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10 de mar. de 2014

Doze Anos de Escravidão


Retirando a poeira deste blog, eis o ganhador do Oscar de melhor filme em 2014. Doze Anos de Escravidão. Filme elaborado a partir do livro escrito por Solomon Northuop, liberto que foi sequestrado e tornado escravo por doze anos. O filme se passa nos EUA do século XIX, mas segundo Lilia Moritz Schwarcz e Maria Helena Machado, o regime escravista de lá retratado no filme tem semelhanças com o sistema escravista do Brasil. 

As historiadoras escreveram um texto comentando o filme e as possíveis comparações entre a escravidão dos EUA e a do Brasil. Segue o link para o texto: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/154391-um-pouquinho-de-brasil.shtml

8 de mar. de 2014

Dia Internacional da Mulher

Para lembrar esse dia de luta por igualdade de gêneros, deixo aqui o discurso de agradecimento de Lupita Nyong'o no evento "Black Women in Hollywood". O discurso foi retirado do blog Escreva Lola Escreva
Para quem não sabe, Lupita é atriz e ganhou o Oscar como Atriz Coadjuvante no filme também pemiado "Doze Anos de Escravidão".

Eis o discurso da moça:

Recebi uma carta de uma garota e gostaria de dividir um pequeno trecho com vocês: “Querida Lupita,” diz ela, “Acho que você é realmente sortuda por ser tão negra e ainda assim fazer esse sucesso todo em Hollywood da noite para o dia. Eu estava quase comprando o creme Dencia’s Whitenicious para clarear a minha pele quando você apareceu no mapa mundial e me salvou”.
Meu coração sangrou um pouco quando li essas palavras. Jamais poderia imaginar que meu primeiro trabalho após terminar os estudos seria tão poderoso em e por si mesmo que me lançaria como uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura o foram para mim.
Lembro de um tempo em que eu também não me sentia bonita. Eu ligava a TV e só via peles rosadas, clarinhas. Eu achava que minha pele de matiz noturnal era uma provocação e um insulto. E minha única súplica a Deus, o fazedor de milagres, era que eu pudesse acordar com a pele mais clara. Vinha a manhã e eu ficava tão excitada para ver minha nova pele que me recusava a olhar os meus pés até estar de frente ao espelho, porque eu queria ver meu rosto claro primeiro. E todos os dias eu vivia a mesma decepção de continuar tão escura quanto no dia anterior. 
Eu tentava negociar com Deus: dizia pra ele que iria parar de roubar torrões de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria; que ouviria todas as palavras de minha mãe e nunca mais perderia minha blusa da escola se ele simplesmente me tornasse um pouco mais clara. Mas acho que Deus não se impressionava com minhas moedas de troca porque Ele jamais atendeu aos meus pedidos.
E quando eu era adolescente meu ódio por mim mesma ficou ainda pior, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava com frequência que ela me achava linda, mas isso não me consolava: ela é minha mãe, é claro que se espera que ela me ache bonita. Foi então que Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, estava em todas as passarelas e em cada revista e todos falavam sobre o quanto ela era linda. Até a Oprah disse que ela era linda, o que tornou isso um fato. 
Eu não podia acreditar que as pessoas estavam aceitando uma mulher que se parecia tanto comigo como bonita. Minhas características físicas sempre foram um obstáculo difícil de vencer e, de repente, Oprah estava dizendo que não, elas não eram isso. Isso era espantoso e eu não queria aceitar isso porque eu estava começando a gostar da sedução da inadequação. Mas não dava para segurar a flor que estava desabrochando dentro de mim. 
Quando vi Alek eu, inadvertidamente, vi um reflexo de mim mesma que eu não podia refutar. Agora eu tinha molas nos pés, porque eu me sentia mais visível, mais valorizada pelos distantes porteiros da beleza, mas à minha volta a preferência por peles claras ainda prevalecia. Para os observadores que eu considerava importantes, eu ainda não era bonita. E minha mãe, de novo, me dizia: “Você não pode comer a beleza. Ela não te alimenta”. E essas palavras me atormentavam e aborreciam; eu não as entendi de verdade até finalmente compreender que a beleza não era algo que eu pudesse adquirir ou consumir, era algo que eu simplesmente precisava ser.
E o que minha mãe quis dizer quando me falou que não se pode comer a beleza foi que não se deve confiar no seu visual para se manter. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesma e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. É o que colocou Patsey em tantas dificuldades com seu senhor, mas também o que manteve sua história viva até hoje. Lembramos-nos da beleza de seu espírito, mesmo depois que a beleza de seu corpo se desvaneceu.
Assim, eu espero que minha presença no cinema e nas revistas possa levar você, jovem garota, em uma jornada parecida. Que você sinta a validação de sua beleza externa, mas também se dê conta do profundo trabalho de ser bela por dentro. Não há tons [jogo com os significados de shade, que pode ser sombra ou tom de cor] para essa beleza.

16 de out. de 2013

Arquivos da Cidade

Para visualizar o documentário, clique nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=nIIma7ZtSPY

Informações sobre o documentário:
Diretores: Felipe Diniz e Luciana Knijnik
Ano: 2009
Depoimentos:
Antonio Losada;
Lino Brum Filho;
Carlos de Ré;
Gregório Mendonça;
Ignez Serpa Ramminger;
Bona Garcia.

Esse documentário proporciona uma boa aula de história sobre a Ditadura Civil-Militar Brasileira. A começar pelo nome “Arquivos da Cidade”: são seis pessoas, seis memórias, seis depoimentos, seis arquivos de seis diferentes experiências de quem lutou contra a ditadura em Porto Alegre. Os arquivos aqui não remetem a papeis e documentos antigos, mas se referem a diferentes pessoas: estudantes, líderes sindicais, familiares de desaparecidos, que viveram este período da história nacional e tem muito que contar de suas vivências.

Antes de continuar o texto sobre o documentário, uma ressalva teórica: memória não é história. Lembrar um evento ocorrido anos atrás não quer dizer que se está escrevendo “A” história do período. A memória é um mosaico que se faz e refaz a todo instante, dependendo do momento em que é solicitada a lembrança. Então, a memória dos acontecimentos ocorridos no período da ditadura para essas pessoas na década de 1990 era distinta das lembranças gravadas nesse documentário em 2009. Isso acontece não porque essas pessoas querem “mascarar” os acontecimentos e esconder a “verdade”. Isso ocorre porque a memória do ser humano é assim, inconstante, fugaz, transitória. Devido a essa característica, técnicas de pesquisa são utilizadas para escrever a história do período levando em consideração os depoimentos das pessoas, de maneira que o produto final esteja dentro dos métodos científicos que a ciência da história permite e aceita.

Os arquivos da cidade se referem a uma cidade em específico: Porto Alegre. Essa é mais uma característica que favorece a escolha desse documentário principalmente para quem leciona na própria cidade. É comum no ensino de história focar no Brasil. Sendo assim, algumas cidades mais “nacionais” são destacadas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. Essa é uma oportunidade de destacar o que aconteceu aqui, na cidade dos alunos, destacando locais que eles conhecem porque já passaram por lá, como o Hospital Nossa Senhora da Conceição comentado no vídeo.

É interessante destacar Porto Alegre também devido a sua participação dentro do contexto de Ditadura Civil-Militar. Por ser a capital do estado do RS o aparelho burocrático e repressivo do governo ditatorial era centralizado aqui. Além disso, o estado do RS é fronteira da Argentina e Uruguai, favorecendo trocas de informações e prisioneiros, pela Operação Condor. Isso favorece em pensar a cidade como ponto estratégico do governo brasileiro, não como um lugar em que nada aconteceu ou como palco secundário, deslocando o foco para o Rio de Janeiro ou Brasília.

Documentário não é um gênero cinematográfico que os alunos estão acostumados. Entretanto esse em específico foi feliz em dois quesitos: por ter uma curta duração, favorecendo que professores com poucos períodos de aula semanais consigam exibi-lo em um período e porque são as pessoas que contam, de “cara limpa e peito aberto” suas histórias, incluindo o período da prisão e da tortura. Nada mais impactante que ouvir e ver uma pessoa contando o que ela passou, a empatia é muito mais forte. Isso prende a atenção dos discentes, mesmo os mais dorminhocos.


Para finalizar, destaco a questão do vocabulário da época. “Expropriação”, “Revolução”, “Clandestinidade”, são palavras que os depoentes falam e que favorecem tratar do contexto desse vocabulário na época. Só essas três já propiciam uma outra aula. Cair na clandestinidade era abandonar a sua identidade: largar emprego, família, casa, trocar de nome, mudar de cidade, fugir da polícia que estava procurando por você. Normalmente as pessoas ficavam em “aparelhos”, que eram casas ou apartamentos alugados para disfarçarem os clandestinos e proporcionarem lugares para as reuniões dos movimentos organizados. A “Revolução” era a revolução de esquerda, sendo o modelo cubano o mais pensado e desejado, com a tomada do poder e a transformação do Brasil em um país comunista. E “expropriação” eram roubos e assaltos cometidos pelos movimentos de esquerda organizados para arrecadarem dinheiro para a “Revolução”, financiarem armamentos e manterem seus integrantes na clandestinidade.

9 de jan. de 2012

Dica de filme antigo: Olga

Janeiro, mês de férias, o blog traz uma dica de um filme brasileiro antigo, lançado em 2004: Olga.

O filme é baseado no livro de Fernando Morais, também chamado "Olga", e trata de forma romanceada a biografia da alemã judia Olga Benário que veio para o Brasil com o objetivo de auxiliar a implantação de uma revolução que levasse o Brasil a se tornar um país comunista, em meados da década de 1930.
Aqui no Brasil, ela foi escalada como segurança de Luis Carlos Prestes. Prestes era militar e uma figura conhecida por liderar um movimento de oposição ao governo que percorreu o interior do Brasil e ficou conhecido como "Coluna Prestes". Em 1935, durante o governo de Getúlio Vargas, a tentativa de revolução por parte de Prestes, Olga, outros dirigentes do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora, acabou não dando certo e o movimento ficou conhecido como "Intentona Comunista".
Nesse meio tempo, Prestes foi preso e Olga também. No entanto, o governo Vargas queria deportá-la para a Alemanha, que estava sob o comando de Hitler. Olga descobriu que está grávida de Prestes e permaneceu no Brasil enquanto a gestação e o período de amamentação da filha ocorreram. Logo depois ela foi deportada para a Alemanha. Imaginem que fim teve uma mulher judia em plena Alemanha de Hitler?

Indico tanto o livro quanto o filme. Na verdade, eu li o livro há muito tempo, nem estava na faculdade ainda, mas achei muito interessante. O filme eu vi no colégio também, quando estava estudando o governo Vargas e a Segunda Guerra Mundial. Segue abaixo o link do trailer:



Enfim, se a Sessão da Tarde estiver com a "Lagoa Azul", aproveite e olhe "Olga"!

Inté!

20 de out. de 2011

Dica de filme: Capitães da Areia


Os livros de Jorge Amado povoaram minha adolescência. Adorava aquela Bahia de Jorge Amado, seus personagens, o candomblé, os malandros e suas Gabrielas. Eis que esse ano surge um filme nacional de um desses livros: Capitães da Areia.
Corri para o cinema e a impressão foi muito boa. Normalmente, a gente prefere o livro ao filme, porém, achei esse filme muito bem costurado dentro dos 90 minutos destinado à história.

E porquê esse post sobre um filme de um livro se o blog é de História?

A história se passa na Bahia, nos anos de 1930, e retrata o cotidiano de um grupo de meninos de rua, chamado Capitães da Areia, que percorrem as ruas da cidade. Desde procurar comida, desenhar, pedir esmolas até furtos e roubos, o cotidiano desses meninos os faz homens. Eles precisam se comportar como adultos, mesmo novos na idade, porque não pode ser ingênuo para viver nas ruas: é necessário negociar acordos, ser esperto para não ser trapaceado, roubar para conseguir um dinheiro, fumar como os outros, jogar cartas para conseguir ganhar as apostas (mesmo roubando) e transar (pois há desejo nesses meninos). Ao mesmo tempo, se encantam com o carrossel da cidade e quando conseguem andar nele voltam a serem crianças e misturam tudo: a maturidade necessária pelas suas condições de vida e o brincar que é tarefa de toda criança.
Portanto, é um romance ficcional, mas que merece atenção por tratar de um assunto ainda comum: crianças abandonadas que precisam “ganhar a vida” de alguma forma. Vivem como adultos, roubam, não vão à escola, andam perdidos pelas ruas da Bahia e quando o governo se preocupa com elas, é devido aos roubos. Solução? Prender, bater e trancafiar na cadeia, com muito serviço no canavial para os infratores.
Será que esses capitães preferiam morar em casa com uma família ou viver no trapiche? O que aconteceu para esses meninos ficarem sem lar? Fugiram ou perderam os pais, como a Dora? Prender e bater nesses “marginais” é o melhor caminho para “colocar na linha” esses meninos? A crítica que o Jorge Amado fez em 1937 perdeu sua validade ou ainda encontramos uns “capitães” pelas cidades brasileiras?

Muitas perguntas para um filme que mistura tudo: arte, literatura, história, romance, crítica social, Jorge Amado, Bahia,...

Vale a pena o ingresso!

Acesse algumas informações aqui (site do filme).

18 de set. de 2011

Independência ou Morte!

Esse post continua sendo dos meus achados para o estágio. Com a indicação do meu professor orientador do estágio, encontrei um trecho do filme brasileiro “Independência ou Morte”, de 1972, com o Tarcísio Meira no papel de Dom Pedro.
Em 1972, a independência do Brasil completava 150 anos (1822). Além disso, estávamos em plena ditadura civil-militar no Brasil, ou seja, produzir um filme que retratasse a formação do Estado, com um Dom Pedro defendendo a pátria brasileira contra os portugueses que desejavam recolonizá-la, era uma bela propaganda para o Estado brasileiro e, de forma direta, para o governo vigente que valorizava os símbolos nacionais, como a bandeira ou o hino nacional.
O trecho que eu encontrei mostra a “cena histórica” do grito do Ipiranga e a coroação de Dom Pedro I. As cenas foram copiadas de quadros famosos do Pedro Américo e do Debret. Acredito que o importante era ser o mais fiel possível à história oficial, aos quadros e as datas, buscando retratar (na medida do possível) o que realmente aconteceu naquele dia.

Segue o trecho do filme:

E os quadros que aparecem nessas cenas:

Debret – Coroação de Dom Pedro I (pintado por volta de 1828)

Pedro Américo – Independência ou Morte (1888)


Inté!