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10 de mar. de 2014

Doze Anos de Escravidão


Retirando a poeira deste blog, eis o ganhador do Oscar de melhor filme em 2014. Doze Anos de Escravidão. Filme elaborado a partir do livro escrito por Solomon Northuop, liberto que foi sequestrado e tornado escravo por doze anos. O filme se passa nos EUA do século XIX, mas segundo Lilia Moritz Schwarcz e Maria Helena Machado, o regime escravista de lá retratado no filme tem semelhanças com o sistema escravista do Brasil. 

As historiadoras escreveram um texto comentando o filme e as possíveis comparações entre a escravidão dos EUA e a do Brasil. Segue o link para o texto: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/154391-um-pouquinho-de-brasil.shtml

24 de out. de 2013

Produções Discentes


Vamos falar de coisas boas nas escolas? 

Pois quando pensamos em escola e principalmente em escolas públicas, vem a nossa cabeça um tsunami de problemas, dificuldades, desaforos, trabalho e descasos. Sim, realmente existe esse "caos" educativo e o objetivo aqui não é discordar disso. Entretanto, dizem que todo o "caos" é criativo e em meio a esse turbilhão há momentos e situações positivas que merecem ser relatadas, comentadas e divulgadas por aí. 
É necessário uma posição diante das dificuldades, mas eu prefiro começar falando do que está dando certo para depois reivindicar e rever o que está errado. Relembrando, mais uma vez, que é somente a minha opinião, não quer dizer que é "a verdade" ou "a correta".

A partir disso, vou apresentar algumas produções textuais dos discentes do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública de Porto Alegre que merecem ser destacadas. Adianto que as produções foram cedidas pelos autores e que realmente merecem a leitura.

O tema da redação era o seguinte: "Gonçalves é um angolano nascido em Luanda que veio para o Brasil passar as férias. Além da curiosidade por conhecer as paisagens brasileiras, Gonçalves queria conhecer mais sobre a escravidão que aconteceu aqui. Como boa parte dos escravos que aportaram para o Brasil vieram de Angola, Gonçalves queria entender o que aconteceu com seus antepassados depois que eles atravessaram o Oceano Atlântico.
Você é muito amigo(a) do angolano e sabe que ele está vindo para o  Brasil. Escreva um texto relatando como tu contarias esse passado escravista brasileiro para o Gonçalves, onde você poderia levar ele, qual a influência dos africanos no país. Além de contar um pouco sobre esses 300 anos de regime escravista, é necessário comentar sobre a situação dos afrodescendentes atualmente. Como ficaram os escravos depois da abolição? Qual a situação dos negros hoje em dia no nosso país?"

A primeira redação a ser publicada é da aluna Gabriela da Rosa Neto:

Ao desfrutar os cocais do litoral, as praias de Copacabana, as matas amazônicas, e o frio gaúcho, você perceberá que não há outro lugar como o Brasil, um país cheio de corrupção política, um país onde a população se preocupa com as novelas da Globo, e com coisas que não fazem sentido e esqueçam que na vida real ainda há pessoas passando fome e falta de educação e hospitais, mas além de todos esses desastres culturais, um dos aspectos mais polêmicos é justamente a questão do negro em relação ao resto da população, é um fato historicamente triste que atinge uma boa parte da população.
O Brasil é um país de miscigenações, onde os índios nativos se escondem, os negros ainda sofrem influências do passado e o branco (colono) sempre se apodera de tudo, os costumes e conceitos etnocêntricos não mudaram muito hoje em dia, em pleno século XXI. No Brasil os “negros” ou “afrodescendentes”, possuem baixas condições econômicas, onde um suposto negro pós-graduado com mestrado e doutorado, muitas vezes ganha uma porcentagem inferior que a de um homem branco que trabalha na mesma área, mas não precisou se esforçar tanto para garantir sucesso na vida, a situação só piora para as mulheres negras, tendo uma porcentagem ainda menor em relação ao salário do homem negro, do homem branco e até mesmo da mulher branca, – quanto a isso, meu amigo Gonçalves, podemos dizer que não será nada fácil pra você, – pois ainda há um notável preconceito no mercado de trabalho, quanto  a questão genérica ou étnica.
Na região Sul do Brasil não há muita descendência negra, é uma etnia mais habitada para o litoral Norte e Nordeste do Brasil, pois na época da escravidão era mais fácil transportá-los dos navios negreiros chegados da África para o litoral do Brasil. A Bahia era o estado que mais produzia cacau na época, e era a região que mais havia escravos para produzir mais cacau e vender ao exterior, mais fluentemente entre a época do Brasil Colônia ao Imperialismo de Dom João VI, que foi uma época bastante conturbada para quem nasceu na África, até porque era abundante o comércio de escravos, estes eram vendidos como produtos e mão de obras baratas.
A Abolição da Escravidão, em 1888, e consequentemente a Proclamação da República, em 1889, não adiantaram de nada para as condições de quem trabalhava para “senhores de engenho”, muitos deles já não tinham oportunidades de emprego e não tinham como se sustentar, portanto, estes se acolheram em cortiços e morros, dando início a uma serie do que viria a ser a pobreza do negro hoje em dia, por isso a maioria, ainda hoje mora em vilas e têm mínimas condições econômicas, outros poucos se contentaram com o sistema, foram à luta e conseguiram mudar de vida econômica.
Ainda durante o século XX, foi uma época difícil para quem nasceu negro, pois ainda havia preconceitos e insultos, na década de 1950 algumas famílias negras ainda trabalhavam nas casas de pessoas brancas, mas isso não era visto como escravidão, pois essas famílias sustentavam os filhos dos trabalhadores e ainda davam um troquinho pela recompensa. Mas na década de 1980 foi legalizada uma lei, dizendo que era crime discriminar uma pessoa pela aparência externa, ou mais precisamente, descriminar um negro pela cor da pele ou pelas condições de vida. E por lei é permitido que todo o ser humano, seja lá qual etnia for, deve ser tratado como um cidadão, com direitos iguais, como todos os demais, pensando nisso, o sistema resolveu concretizar as Cotas Raciais nas Universidades, já que poucos têm condições de pagar para estudar em universidades públicas ou federais, enquanto outros têm que trabalhar muito para pagar os estudos, embora essa política não sirva somente para os negros, pois não adianta nada um negro ter estudado o ensino médio inteiro em escola particular, esse sistema vale para quem estudou durante todo o ensino médio em escola pública e que tenha uma renda média per capita de um salário mínimo.
Hoje em dia ainda é permitido dançar e lutar Capoeira pelas ruas, antes quem fizesse tais amostragens era condenado a no mínimo seis meses de cadeia, isso é um absurdo, mas depois da abolição da escravidão, da República Velha, e durante a década de 30, Vargas havia visto uma dessas danças e achou muito bom, então ele legalizou para que fosse possível dançar capoeira livremente na rua, também tem o Carnaval, criada e incentivada pelos negros na mesma época.
Conclui-se que o negro é a cara do Brasil, é a etnia que fez o Brasil ser o que é hoje, em questão de produção e em questões culturais. Mas o Brasil negro se esconde atrás da cara branca, ou seja, a população brasileira não se espelha na África, na verdade, o brasileiro se influencia com os costumes europeus.


22 de jul. de 2013

Território quilombola em Porto Alegre

Trago hoje uma reportagem de um possível novo território quilombola em Porto Alegre. Antes de colar a notícia, vale a pena esclarecer alguns pontos.
A escravidão ocorreu em todo o território brasileiro. Portanto, pode haver territórios quilombolas em qualquer lugar do país.Quando a gente escuta ou lê sobre quilombos, é mais provável lembrar do Quilombo dos Palmares, que esteve localizado no território do atual estado do Alagoas, e de Zumbi dos Palmares. Entretanto, muitos territórios pelo país foram ocupados pelos escravos e seus descendentes, antes ou depois da abolição da escravatura em 1888. 
Atualmente, os locais que são considerados territórios quilombolas possuem garantias diferenciadas. A principal é a permanência do local para os descendentes de escravos. Nem todos os territórios quilombolas estão situados nas periferias das cidades. Aliás, a ocupação dos espaços mudam com o passar do tempo e o que antes era longe do centro da cidade, com o tempo, o crescimento da população, as transformações nas cidades e a especulação imobiliária, pode acabar se situando em uma zona muito valorizada. Estar em uma área que é muito valorizada é um problema para um quilombo, que em sua maioria é formado por uma população muito pobre, já que os escravos depois da abolição foram abandonados as suas próprias sortes e seus descendentes estão lutando, ainda hoje, por melhores condições de vida. Aos olhos de muitos, esses territórios são "favelas", "casebres", "lugar de gente pobre e feia", "onde só tem maloqueiro".
Para um local ser considerado um território quilombola é necessário muita burocracia e estudo. Necessita-se de um relatório sócio-histórico-antropológico feito por uma equipe multidisciplinar (antropólogos, historiadores, funcionários estatais, comunidade, etc) que realmente comprove que aquele espaço foi ocupado por escravos e que seus descendentes ainda estão lá. Isso leva anos para ficar pronto.

Segue a reportagem retirada do jornal Sul21:

Areal da Baronesa está perto de se tornar território quilombola

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Origem de área quilombola remonta ao século XIX | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Felipe Prestes
Foi publicado nesta quinta (18) no Diário Oficial o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade quilombola do Areal/Luiz Guaranha. Após a publicação deste documento, o rito determina um período de 90 dias para contestações, mas isto não deve acontecer. “Só afeta áreas públicas, do Governo do Estado e Prefeitura de Porto Alegre, e já há acordo com eles para a titulação do território quilombola”, explica a antropóloga Janaína Lobo, do INCRA. Em pouco tempo, portanto, a comunidade terá posse definitiva da área que habita há mais de um século.
Conhecido como o Areal da Baronesa, o local fica no limite entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus e é um dos mais tradicionais redutos de cultura negra na capital gaúcha. A área de 4,5 mil m² compreende a Avenida Luiz Guaranha, que, na verdade, é uma rua sem saída, onde vivem 67 famílias e cerca de 300 pessoas.
Segundo o relatório sócio-histórico-antropológico, que é parte do RTID e foi coordenado pela antropóloga Denise Jardim, da UFRGS, a área pertencia à Baronesa de Gravataí e passou a ser reduto de ex-escravos e seus descendentes no século XIX, em data imprecisa. “A ocupação remonta à chácara da Baronesa do Gravataí, essas pessoas são remanescentes de quem vivia na senzala desta chácara. Claro que, como em toda comunidade viva, outras pessoas foram se agregando ali. Não é possível precisar a data. O certo é que foi no século XIX”, explica Janaína Lobo.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Comunidade do Areal da Baronesa buscava titulação há mais de dez anos | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Naquela época os jornais tratavam o Areal como se fosse outro país dentro de Porto Alegre. Há uma especificidade cultural e uma história ligada ao período da escravidão, características dos territórios quilombolas, além de um vínculo comunitário e espacial”, complementa a antropóloga.
A comunidade busca a titulação há mais de dez anos, embora o processo tenha começado, de fato, em 2005. “Não temos palavras. É a vitória do nosso movimento. Muitas vezes a gente procurava ajuda e não tinha resposta”, comemora Alexandre Ribeiro, presidente da Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal.
Janaína Lobo explica que a posse da área será coletiva, em nome da associação. A área não poderá ser vendida, nem penhorada. Haverá total autonomia para admitir novos moradores, novas construções, mas todas as decisões têm que passar por reuniões da associação. “A emissão de título é muito importante porque garante que eles permanecerão, não ficarão à mercê de possíveis reestruturações urbanas forçadas. É incrível como a comunidade conseguiu se manter em uma área central da cidade desde o século XIX, já que Porto Alegre é alvo de frequentes remoções forçadas e processos de gentrificação”.
Alexandre Ribeiro afirma que já houve especulações sobre a remoção da comunidade, mas que nunca passaram de boatos. “Agora, a gente não sai mais. E poderemos nos focar em melhorias nas nossas casas, um futuro melhor para nossas crianças”.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Primeiro Rei Momo de Porto Alegre era morador do Areal da Baronesa | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Areal foi reduto do Carnaval em Porto Alegre
Entre as décadas de 1920 a 1950, aproximadamente, o Areal da Baronesa foi um dos redutos do Carnaval de rua em Porto Alegre. “Na época de minha avó e minha bisavó, grupos chamados de coretos passavam por aqui. Era costume moradores oferecerem uma grande festa em sua casa para determinado coreto”, conta Fabiane Xavier, integrante da Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal.
Com o surgimento das escolas de samba, o festejo nos bairros minguou, mas a região seguiu sendo importante para a folia. O primeiro Rei Momo negro de Porto Alegre, Adão Alves de Oliveira, o Lelé – que faleceu nesta semana, aos 88 anos – foi morador do Areal. “A fundação da Imperadores do Samba ocorreu na Rua Joaquim Nabuco, aqui na Cidade Baixa, e muitos fundadores eram da comunidade também”, complementa Fabiane.
Além disto, entre 1994 e 2000, o Areal da Baronesa teve uma escola de samba que competia no Carnaval porto-alegrense. Entre os nomes famosos da música gaúcha oriundos do Areal estão Bedeu e Leleco Teles, fundadores do Grupo Pau Brasil nos anos 1970 e tidos como precursores do samba-rock.
Alexandre Ribeiro conta que a comunidade tem procurado saber mais sobre a história que os liga ao futuro território quilombola. “Alguns jovens querem saber mais sobre nossa história. Nós temos casas de religião afro aqui, temos um grupo de capoeira. Estamos procurando resgatar nossas raízes para as nossas crianças entenderem”. Uma das iniciativas mais recentes é a escola de samba mirim do Areal da Baronesa, que tem marcado presença na atual onda de reerguimento do Carnaval de rua em Porto Alegre.

12 de jun. de 2013

Escravidão Negra no Brasil (trecho RHBN - 2)

Posto hoje uma matéria antiga da RHBN (Revista de História da Biblioteca Nacional) sobre escravidão negra no Brasil. A história de Joanna, mulher liberta, que sem condições de se sustentar preferiu se tornar escrava.

Dica: se ficar ruim de ler na internet, salve a imagem no seu computador. Ela vai ser salva em um tamanho bom que proporciona um zoom agradável aos olhos.

Referência: Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n° 54, ano 5, p. 26-27, março de 2010.





9 de jun. de 2013

Escravidão Negra no Brasil (trecho da RHBN - 1)

Posto hoje uma matéria antiga da RHBN (Revista de História da Biblioteca Nacional) sobre escravidão negra no Brasil. A história de Rita, uma ex-escrava no Rio de Janeiro no século XIX, que foi reconstruída através de dois processos judiciais que foram preservados.

Dica: se ficar ruim de ler na internet, salve a imagem no seu computador. Ela vai ser salva em um tamanho bom que proporciona um zoom agradável aos olhos.

Referência: Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n° 54, ano 5, p. 18-19, março de 2010.




30 de dez. de 2012

Cidadania x Escravidão



Esse post reproduz um trecho do livro de José Murilo de Carvalho que discorre sobre a construção da cidadania em um Brasil escravocrata e latifundiário. Eu já reproduzi alguns trechos desse livro em um post anterior.
Segue o trecho selecionado:

Escravidão e grande propriedade não constituíam ambiente favorável à formação de futuros cidadãos. Os escravos não eram cidadãos, não tinham os direitos civis básicos à integridade física (podiam ser espancados), à liberdade e, em casos extremos, à própria vida, já que a lei os considerava propriedade do senhor, equiparando-os a animais. Entre escravos e senhores, existia uma população legalmente livre, mas a que faltavam quase todas as condições para o exercício dos direitos civis, sobretudo a educação. Ela dependia dos grandes proprietários para morar, trabalhar e defender-se contra o arbítrio do governo e de outros proprietários. Os que fugiam para o interior do país viviam isolados de toda convivência social, transformando-se, eventualmente, eles próprios em grandes proprietários.

Não se pode dizer que os senhores fossem cidadãos. Eram, sem dúvidas, livres, votavam e eram votados nas eleições municipais. Eram os "homens bons" do período colonial. Faltava-lhes, no entanto, o próprio sentido da cidadania, a noção da igualdade de todos perante a lei. Eram simples potentados que absorviam parte das funções do Estado, sobretudo as funções judiciárias. Em suas mãos, a justiça, que, como vimos, é a principal garantia dos direitos civis, tornava-se simples instrumento do poder pessoal. O poder do governo terminava na porteira das grandes fazendas.

A justiça do rei tinha alcance limitado, ou porque não atingia os locais mais afastados das cidades, ou porque sofria a oposição da justiça privada dos grandes proprietários, ou porque não tinha autonomia perante as autoridades executivas, ou, finalmente, por estar sujeita à corrupção dos magistrados. Muitas causas tnham que ser decididas em Lisboa, consumindo tempo e recursos fora do alcance da maioria da população. O cidadão comum ou recorria à proteção dos grandes proprietários, ou ficava à mercê do arbítrio dos mais fortes. Mulheres e escravos estavam sob a jurisdição privada dos senhores, não tinham acesso à justiça para se defenderem. Aos escravos só restava o recurso da fuga e da formação de quilombos. Recurso precário porque os quilombos eram sistematicamente combatidos e exterminados por tropas do governo ou de particulares contratados pelo governo.

Trecho de: CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil: um longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 21-22.

5 de nov. de 2012

Escravidão negra no Brasil

Mês da Consciência Negra, utilizarei um trecho do historiador José Murilo de Carvalho. Todas as imagens que aparecem são do pintor francês Jean Baptiste Debret.


O fator mais negativo para a cidadania foi a escravidão. Os escravos começaram a ser importados na segunda metade de século XVI. A importação continuou ininterrupta até 1850, 28 anos após a independência. Calcula-se que até 1822 tenham sido introduzidos na colônia cerca de 3 milhões de escravos. Na época da independência, numa população de cerca de 5 milhões, incluindo uns 800 mil índios, havia mais de 1 milhão de escravos.


Embora concentrados nas áreas de grande agricultura exportadora e de mineração, havia escravos em todas as atividades, inclusive urbanas. Nas cidades eles exerciam várias tarefas dentro das casas e na rua. Nas casas, as escravas faziam o serviço doméstico, amamentavam os filhos das sinhás, satisfaziam a concupiscência dos senhores. Os filhos dos escravos faziam pequenos trabalhos e serviam de montaria nos brinquedos dos sinhozinhos.


Na rua, trabalhavam para os senhores ou eram por eles alugados. Em muitos casos, eram a única fonte de renda de viúvas. Trabalhavam de carregadores, vendedores, artesãos, barbeiros, prostitutas. Alguns eram alugados para mendigar. Toda pessoa com algum recurso possuía um ou mais escravos. O Estado, os funcionários públicos, as ordens religiosas, os padres, todos eram proprietários de escravos. Era tão grande a força da escravidão que os próprios libertos, uma vez livres, adquiriam escravos. A escravidão penetrava em todas as classes, em todos os lugares, em todos os desvãos da sociedade: a sociedade colonial era escravista de alto a baixo.



Trecho de: CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil: um longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 19-20.

31 de out. de 2012

Imagem do dia


Novembro é o mês da consciência negra, com o dia 20 destinado para Zumbi dos Palmares e sua imagem de resistência e luta.

Novembro também é o mês derradeiro do TCC da dona do blog. Prometo que depois darei mais atenção ao meu tão abandonado blog =/ Ossos do ofício de estudante...

Enquanto eu não termino minhas tarefas, deixo uma imagem linda sobre a África e o Brasil.



17 de set. de 2012

Racismo cotidiano

Esse post foi retirado do blog Escreva Lola Escreva e discute uma cena de racismo presenciada por uma das leitoras do blog. Racismo velado, mas muito claro para quem visualizava a cena.

GUEST POST: RACISMO NA CABELEIREIRA

Cecilia é uma cientista com um cabelão loiro, crespo, que vai até o joelho. Esta foto que ela me enviou é de quatro anos atrás. Hoje seu cabelo está muito mais longo e, como dá pra imaginar, exige muito tempo pra cuidar. 
Bom, o guest post em que o Robson falava do nosso padrão de beleza racista inspirou Cecilia a relatar algo que tinha acabado de acontecer com ela. Quer dizer, não com ela -- ela foi mais testemunha que vítima da história. A vítima? Todos nós. Uma sociedade só tem a perder quando é racista. Ainda mais quando o racismo está enraizado dentro de nós.

Este post caiu como uma luva para uma situação horrível que vivi ontem, e que gostaria de desabafar. Não quero me expor nem expor o nome do salão cabeleireiro, já que vou relatar um crime do qual não tenho nenhuma prova (além do meu testemunho). Não quero sofrer retaliação ou mesmo gerar uma onda de ódio caso a pessoa seja reconhecida. 
Moro numa cidade no interior de São Paulo. Meus pais são imigrantes europeus, o que me garantiu uma pele branca, olhos claros e cabelos loiros. 
Não sou exatamente vaidosa, mas gosto muito do meu cabelo. Muito mesmo -- ele tem mais ou menos 1,5m de comprimento, e o cultivo com muito carinho! 
Hoje resolvi experimentar um salão novo que abriu aqui perto de casa para fazer uma hidratação (faço mensalmente). Geralmente quando chego no salão já vou logo avisando que meu cabelo é difícil -- é fino, embaraça muito fácil. E que topo pagar mais por causa disso, sei que é quase tortura tratar dele. 
Como sempre, fui muito bem tratada; a moça, que é dona do salão, disse que não cobraria a mais por causa do comprimento (R$ 150 para cabelos longos) e foi logo puxando papo. Disse que iria até me fazer desconto, porque o movimento tá fraco agora em agosto, e ela está com dificuldades para pagar as contas, muitos horários vazios, naquele dia mesmo ela não tinha mais ninguém, e ainda era 13h. 
Começou o serviço. Primeiro, tentou me convencer a fazer escova progressiva (meu cabelo não é liso, é ondulado). Não, obrigada, gosto dele do jeito que é. Depois de insistir um pouco, começou a me oferecer fazer luzes, que ficaria muito bom. Novamente, não, obrigada, gosto dele do jeito que é e não quero pintar/mudar, estou satisfeita. Não gosto da ideia de passar produtos que possam prejudicá-lo, e realmente gosto dele do jeito que é. 
Aí veio o primeiro choque. Ela tentou me provar que luzes não fazem mal ao cabelo mostrando a foto da sua sobrinha de um ano (!) que tinha feito luzes. E aproveitou para compará-la comigo, que ela era loirinha como eu. Essa situação me desconcertou: dizer que a menina era loira sendo que não era. A menina (devo dizer bebê?) tinha a pele morena e traços fortemente africanos. Não tinha nada de loira além das luzes no cabelo. Não sei dizer o que me chocou mais: fazer luzes numa criança de um ano ou fazer isso para que ela fique 'loira'. Essa criança vai ouvir desde sempre que é errado ser do jeito que ela é, com seus cabelos negros -- melhor é ser loira. 
Comecei a me sentir desconfortável no salão. A moça não parava de sugerir que a cor do meu cabelo era ótima, bem melhor do que os cabelos que ela costumava atender. Como se ela me dissesse: você é melhor porque é branca. 
Mas isso não foi o que mais me chocou. Quando estava quase terminando, um carro parou na porta e uma moça entrou. A princípio não dei muita atenção, ela só estava pedindo para fazer uma hidratação. A cabeleireira disse que para o cabelo dela custaria 450 reais. Isso me chamou a atenção (três vezes mais do que ela me pediu! -- qual seria o tamanho do cabelo da moça?) e dei uma boa olhada nela. Era uma mulher bonita, vinte e poucos anos, negra, com uma cabelo muito bonito um pouco abaixo dos ombros. Ou seja, bem mais curto que o meu. 
Mesmo com o preço salgado, a moça disse ok e perguntou se poderia ser no mesmo dia ou no dia seguinte. A cabeleireira abriu a agenda e disse que estava lotada até setembro -- enquanto eu olhava a agenda pelo reflexo do espelho, vendo que não tinha NADA marcado. 
A cliente agradeceu e perguntou se ela conhecia algum salão na região. A resposta: "Ah, para tratar seu tipo de cabelo, sugiro que você procure salões nos bairros tal e tal" (bairros extremamente pobres da minha cidade). 
Novamente ela agradeceu e foi embora num carro novinho (não entendo de carro, mas era um carrão -- desses grandes, que custam bem caro). E a cabeleireira voltou para finalizar o meu, comentando:
Cabeleireira: "Ah, ainda bem que ela foi embora. Tentei colocar um preço alto mas mesmo assim ela não desistiu"
Eu (chocada): "Mas você não estava precisando de dinheiro e com horário vago?"
C: "Estava, mas ainda não tô passando fome para atender gente assim."
Eu: "Assim como?"
C: "Ah, esse pessoal de cor. O cabelo é muito ruim, não é bonito e fácil de lidar como o seu. Além do mais eles têm um cheiro esquisito, já reparou? Não cheiram bem como a gente que é loira, o suor deles é muito fedido."
Não consegui responder. Fiquei olhando para ela. Loira como a gente? Ok, eu sou loira, mas ela decididamente não era. Tinha os olhos castanhos claros, a pele bem escura, cabelos que no original deviam ser negros e ondulados, mas que estavam alisados e pintados de loiros, e traços africanos no rosto. 
Não sei o que me chocou mais: se foi o racismo, ali, na minha frente, quase cuspindo no meu rosto, ou se foi a fonte dele, uma moça comum, com óbvia ascendência negra. Não que o racismo por pessoas brancas seja justificável, mas aquela mulher, além de rejeitar o próximo, estava rejeitando a si mesma. 
Eu fiquei pensando naquela moça que foi dispensada. Não bastava ela ter dinheiro para pagar (pertencer à tão privilegiada e minoritária classe média), ter tempo livre (não é todo mundo que pode ir para um salão numa sexta à tarde), dirigir um bom carro. Nada disso importava. Ela ia continuar sendo mandada para a periferia, lá é o seu lugar, não importa quanto dinheiro tenha. Ela ia continuar sendo 'fedida'. 
Eu não consegui reagir. O que responder, Lola? O que responder, pessoal? Denunciar para quem? Provar como? Se a própria vítima foi embora.  
Essa moça não entrou no salão da Ku Klux Kan. Não havia uma suástica desenhada na parede. A pessoa que a atendeu não era um exemplar racista, era uma mulher como ela, como somos todos nós, filhos de pessoas de outras terras. Era só um salão de esquina, igual a tantos outros. E mesmo assim ela sofreu um racismo bárbaro. 
Visualizei a cena dela entrando de salão em salão e sendo rejeitada, enquanto todos a mandavam para o seu lugar. 
Não consegui falar mais nada depois disso. A moça ainda fez alguns comentários, mas respondi com monossílabos, paguei e fui embora. Sei que não vou voltar mais lá. Pessoas da minha família também não. Mas me pergunto se isso é o bastante. Mesmo que a mulher tivesse sido processada e presa (afinal, racismo é crime inafiançável), seria o bastante? Quando as pessoas negam a si próprias, tentam ser aquilo que não são, acham que os outros que têm os genes ligeiramente diferentes são melhores, o que fazer?
Parei e pensei: quantos amigos negros eu tenho? Dois. Sou racista? Não. Mas no meu mundinho de classe média pessoas negras não entram. Tenho amigos brancos como eu e asiáticos, porque essas pessoas estudam em escolas particulares, moram em bairros bons e estudam em faculdades de primeira. Os negros são minoria nesse mundo. E, quando entram, há aqueles que não os aceitam, que acham que eles devem continuar pobres, como gente fedida deve ser. 
O que fazer quando o racismo bate tão violentamente a sua porta? 

Meu comentário: Deixo para vocês responderem às questões da Cecilia. Mas eu me lembro de um dos maiores exemplos de racismo que já vi impressos. Saiu na coluna esportiva de um jornal catarinense, talvez em 1996. Tinha havido um daqueles tensos duelos do vôlei feminino, Brasil vs Cuba, arena de muita rivalidade. E o jornalista decidiu focar na aparência física das jogadoras. As brasileiras, quase todas brancas (apesar de vivermos num país em que mais de 50% da população é negra ou parda), eram lindas, delicadas e dignas, segundo o colunista. As cubanas, todas negras, ele chamou de crioulas, macacas, fedidas -- enfim, todos os termos racistas que a gente conhece. Eu fiquei de cara. Não conseguia acreditar que estava lendo aquilo. E, a ironia suprema: o jornalista é negro. Deve ser o único colunista negro de SC, se bobear.
Eu não escrevi pro jornal protestando, porque pensei: sou branca, acho, e o cara é negro. E eu vou estar acusando um negro de racismo. Hoje protestaria sem piscar. Aliás, hoje, com a internet, aquela coluna, e as reações a ela, correriam o Brasil. Mas eram outros tempos, pré-internet. Não li nenhuma carta de protesto no jornal. Nunca vi aquele colunista se retratar.
Só que individualizar o problema é fácil demais. Pensar que a cabeleireira com ascendência negra ou o jornalista negro é que são racistas, e a gente não, é bem cômodo. Dá até pra jogar aquelas frases de efeito no meio, né? Aquelas baboseiras de "negros são os piores racistas". Pena que não é verdade. A cabeleireira, o jornalista, eu e você, somos produtos da nossa época e lugar. Eles não foram jogados de uma nave espacial e vieram parar no Brasil por acaso. Eles -- nós -- respiram o racismo de toda uma sociedade. E internalizam tudo. Fica automático. Eles -- nós -- aprendem qual é a cor desejável, a cor padrão, a cor bonita, a cor de quem tem poder. Aprendem que negros são feios e fedidos. E que tudo bem chamar negro de crioulo e macaco, ainda mais se for só uma piadinha inocente, o politicamente correto quer acabar com nossa liberdade bla bla bla!
Este relato da Cecilia é interessante também para rebater o pessoal do "não somos racistas", que tá mais pra "não somos apenas racistas". Sabe o pessoal que diz que a discriminação no Brasil é pela classe social, não pela cor? Pois é. Pensem na moça que, mesmo tendo dinheiro pra pagar, não é atendida num salão por uma cabeleireira que acredita que negros cheiram mal.

21 de nov. de 2011

Dia da Consciência Negra (2)

Olá pessoal!

Como o Dia da Consciência Negra nesse ano caiu em um domingo, aproveito essa semana também para escrever mais um pouco sobre esse tema. Como boa professora de História que pretendo ser, é mais do que necessário abordar a questão dos afrodescendentes na escola, se queremos que algumas atitudes mudem nesse país e que o preconceito racial diminua na sociedade.

Aproveitando as ferramentas da internet, posto um vídeo do youtube com a música Identidade, gravada pelo sambista Jorge Aragão:


A letra segue pelo vídeo, mas vou colocá-la aqui também (com alguns destaques feitos por mim):

Identidade
Jorge Aragão

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade


Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história


Agora um outro videozinho, de uma campanha contra o racismo:


Vocês viram que um simples local, como o elevador, pode ser símbolo de um preconceito e discriminação racial? 
Elevador de serviços é para as compras e para aqueles que estão trabalhando (entrega de rancho, carteiro, motorista, etc). Já o elevador social pertence aos moradores, portanto não é local para que entregadores e pessoas que estão trabalhando transitarem. A situação piora se o condomínio for bem localizado, na parte mais chique da cidade. Nesses locais, pessoas negras são caracterizadas como pobres, entregadores ou assaltantes, portanto merecem uma maior atenção da parte de segurança do prédio.

O racismo no Brasil é presente, mas de maneira sutil. Não há uma política de Estado que divida brancos e negros, porém há atitudes que demonstram a divisão social e racial das pessoas, como utilizar um simples elevador em um condomínio chique. "Mas ele pode estar aqui? Não deveria utilizar o de serviço?", a pergunta pode pairar no ar de maneira preconceituosa.

20 de nov. de 2011

Hoje, dia 20 de Novembro, é dia da Consciência Negra!



Por que escolheram essa data? No dia 20 de Novembro de 1695 morria Zumbi dos Palmares, figura histórica negra muito importante, pois foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares, que se localizava na atual região do Alagoas.

Na época da escravidão no Brasil, quilombo era um local em que negros fugidos ou alforriados moravam e conviviam longe das regras da sociedade escravocrata. Normalmente, o quilombo ficava em um local escondido, ou de difícil localização, para dificultar o contato com outras pessoas e por em risco os escravos que lá estavam. O Quilombo dos Palmares foi um dos quilombos mais famosos, que durou muito tempo e abrigou muitos escravos. O último líder desse quilombo foi Zumbi dos Palmares.

Celebrar o 20 de Novembro como dia da Consciência Negra é procurar destacar o papel do negro na sociedade brasileira ao longo do tempo. É destacar a sua atuação de forma ativa na história do Brasil. Antes do dia 20 de Novembro, celebrava-se a Abolição da Escravatura (13/Maio/1888). Porém, a assinatura da Princesa Isabel dá a ideia de concessão: a liberdade dos negros escravos foi “concedida”, “dada” pela Princesa, não demonstrando a luta que os afrodescendentes tiveram ao longo do tempo pela liberdade.

Luta essa que não terminou: o preconceito racial está todos os dias em cada cidade desse Brasil. “Trabalho de Negro”, “Preto bandido”, “Neguinha atrevida”, e mais outras expressões que demonstram o preconceito de 300 anos de regime escravista. Sim, pessoal, não nascemos na época da escravidão, no entanto, não estamos livres de absorver preconceitos e pensamentos que estão pela sociedade e se reproduzem a cada dia.

Inté!

17 de nov. de 2011

Semana da Consciência Negra

Olá pessoal!

Semana mais que corrida, passada super rápida para destacar que é a Semana da Consciência Negra, já que 20 de novembro relembra Zumbi dos Palmares e não a Princesa Isabel.

Por enquanto fiquem com uma propaganda da Caixa Econômica Federal de 2009, sobre essa semana!
É linda!

Quando eu tiver mais tempo, falo sobre isso: a questão da escravidão e dos afrodescendentes.

 
Inté!

23 de set. de 2011

O que você conhece sobre a história da África?


Durante muito tempo, considerou-se que a África não tinha história. O terceiro maior continente do mundo aparecia nos livros didáticos somente no capítulo sobre as grandes navegações europeias, como fornecedor de matérias-primas e escravos para outras regiões do planeta. Antes disso, não havia nada de histórico na África. Era como se a espécie humana surgisse no território africano, e em pouco tempo se espalhasse pelo planeta, conseguindo se desenvolver plenamente em outras regiões (e especialmente na Europa) que garantiram a sobrevivência da espécie humana e sua evolução até o domínio da terra e dos mares.
Essa visão de mundo imperial que a Europa tinha sobre si mesma e sobre a humanidade por muito tempo fez da África um extenso terreno, com plantas e animais diversos, propícios para um divertido safári. A África e seu povo estariam em uma escala evolutiva inferior e nada haveria nesse continente a não ser selvageria, barbárie e um povo incapaz de construir uma história. O detalhe é que os europeus percebiam o que acontecia na África com olhos de um europeu. Eles procuravam um Estado organizado, com um comandante, leis, um parlamento ou senado que votasse ou autorizasse o comandante a tomar as decisões e uma religião que respeitasse um deus somente, nascido de uma mulher com a ajuda de um espírito santo. Dessa forma, comparando o conhecido ao desconhecido, a África era um lugar completamente inferior, sem passado e nem cultura, portanto, não haveria história alguma nessa parte do planeta.
Outra questão relativa a esse olhar imperial era dividir o continente africano em dois: a África branca e a negra. Perto da Europa, ao redor do Mar Mediterrâneo, estaria a África Branca (Egito, Líbia, Marrocos, Argélia, Tunísia e Saara Ocidental) que não pertencia propriamente à África, pois nada mais era que a continuação da Espanha e da Europa ao redor do centro da historia universal, que era a região do Mediterrâneo. O deserto do Saara estaria logo abaixo dessa região e seria o responsável por separar a comunicação e o intercâmbio entre as duas Áfricas, preservando a parte branca. A África negra era aquela abaixo do deserto, sendo uma parte praticamente desconhecida e sem importância para o europeu.
Esse discurso vigorou por muito tempo e somente nos últimos anos está havendo um movimento de “quebra” desse olhar europeu sobre a África e uma valorização da história africana feita pelos africanos (nada melhor que o próprio habitante falar sobre sua região) e por quem deseja ressaltar uma história que não pode ser explicada pelo olhar do europeu. Diversos documentos foram relidos, como relatos de viajantes muçulmanos e europeus (traficantes de escravos, comerciantes, militares, administradores, exploradores e missionários), escavações arqueológicas foram realizadas e a tradição oral das etnias foi estudada para procurar quebrar com a ideia de “mundo vazio africano” e demonstrar que por muito tempo se esteve com uma postura errada ao se referir a essa parte do mundo e aos seus habitantes, que são diversos, com múltiplas línguas e culturas. O trabalho a ser feito é grande e muito interessante!


Referência: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à Historia Contemporânea. São Paulo, Selo Negro, 2008.

22 de ago. de 2011

Debret: olhar francês sobre o Brasil


Jean Baptiste Debret nasceu em Paris, em 1768, e viveu 48 anos pela França e Europa, estudando obras de arte, frequentando ateliês de artistas famosos e conseguindo prestígio junto com o Imperador Napoleão Bonaparte através das pinturas de suas vitórias sobre os outros reis da Europa. No entanto, por volta de 1815 a situação não estava favorável aos amigos de Napoleão: o Imperador foi derrotado, as monarquias da Europa estavam reassumindo seus tronos e quem era favorável ao governo de Napoleão agora era visto com reservas. O que fazer diante dessa situação?
Muitos artistas estavam procurando outras cortes para trabalhar e viver. Eis que um embaixador português propôs a um grupo de artistas franceses que viessem até o Brasil embelezar a colônia, construir grandes obras e trazer um pouco de “cultura” européia para os trópicos. Em 1816, oito anos depois da Corte Portuguesa chegar no Brasil, desembarcou no Rio de Janeiro uma missão de artistas franceses, com arquiteto, escultor, gravador, mecânico, ferreiro, serralheiro, carpinteiro, pintores e músicos. Entre eles estava Debret, encarregado de ser o “pintor histórico”: aquele que retrataria a família real e os acontecimentos mais importantes da Corte enquanto estivesse na colônia brasileira.
Debret ficou no Brasil por quinze anos (1816-1831) e durante esse tempo pode acompanhar as transformações da colônia, que abrigava a Corte Portuguesa que havia fugido de Napoleão, para o Reino Unido e logo depois o surgimento de um Império independente. Além das pinturas da família real, ele teve tempo suficiente para andar pelo Rio de Janeiro e se impressionar com o cotidiano da capital. Suas telas ficaram muito conhecidas e são consideradas quase fotografias da primeira metade do século XIX.
Não podemos esquecer que as telas de Debret não são “fotografias verdadeiras” do que acontecia em 1820. São impressões de um francês que viveu muito tempo na Europa, com uma formação artística muito forte da Academia Francesa, e que por questões políticas se mudou para uma colônia portuguesa. A natureza, os escravos, a comida, as frutas, as festas, as procissões, os hábitos dos moradores, o comércio, o cotidiano completamente diferente de Paris devem ter deixado o artista muito impressionado. A questão da escravidão é muito presente, principalmente porque na França de sua época não existiam mais escravos e no Rio de Janeiro, onde permaneceu a maior parte do tempo, a maioria da população era escrava. Ou seja, para qualquer lugar que se andasse pelo Rio de Janeiro (capital da colônia) se veria escravos trabalhando no porto, vendendo comida, acompanhando seus senhores, indo na igreja, sendo punido, etc.
Em 1831, Debret decide voltar à França aos 63 anos. Todas as suas pinturas e suas anotações sobre o Brasil foram publicadas em três volumes, entre 1834 e 1839, intitulados “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”. Na época foi um fracasso de vendas na França, mas ainda no século XIX suas imagens sobre o Brasil se popularizaram e hoje são fontes para se estudar essa época da história brasileira.


Inté!

18 de jul. de 2011

E durante a reforma da cozinha...

Eis que num belo dia no bairro da Gamboa, no centro do Rio de Janeiro, um casal resolveu reformar a casa. Até aí nada de diferente, afinal quem já não fez reformas ou um puxadinho no terreno? Mas o fato que torna essa história diferente é que se descobriram ossos humanos no terreno, bem embaixo da casa. O que teria acontecido? Assassinatos não revelados? Chacina de algum psicopata? Por que tanta gente enterrada embaixo da casa?
A questão de polícia se tornou uma questão histórica. Ali, na Gamboa, havia um cemitério de escravos recém chegados da África para o Brasil. Como as condições de navegação e transporte de escravos não eram das melhores, muitos acabavam ficando doentes em plena viagem, contraindo varíola por exemplo, e morriam logo que chegavam aqui. Criou-se um cemitério para esses “pretos novos” (nomes dos escravos recém chegados) naquela região em 1779, segundo a reportagem.
Uma das questões que podem ser destacadas dessa notícia é a questão da ocupação do espaço ao longo do tempo. O que hoje é uma simples rua com várias casas foi, há mais de cem anos, um cemitério de escravos bem perto do porto do Rio de Janeiro, onde os pretos novos chegavam. Ao longo do tempo, a população aumentou e foi preciso ocupar áreas maiores, deixando os escravos enterrados por lá e ocupando o terreno com casas e ruas. Gerações se passaram, o cemitério foi esquecido, muitas pessoas viveram nessa região e eis que, durante uma reforma, essa história vem à tona. Para felicidade geral, o casal resolveu criar o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN) por conta própria, sem ajuda da prefeitura. Agora a pergunta que não quer calar é: por que a prefeitura não contribui para a formação desse memorial? Vão esquecer esse patrimônio nacional mais uma vez? Vamos precisar de outra reforma doméstica para ter resposta sobre o que fazer com o cemitério? Por quê essa falta de interesse? Várias questões a partir de uma reforma, hein...


O post surgiu dessa reportagem! E você pode saber mais aqui!

Inté!