questão da memória e da preservação histórica se tornou importante na sociedade. Diversos museus, memoriais e arquivos foram construídos para se conservar diferentes histórias de pessoas ou instituições particulares ou governamentais. A multiplicação desses espaços de memória está relacionada com a ideia de patrimônio, de não esquecimento desses momentos dentro da história, além de incentivo à pesquisa e conservação.
A noção de patrimônio histórico surgiu na Idade Moderna, quando os primeiros Estados Nacionais europeus estavam se formando. A concepção de nação, grupo de pessoas que se identificam através da língua e dos costumes comuns, se tornou uma preocupação com as gerações futuras. Como tornar as próximas gerações pertencentes a essa nação? Era necessário preservar a memória nacional, para que os novos cidadãos se sentissem identificados e pertencessem a essa nação. Essa herança cultural originaria um sentimento de pertencimento dos cidadãos para esse espaço que estava sendo construído.
A partir disso foram elaborados arquivos nacionais e museus, onde eram guardados objetos reais ou dos grupos mais ricos daquela sociedade. Portanto, havia uma escolha dos objetos a serem preservados nesses espaços de memória e essa seleção era dada através dos grupos mais influentes e divulgada como nacional. Ensinava-se que todos pertenciam aquele espaço territorial, porém a grande maioria não se identificava com os objetos destacados.
Nos últimos anos, ocorreu uma mudança de significado sobre o patrimônio histórico e artístico. Ao invés de uma história nacional, centrada no passado heróico dos grupos sociais mais ricos, foi se percebendo que diversos grupos estão presentes dentro de um Estado nacional e que ao invés de uma identidade e história, existem diferentes identidades e histórias. O foco passou da unidade para a pluralidade de grupos sociais reivindicando suas memórias e identidades. O patrimônio histórico e artístico transformou-se em patrimônio cultural, representando as manifestações, realizações e representações de uma comunidade. Dentro desse novo conceito, os objetos, prédios e monumentos antigos continuam sendo preservados, porém representações imateriais, como danças, festas e expressões culturais de diversos grupos são consideradas patrimônio por estar vinculado a identidades e memórias de uma coletividade. Acentua-se o caráter de seleção, pois são as pessoas atuais que determinam os bens culturais que as representam no seu passado e presente, que as identificam como sujeitos históricos e cidadãos plenos que constroem as suas memórias. O presente também conta, não somente a sua significação no passado.
Portanto, a palavra patrimônio não é um termo de simples compreensão. Primeiro, por ter diferentes significados. Segundo, por incorporar visões complexas de como a sociedade se apropria de sua história e constrói a suas memórias e identidades. Com o passar do tempo, essas visões vão se modificando dificultando mais ainda a interpretação desse conceito.

22 de fev. de 2012

Outros Carnavais

Nessa quarta-feira de cinzas, mais conhecida como "Enterro dos Ossos", trago algumas imagens de carnavais antigos retiradas do facebook do Memória Viva. Vejam como a comemoração mudou ao longo do tempo, seja pelas fantasias, locais onde se "pulava" Carnaval ou pelos acessórios presentes nas folias, como o Lança Perfume (hoje considerado droga ilícita e proibido seu uso e venda). Uma característica que permanece é a vontade dos foliões de se divertir e comemorar esses dias de festa e quebra de rotina.

Magé Lin e a sua irmã Thereza Lima em Salvador no ano de 1958.



Baile de Carnaval em clubes era comum. Na foto, a festa aconteceu no Clube Curitibano, por volta de 1950. O pessoal fantasiado e com lança-perfume na mão eram familiares de Lisiane Barberi.


Outro baile de Carnaval no Clube Comercial de São Borja , RS, em 1963. A moça  posando com sua fantasia é  Magda Lucia Magalhães Bonfiglio

Quer saber um pouco mais do projeto Memória Viva? Acesse o site aqui.

Inté!


26 de jan. de 2012

Elis Regina: Um diamante verdadeiro

Olá pessoal!

Blogueira de férias, portanto recorro mais uma vez ao site da Revista de História da Biblioteca Nacional para trazer novidades por aqui. Esse ano, 2012, completam-se trinta anos da morte de Elis Regina, que morreu precocemente aos 36 anos. Eu gosto muito de escutá-la e é uma pena que não tive a oportunidade de vê-la em um show.

Segue a reportagem retirada do site da RHBN sobre a cantora que pode ser vista completamente aqui. Aproveite!!!!

Um diamante verdadeiro

Elis Regina contraria expectativas e chega ao topo em sua vida breve

Celso de Castro Barbosa


No prefácio de “Furacão Elis”, biografia que Regina Echeverria lançou apenas três anos depois da morte da cantora, Hamilton Almeida Filho, o Hamiltinho, jornalista e marido da autora,  matou a charada.  “Essa Elis, mulher, por muito tempo foi a voz que nos revelou o quanto morríamos de saudade do Brasil”.
Pobre, vesga, rechonchuda, tampinha – só cresceu até 1,53m – e linda, Elis Regina Carvalho Costa (1945-1982) nasceu na periferia de Porto Alegre e viveu a infância e adolescência num conjunto habitacional*. Tinha tudo para dar errado. Não deu. Compõe qualquer lista das maiores cantoras populares do século XX, com a vantagem de ser muito mais versátil do que Ella Fitzgerald, Billie Holiday ou Edith Piaf. Além do blues, do jazz e das canções românticas que as divas consagraram, ela também mandava muito bem no samba, rock, bolero, bossa nova, Milton Nascimento (um gênero à parte), em tudo o que tem a ver com melodia, ritmo e harmonia. E com uma mistura de técnica e emoção de cair o queixo.
Uma vez Elis contou que tinha tanto som dentro da cabeça que era inevitável, em algum momento, pôr tudo pra fora. Pôs ainda menina, vencendo concursos de programas de rádio na capital gaúcha e imitando, descaradamente e com perfeição, o ídolo Angela Maria. A inspiração da Sapoti acompanhou Elis até o fim.

Porto Alegre, naturalmente, ficou pequena para a cantora e em 31 de março de 1964 Elis desembarcou no Rio de Janeiro com o pai, que trazia no bolso uma carta de recomendação do PTB, o partido do presidente João Goulart, deposto em golpe militar no dia seguinte. Foi preciso se virar. Primeiro, chamou a atenção dos músicos que animavam a noite carioca, especialmente pela emissão e divisão rítmica. Um espanto, ninguém até ali ouvira nada parecido. Um passo importante para conquistar a amizade de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, que confiaram a ela a defesa de Arrastão no festival da TV Excelsior de 1965. Pronto. O Brasil tinha uma estrela que brilharia pelos próximos 17 anos. Nossa primeira cantora moderna. A era do rádio ficara, para sempre, no passado.
Até o fim dos 1960 só deu Elis. No Fino da Bossa, programa de maior audiência da TV Record, dividiu o palco com mais de 60 artistas de todos os gêneros da música brasileira.  Alguns duetos, como o com Elza Soares são registros de um tempo que, se não volta mais, pode ao menos servir de inspiração para quem se aventurar.
Mas estava tudo bom demais para ser verdade. Roberto, Erasmo e Wanderléa não estavam para brincadeira. O iêiêiê, a Jovem Guarda, decretou a morte do Fino e uma disputa inusitada, engraçadíssima vista de hoje, pôs a turma do samba em pé de guerra contra a turma do rock. Sobrou para a guitarra elétrica, um dos instrumentos que compõem a base harmônica da música brasileira desde os anos 1920. Houve até passeata contra ela no centro de São Paulo. Elis, Gilberto Gil e Edu Lobo à frente.
Ciclotímica, como se chamavam na época os bipolares, são impressionantes os relatos dos que conviveram com Elis e viram de perto suas mudanças bruscas de comportamento. Em cinco minutos ia da depressão à euforia ou vice-versa. Por isso não levou muito tempo para incorporar a “maldita” guitarra a suas bandas.  E o resultado foi espetacular.
Em três discos, dois produzidos por Nelson Motta em 1970 e 1971, a ciclotimia se manifestou de forma inequívoca. Está tudo lá. Guitarras, Roberto e Erasmo, autores de As Curvas da Estrada de Santos, Se você pensa e Mundo Deserto e, não bastasse, a apresentação de um cantor novo, um tal de Tim Maia com quem divide “These are the songs”. Há ainda uma gravação memorável de “Golden slumbers”, de Lennon e McCartney, e outra não menos, “Cinema Olympia”, de Caetano Veloso.

Nos anos seguintes, ao lado de Cesar Camargo Mariano, dublê de marido e maestro, Elis viveu seus anos dourados que a música, penhoradamente, agradece. Aperfeiçoou a técnica, descobriu mais de uma dezena de bons compositores, gravou discos antológicos e produziu shows idem.  Que disco é capaz de reunir, como no LP de 1972, “Águas de março” (Tom Jobim), “Atrás da porta” (Francis Hime e Chico Buarque), “Mucuripe” (Fagner e Belchior) e “Bala com bala” (João Bosco e Aldir Blanc), entre outras joias raras? Pergunta que permanece sem resposta, quarenta anos depois.
Sua obra-prima, no entanto, estava reservada para dois anos depois quando, ao lado de Tom Jobim, gravou, em Los Angeles, na modesta opinião deste redator, o melhor disco da música brasileira de todos os tempos, Elis & Tom. Nossa cantora mais talentosa ao lado do mais inspirado compositor. Juntos. E para sempre.
Nos palcos, Elis deu início a uma revolução. Em sua carreira e na maneira de se conceber e produzir espetáculos no Brasil. Música, teatro e dança, tudo ao mesmo tempo agora como no show “Falso Brilhante”, de 1976.  Antes de sua morte ela ainda estrelaria quatro grandes espetáculos: O Trem Azul, Saudade do Brasil, Essa Mulher e Transversal do Tempo. Neste último, panfletário do início ao fim, deu a impressão de querer sair do palco e derrubar a ditadura. Pessoalmente. Não perdeu a oportunidade de hostilizar Caetano Veloso, numa versão debochada de um trecho da música “Gente”.
Àquela altura, 1978, o pessoal da cultura se dividia entre duas patrulhas. A ideológica, da qual Elis fazia parte, e a odara, da qual Caetano era uma espécie de fundador e comandante em chefe. Enquanto a Patrulha Odara via com desdém as manifestações explícitas de horror à ditadura, a Patrulha Ideológica cobrava engajamento político dos que se dedicavam a cultuar a beleza e o prazer e que produziram coisas belas e prazerosas no período, como a música “Odara”, de Caetano.  Uma bobagem.
Nos últimos anos de sua vida breve, de 36 anos, Elis já era uma das maiores, senão a maior cantora popular em atividade no planeta.  Quando morreu, em 1982, o povo e a imprensa foram generosos, exceção da revista Veja, que serviu um aperitivo do que se tornaria vinte anos depois: informações jamais confirmadas e muita ficção para atingir a imagem da cantora. Caetano Veloso protestou, com veemência, na TV Globo, dizendo que os filhos de Elis precisavam saber que a mãe não era a pessoa de que a revista falava. Veja vendeu muitos exemplares e perdeu muito prestígio.

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* Comentário da blogueira: o bairro onde Elis Regina nasceu chama-se IAPI, fica na zona norte de Porto Alegre, e possui como característica prédios com até três andares e um modelo de arquitetura que mescla os prédios com diversas áreas verdes, como praças ou parques, próprio para famílias de operários residirem (foi um bairro criado para trabalhadores viverem). 



Segue, só para ilustrar, um vídeo da cantora: