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2 de abr. de 2014

Ditadura Civil-Militar e Educação

Devido a correria do cotidiano de professora e estudante, perdi as datas de 31 de Março e 01 de Abril para postar algum conteúdo relacionado aos 50 anos do golpe militar no Brasil.
Entretanto, o ano é do cinquentenário e o assunto é bem presente neste blog. Postarei hoje uma reportagem do jornal Correio do Povo sobre a educação brasileira no contexto da ditadura. Para acessar diretamente no site, clique aqui.

Regime Militar deu golpe na educação do Brasil

Nos 50 anos da tomada de poder pela Ditadura, professores avaliam os prejuízos para o ensino

Nos 50 anos da tomada de poder pela Ditadura, professores avaliam os prejuízos para o ensino- Crédito: André Ávila
Nos 50 anos da tomada de poder pela Ditadura, professores avaliam os prejuízos para o ensino
Crédito: André Ávila
Na noite do dia 31 de março de 1964, o regime político vigente no Brasil sofreu um golpe. Mas o País seria golpeado muitas vezes até 1985. Para permanecer no poder, os militares prendiam, torturavam e manipulavam. A censura aos meios de comunicação limitou o acesso à informação dos brasileiros e também foi aplicada nas escolas, causando prejuízos com reflexos até hoje. 

Enquanto nos porões da ditadura, os que se opunham ao governo eram até mesmo mortos, na superfície, a tentativa era mostrar que o Brasil estaria vivendo um milagre econômico. A campanha ufanista da época encorajava a população a acreditar que vivia em um país do futuro, sem saber detalhes da repressão, ou de dados que desfavorecessem o regime. 

Certos livros considerados subversivos por qualquer motivo eram retirados do conteúdo bibliográfico dos colégios e das universidades. Os professores precisavam ficar atentos ao que falavam por medo de alunos e colegas infiltrados. O recado para se calarem era enviado através do sumiço de outros docentes. Além disso, houve reformas e inclusão de disciplinas com teor nacionalista. A mudança nos currículos na década de 1960 criou duas novas matérias: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil (OSPB). O objetivo era transmitir a ideologia da Segurança Nacional. 

“Aparentemente, estávamos vivendo uma normalidade, mas nós sabíamos que não era bem assim”, descreve a professora de História, Ione Osório, 76 anos. Mãe de três filhos pequenos na época do golpe, dava aula na Escola Estadual Cristóvão Mendonza Caxias do Sul e, mais tarde, no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o Julinho, em Porto Alegre. Ela lembra que a inclusão das duas novas matérias foi motivo de discussão, porque delegados de fora do colégio foram incumbidos de ministrar as aulas. “O currículo era para dar a aparência de que o Brasil era um modelo sob a gestão daquele governo, mas a estatística não era verdadeira. Os números eram maquiados, inclusive o de reprovados”, comenta. “Eu era coordenadora da História do Julinho e lutamos para que os próprios professores da escola dessem essas aulas. Dessa forma, adaptamos o currículo”, lembra esboçando um sorriso ao recordar da forma que encontrou para driblar o governo e de transformar a emenda das duas cadeiras nacionalistas em conteúdos de História do Brasil e de Geografia, transmitidos de forma mais crítica. 

Censura em sala de aula

Na Serra, logo no início do regime, a professora lembra uma ocasião em que ensinava regimes políticos. “Passava alguns exemplos do que acontecia no mundo e no Brasil”, conta. Ela ressalta que mencionava o que ocorria no país, mas não colocava o conteúdo da aula no papel por temer ser chamada pelos militares para dar explicação. “Sabíamos que muitos professores e alunos eram ligados ao regime e havia infiltrados”, diz. Essa era outra maneira de contornar a censura. Porém, um estagiário distribuiu à classe um programa não oficial. “Eu havia orientado que não colocasse no papel, mas acho que ele quis se expressar. A cópia em mimeógrafo foi parar no Comando do Exército e, depois disso, ele sumiu. Não concluiu o curso de História na universidade”, descreve sem conseguir controlar as lágrimas, enquanto lembrava também da detenção de cinco alunos.

Atualmente Ione é presidente da Fundação de Apoio ao Colégio Estadual Julio de Castilhos e voltou a uma das classes onde ministrava História para contar sobre os anos de chumbo. “Aqui no Julinho, a resistência era mais aberta, mas também havia na escola delegados do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). O Grêmio Estudantil foi extinto”, diz. 

Memória da Ditadura ainda é recuperada

Segundo a professora, em razão da tentativa de controlar a informação, a memória sobre aqueles anos, só foi recuperada depois. “Nem nós que tínhamos interesse, sabíamos de tudo que ocorria”, declara, afirmando que a maioria da população só passou a tomar pé da situação, na década de 1980, após a abertura. “Até hoje, muitas coisas não foram elucidadas e ainda estamos descobrindo. A história nunca termina”, observa. “Acho importante tudo o que leva à verdade, mesmo que seja tarde.”

Regimes autoritários exaltam o nacionalismo

A professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Maria Helena Bastos, assegura que todo regime autoritário costuma exaltar o nacionalismo e criar o sentimento de nação. Para ela, algumas mudanças no currículo foram responsáveis pela implementação de métodos que não estimulavam o pensamento crítico. “Formamos jovens para marcar cruzinhas”, descreve, avaliando que esse tipo de ensino não mudou muito efetivamente de lá para cá. 

Lembra ainda que os acordos e reformas não foram exclusividade do Regime Militar. Algumas versões já haviam sido ensaiadas. “Os acordos já vinham sendo gestados antes”, diz. 

Maria Helena observa que indiscutivelmente o controle à informação representou uma lacuna e atrasou o ensino. Eram diferentes formas de repressão, incluindo a proibição de livros, programas de TV e filmes. “Lembro de ler livros encapados”, diz. Porém, pondera que a censura sempre fez parte da história do Brasil desde o Império. “Portugal filtrava tudo o que vinha para cá”, afirma.

Contudo, observa que os malefícios do período militar ao ensino são relativos, já que houve alterações positivas no ensino universitário e de pós-graduação através de alguns acordos, por exemplo. Ela também lembra que houve expansão entre 1973 e 1985 da matrícula nas escolas em torno de 40%, apesar de essa ampliação do acesso não vir acompanhada de qualificação. “A memória tem sempre dois lados.”

Queda da qualidade do ensino público

Para o autor do livro Golpe na Educação, professor Luiz Antonio Cunha, as políticas educacionais durante o governo militar tinham o objetivo de cristalizar uma ideia de que a sociedade estaria em processo de degeneração. “A concepção da educação pública como elemento de regeneração da sociedade é herdada tanto do cristianismo, quanto do positivismo”, analisa. Por isso, foi reforçado o ensino religioso e, implementadas disciplinas com cunho nacionalista.

Outra vertente, explica o sociólogo, doutor em Filosofia e mestre em Planejamento Educacional, Luiz Antonio Constant Rodrigues da Cunha, foi a concepção de que o ensino seria um instrumento de acumulação de capital. “Se plantou essa ideia naquela época. Isso cresceu e deu muitos frutos colhidos até hoje”, ressalta. As consequências, segundo ele, foram subsídios para o fortalecimento do setor privado em todos os níveis. “Secretarias de educação foram assumidas por empresários em muitos estados, que fizeram com que a qualidade caísse nas escolas públicas”, observa. No período, também houve queda nos salários do Magistério. “Isso forçou uma demanda de educação privada”, afirma.

Em Minas Gerais, por exemplo, a lei determinava que para se abrir uma escola pública era preciso que o sindicato dos professores de escolas particulares estivesse de acordo. “A duras penas, o governo Tancredo Neves conseguiu mudar e legislação em 1983”, salienta.

O resultado foi o aumento da desigualdade. “É das mais fortes que já vi no mundo”, conta. “Até o Golpe, em todos os estados, as escolas públicas eram as melhores. Podia ter escola privada tão boa, mas não melhor do que as públicas. Depois a situação mudou”, declara, dizendo também que os quadros escolares nunca mais voltaram a ter o mesmo padrão. “Hoje a escola pública se transformou em escola para pobre e de má qualidade, com exceção de instituições federais e escolas técnicas”, diz.

Por outro lado, Cunha menciona, assim como a professora Maria Helena, que o ensino superior cresceu bastante na Ditadura. “Se criou um Frankenstein educacional: ensino público superior de alta qualidade e ensino fundamental e médio de baixa qualidade. Incongruente”, avalia.

24 de out. de 2013

Produções Discentes


Vamos falar de coisas boas nas escolas? 

Pois quando pensamos em escola e principalmente em escolas públicas, vem a nossa cabeça um tsunami de problemas, dificuldades, desaforos, trabalho e descasos. Sim, realmente existe esse "caos" educativo e o objetivo aqui não é discordar disso. Entretanto, dizem que todo o "caos" é criativo e em meio a esse turbilhão há momentos e situações positivas que merecem ser relatadas, comentadas e divulgadas por aí. 
É necessário uma posição diante das dificuldades, mas eu prefiro começar falando do que está dando certo para depois reivindicar e rever o que está errado. Relembrando, mais uma vez, que é somente a minha opinião, não quer dizer que é "a verdade" ou "a correta".

A partir disso, vou apresentar algumas produções textuais dos discentes do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública de Porto Alegre que merecem ser destacadas. Adianto que as produções foram cedidas pelos autores e que realmente merecem a leitura.

O tema da redação era o seguinte: "Gonçalves é um angolano nascido em Luanda que veio para o Brasil passar as férias. Além da curiosidade por conhecer as paisagens brasileiras, Gonçalves queria conhecer mais sobre a escravidão que aconteceu aqui. Como boa parte dos escravos que aportaram para o Brasil vieram de Angola, Gonçalves queria entender o que aconteceu com seus antepassados depois que eles atravessaram o Oceano Atlântico.
Você é muito amigo(a) do angolano e sabe que ele está vindo para o  Brasil. Escreva um texto relatando como tu contarias esse passado escravista brasileiro para o Gonçalves, onde você poderia levar ele, qual a influência dos africanos no país. Além de contar um pouco sobre esses 300 anos de regime escravista, é necessário comentar sobre a situação dos afrodescendentes atualmente. Como ficaram os escravos depois da abolição? Qual a situação dos negros hoje em dia no nosso país?"

A primeira redação a ser publicada é da aluna Gabriela da Rosa Neto:

Ao desfrutar os cocais do litoral, as praias de Copacabana, as matas amazônicas, e o frio gaúcho, você perceberá que não há outro lugar como o Brasil, um país cheio de corrupção política, um país onde a população se preocupa com as novelas da Globo, e com coisas que não fazem sentido e esqueçam que na vida real ainda há pessoas passando fome e falta de educação e hospitais, mas além de todos esses desastres culturais, um dos aspectos mais polêmicos é justamente a questão do negro em relação ao resto da população, é um fato historicamente triste que atinge uma boa parte da população.
O Brasil é um país de miscigenações, onde os índios nativos se escondem, os negros ainda sofrem influências do passado e o branco (colono) sempre se apodera de tudo, os costumes e conceitos etnocêntricos não mudaram muito hoje em dia, em pleno século XXI. No Brasil os “negros” ou “afrodescendentes”, possuem baixas condições econômicas, onde um suposto negro pós-graduado com mestrado e doutorado, muitas vezes ganha uma porcentagem inferior que a de um homem branco que trabalha na mesma área, mas não precisou se esforçar tanto para garantir sucesso na vida, a situação só piora para as mulheres negras, tendo uma porcentagem ainda menor em relação ao salário do homem negro, do homem branco e até mesmo da mulher branca, – quanto a isso, meu amigo Gonçalves, podemos dizer que não será nada fácil pra você, – pois ainda há um notável preconceito no mercado de trabalho, quanto  a questão genérica ou étnica.
Na região Sul do Brasil não há muita descendência negra, é uma etnia mais habitada para o litoral Norte e Nordeste do Brasil, pois na época da escravidão era mais fácil transportá-los dos navios negreiros chegados da África para o litoral do Brasil. A Bahia era o estado que mais produzia cacau na época, e era a região que mais havia escravos para produzir mais cacau e vender ao exterior, mais fluentemente entre a época do Brasil Colônia ao Imperialismo de Dom João VI, que foi uma época bastante conturbada para quem nasceu na África, até porque era abundante o comércio de escravos, estes eram vendidos como produtos e mão de obras baratas.
A Abolição da Escravidão, em 1888, e consequentemente a Proclamação da República, em 1889, não adiantaram de nada para as condições de quem trabalhava para “senhores de engenho”, muitos deles já não tinham oportunidades de emprego e não tinham como se sustentar, portanto, estes se acolheram em cortiços e morros, dando início a uma serie do que viria a ser a pobreza do negro hoje em dia, por isso a maioria, ainda hoje mora em vilas e têm mínimas condições econômicas, outros poucos se contentaram com o sistema, foram à luta e conseguiram mudar de vida econômica.
Ainda durante o século XX, foi uma época difícil para quem nasceu negro, pois ainda havia preconceitos e insultos, na década de 1950 algumas famílias negras ainda trabalhavam nas casas de pessoas brancas, mas isso não era visto como escravidão, pois essas famílias sustentavam os filhos dos trabalhadores e ainda davam um troquinho pela recompensa. Mas na década de 1980 foi legalizada uma lei, dizendo que era crime discriminar uma pessoa pela aparência externa, ou mais precisamente, descriminar um negro pela cor da pele ou pelas condições de vida. E por lei é permitido que todo o ser humano, seja lá qual etnia for, deve ser tratado como um cidadão, com direitos iguais, como todos os demais, pensando nisso, o sistema resolveu concretizar as Cotas Raciais nas Universidades, já que poucos têm condições de pagar para estudar em universidades públicas ou federais, enquanto outros têm que trabalhar muito para pagar os estudos, embora essa política não sirva somente para os negros, pois não adianta nada um negro ter estudado o ensino médio inteiro em escola particular, esse sistema vale para quem estudou durante todo o ensino médio em escola pública e que tenha uma renda média per capita de um salário mínimo.
Hoje em dia ainda é permitido dançar e lutar Capoeira pelas ruas, antes quem fizesse tais amostragens era condenado a no mínimo seis meses de cadeia, isso é um absurdo, mas depois da abolição da escravidão, da República Velha, e durante a década de 30, Vargas havia visto uma dessas danças e achou muito bom, então ele legalizou para que fosse possível dançar capoeira livremente na rua, também tem o Carnaval, criada e incentivada pelos negros na mesma época.
Conclui-se que o negro é a cara do Brasil, é a etnia que fez o Brasil ser o que é hoje, em questão de produção e em questões culturais. Mas o Brasil negro se esconde atrás da cara branca, ou seja, a população brasileira não se espelha na África, na verdade, o brasileiro se influencia com os costumes europeus.


20 de out. de 2013

Do Congo ao Brasil

Encontrei essa reportagem do Opera Mundi sobre uma refugiada do Congo que por acaso fugiu para o Brasil. Uma história de vida muito trágica e cotidiana de regiões africanas que permanecem durante anos em conflito.

Vale a pena a leitura!



A refugiada congolesa que chegou ao Brasil por acaso


Ornela Mbenga Sebo tem hoje 23 anos. Ela vivia com seus pais e duas irmãs em uma casa confortável na cidade de Walikale, na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo. Era uma quarta-feira no mês de janeiro em 2011, quando sua vida mudou. Como de costume, acordou cedo, tomou banho, fez a refeição com sua família e despediu-se para mais um dia de trabalho sem saber que aquela seria a última vez que veria seus parentes.
Desde a década de 90, o Congo vive um conflito político e civil. Mobutu Sese Seko governou o país desde 1965. Após o seu exílio forçado, em 1997, o líder opositor Laurent D. Kabila passou a ocupar o cargo da presidência. Foi neste momento que grupos de origem ruandesa se revoltaram contra Kabila, que acabou assassinado em 2001 por seu guarda-costas. Com isso, o filho, Joseph Kabila, assumiu seu lugar.Após ser eleito presidente em 2006, Kabila atuou para desmobilizar vários grupos opositores, mas o ano de 2011 marcou mais uma investida de crimes que assolaram várias cidades congolesas.
A grave crise humanitária que acometeu o Congo já deixou quatro milhões de mortos em razão de combates armados, mas também devido a fome e doenças. Por pouco Ornela sobreviveu e teve um destino que jamais poderia imaginar. Ela foi violentada e escravizada, mas conseguiu fugir em um navio mercante rumo ao Brasil. No Rio de Janeiro, a jovem do Congo contou sua história rica a Opera Mundi.


O dia em que tudo mudou


Aos 21 anos de idade, Ornela viu sua casa ser incendiada e se perdeu da família. “Começou o bombardeio e tiros. A gente pensou que era uma coisa passageira, mas não passou. Quando acalmou, saí do trabalho para tentar chegar em casa e vi minha casa pegando fogo”, lembrou.
Desde pequena, seu pai lhe contava que a guerra já acontecia havia tempos. “É muito difícil sentir na pele. Fiquei desesperada. Pensava que meus pais estavam lá dentro da casa pegando fogo. O governo não faz nada e a polícia é a primeira a sair da cidade”, disse.
Walikale ficou irreconhecível com prédios incendiados e destruídos. Embora a iminência de um conflito em Kivu do Norte sempre estivesse presente e os moradores se preparassem para fugir das cidades e seguir em direção à capital, Kinshasa, a família de Ornela não previra o ataque. A onda de violência veio sorrateira e devastou a vida de milhares de pessoas.
“Eram opositores de Ruanda e Burundi. Desde que a gente mudou o presidente, esse conflito começou. Quando a gente ouvia que ia ter guerra, saíamos da cidade e seguíamos para Kinshasa. Dessa vez aconteceu assim de repente”, narrou.
Em choque e sem saber a quem recorrer, a jovem se juntou a um grupo de pessoas,em direção a Kinshasa. A esperança era encontrar avós que viviam na capital.
Foram longos dias de caminhada debaixo de sol, chuva e vento. “Não tinha certeza se estavam vivos, mas queria encontrar minha outra família. Fugi a pé. Andamos duas semanas. Encontrei com pessoas que estavam fugindo também, eram idosos, crianças, mulheres e homens”.
Ornela narra com detalhes sua jornada. Ao longo dos dias, ela atravessava cidades inteiras a pé, aparentemente fantasmas. “Não tinha mais ninguém, havia mortos pendurados. Passamos numa cidade que tinha gente morta na rua, cachorros comendo corpos, cidades destruídas. Tenho vivo na memória, quando conto, parece que volto no lugar de novo”.



Ataques



Apesar das intempéries do caminho, o maior perigo era ser atacada por grupos que “andavam de cidade em cidade procurando gente para matar”.  
“Fingi estar morta. Botei sangue de alguém no meu corpo, coloquei uma pessoa morta em cima de mim e prendi a respiração. Chegaram perto, me chutaram para ver se eu estava viva e foram embora. Eu continuei a caminhada”, relatou.
Até que em mais um cerco, a jovem não escapou e foi capturada. Perguntada se chegou a ter medo de morrer, ela disse: “naquela hora não, não tinha mais sentimento, já que meus pais não estavam, perdi a esperança, não sabia o que fazer”.
Em um grupo de 60 pessoas, Ornela foi levada à força para a Tanzânia. Sua função era buscar água para os sequestradores diariamente no porto de uma cidade que nunca soubera o nome. “Fui para a Tanzânia sendo escravizada. Prendiam a gente com força para dormir com eles, lavar roupa e fazer comida. Eles comiam e depois botavam a comida no chão para a gente comer. Eu dormia no chão em um acampamento. Sofri moralmente, física e mentalmente. Uma senhora que não queria dormir com eles, mataram cortaram ela (sic) na frente da gente. Bateram em mim algumas vezes, levei tapas, chutes”, descreveu.
Era um grupo de cerca de 30 pessoas, munidas de armas, granadas e facões. Ela lembra ouvi-los falar em rádio no idioma swahili. “Acho que o governo sabia dessas coisas. Eles falavam que iam matar todo mundo”.
Em uma de suas idas e vindas ao porto para buscar água – eram mais de 30 baldes por dia – Ornela conheceu um rapaz que ficou intrigado por ver sempre a moça com a mesma roupa. “Foi o rapaz que me ajudou a fugir. Ele me via todo dia com a mesma roupa quando eu ia pegar água. Tinha medo, não confiava mais em ninguém”.
O rapaz ganhou sua confiança e, como trabalhava no porto, arranjou que ela embarcasse escondida em um navio mercante e disse “você vai fugir para qualquer lugar que for”.



A fuga



Era uma madrugada em fevereiro, quando pulou o muro e entrou em um navio escondida. “Era uma questão de vida ou morte. Ele me deu um saco de amendoim e fiquei onde estava o lixo do navio”.
Ele se chamava Papy. Ornela nunca mais se esqueceu do nome do rapaz que salvou a sua vida. “É muito difícil encontrar alguém que quer te ajudar sem nada de volta. Ele me ajudou bastante”.
Foram duas semanas de viagem no escuro sem poder sair do depósito de lixo. Sem perguntar para onde ia, exausta e sem documentos, a jovem apenas sonhava em se ver livre dos rebeldes.
Moribunda, dias depois desembarcou numa cidade portuária. “Fui andando procurando alguma coisa para comer. Perguntei: eu tô aonde? E responderam, você está no Brasil”.
Ela falava português por ter estado em Angola anos antes. A jovem do Congo estava em Santos. “Fui perguntando se tinha trabalho e o dono de um bar me deu um suco e um salgado. Falei que vinha do Congo e tinha acabado de chegar. Um cara do lado disse que conhecia um angolano me levou até ele. Tudo isso aconteceu no mesmo dia”. Foi acolhida por um estudante angolano que se solidarizou com sua história e, em menos de um mês, a chegava no Rio de Janeiro para ser recebida por conterrâneos.
“Me mandaram dinheiro para comprar passagem de ônibus. Foi o momento mais feliz quando me receberam. Todos choraram. Eles disseram que iam ajudar a procurar minha família. Foram meus anjos da guarda”, disse.
No Rio, Ornela reconstruiu sua vida. Ela vive no bairro de Irajá, no subúrbio carioca, com os quatro amigos – Felly, Freddy, Raule e Rodrigue. Obteve o status de refugiada no Brasil e tem o direito de viver e trabalhar como qualquer cidadão brasileiro.
Com a ajuda da Cáritas, entidade que trabalha em parceria com o governo brasileiro e a ONU para acolher refugiados, Ornela conseguiu um emprego de recepcionista no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá fez inúmeras amizades, mas faltava ainda uma coisa para que se sentisse com a vida reconstruída. Ela queria encontrar algum parente.



O reencontro



Desde 2011, nunca mais falou com ninguém de sua família. Com uma conta do Facebook, seu tio que vive na França a localizou e quase um ano depois seus pais também a encontraram.
“Mobilizaram gente para encontrar meus pais, foi gente na minha cidade com fotos procurando. Demorou uns 10 meses para encontrar. No ano passado eu estava no trabalho, meu celular tocou e ouvi uma voz diferente. Era minha mãe. Chorei muito. Era tanta alegria, tudo o que eu queria. Mãe você está viva? Eu parei aqui no Brasil... não sei bem explicar”.
No dia do incêndio da casa em 2011, seus pais e irmãs se esconderam num bunker construído no subsolo, mas conseguiram sair antes da casa pegar fogo e fugiram para o Senegal. Hoje, sua família vive em Chicago, nos Estados Unidos.
“Esse foi o momento mais, mais, mais feliz da minha vida. Sempre fui muito apegada aos meus pais. Agradeço todos os dias”, salientou.
Sua meta é visitar a família. Quer passar o Natal com os pais. Sensibilizados, seus colegas lançaram uma campanha pela internet de crowdfunding para arrecadar dinheiro e ajudar a pagar sua passagem de avião. Ela pretende ficar perto dos pais e irmãs.
A história vai virar livro também, pois Ornela topou contar em detalhes passagens de sua vida para uma biografia. Uma coisa é certa para a jovem refugiada do Congo: não pretende voltar tão cedo para seu país. “Não pretendo voltar. É meu país, eu amo, sou africana, sou do Congo, mas só voltaria se a situação estivesse mais segura. Aí posso voltar, mas não para morar, só para visitar meus avós que continuam lá”.





16 de out. de 2013

Arquivos da Cidade

Para visualizar o documentário, clique nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=nIIma7ZtSPY

Informações sobre o documentário:
Diretores: Felipe Diniz e Luciana Knijnik
Ano: 2009
Depoimentos:
Antonio Losada;
Lino Brum Filho;
Carlos de Ré;
Gregório Mendonça;
Ignez Serpa Ramminger;
Bona Garcia.

Esse documentário proporciona uma boa aula de história sobre a Ditadura Civil-Militar Brasileira. A começar pelo nome “Arquivos da Cidade”: são seis pessoas, seis memórias, seis depoimentos, seis arquivos de seis diferentes experiências de quem lutou contra a ditadura em Porto Alegre. Os arquivos aqui não remetem a papeis e documentos antigos, mas se referem a diferentes pessoas: estudantes, líderes sindicais, familiares de desaparecidos, que viveram este período da história nacional e tem muito que contar de suas vivências.

Antes de continuar o texto sobre o documentário, uma ressalva teórica: memória não é história. Lembrar um evento ocorrido anos atrás não quer dizer que se está escrevendo “A” história do período. A memória é um mosaico que se faz e refaz a todo instante, dependendo do momento em que é solicitada a lembrança. Então, a memória dos acontecimentos ocorridos no período da ditadura para essas pessoas na década de 1990 era distinta das lembranças gravadas nesse documentário em 2009. Isso acontece não porque essas pessoas querem “mascarar” os acontecimentos e esconder a “verdade”. Isso ocorre porque a memória do ser humano é assim, inconstante, fugaz, transitória. Devido a essa característica, técnicas de pesquisa são utilizadas para escrever a história do período levando em consideração os depoimentos das pessoas, de maneira que o produto final esteja dentro dos métodos científicos que a ciência da história permite e aceita.

Os arquivos da cidade se referem a uma cidade em específico: Porto Alegre. Essa é mais uma característica que favorece a escolha desse documentário principalmente para quem leciona na própria cidade. É comum no ensino de história focar no Brasil. Sendo assim, algumas cidades mais “nacionais” são destacadas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. Essa é uma oportunidade de destacar o que aconteceu aqui, na cidade dos alunos, destacando locais que eles conhecem porque já passaram por lá, como o Hospital Nossa Senhora da Conceição comentado no vídeo.

É interessante destacar Porto Alegre também devido a sua participação dentro do contexto de Ditadura Civil-Militar. Por ser a capital do estado do RS o aparelho burocrático e repressivo do governo ditatorial era centralizado aqui. Além disso, o estado do RS é fronteira da Argentina e Uruguai, favorecendo trocas de informações e prisioneiros, pela Operação Condor. Isso favorece em pensar a cidade como ponto estratégico do governo brasileiro, não como um lugar em que nada aconteceu ou como palco secundário, deslocando o foco para o Rio de Janeiro ou Brasília.

Documentário não é um gênero cinematográfico que os alunos estão acostumados. Entretanto esse em específico foi feliz em dois quesitos: por ter uma curta duração, favorecendo que professores com poucos períodos de aula semanais consigam exibi-lo em um período e porque são as pessoas que contam, de “cara limpa e peito aberto” suas histórias, incluindo o período da prisão e da tortura. Nada mais impactante que ouvir e ver uma pessoa contando o que ela passou, a empatia é muito mais forte. Isso prende a atenção dos discentes, mesmo os mais dorminhocos.


Para finalizar, destaco a questão do vocabulário da época. “Expropriação”, “Revolução”, “Clandestinidade”, são palavras que os depoentes falam e que favorecem tratar do contexto desse vocabulário na época. Só essas três já propiciam uma outra aula. Cair na clandestinidade era abandonar a sua identidade: largar emprego, família, casa, trocar de nome, mudar de cidade, fugir da polícia que estava procurando por você. Normalmente as pessoas ficavam em “aparelhos”, que eram casas ou apartamentos alugados para disfarçarem os clandestinos e proporcionarem lugares para as reuniões dos movimentos organizados. A “Revolução” era a revolução de esquerda, sendo o modelo cubano o mais pensado e desejado, com a tomada do poder e a transformação do Brasil em um país comunista. E “expropriação” eram roubos e assaltos cometidos pelos movimentos de esquerda organizados para arrecadarem dinheiro para a “Revolução”, financiarem armamentos e manterem seus integrantes na clandestinidade.

25 de set. de 2013

Ditadura Civil-Militar e suas combatentes: depoimentos de mulheres presas

Encontrei essa reportagem muito boa da Marie Claire sobre os depoimentos de presas políticas durante o período da Ditadura Civil-Militar no Brasil que estão ressurgindo agora através da Comissão da Verdade (que estará investigando os crimes cometidos naquele período da história do Brasil até dezembro do ano que vem).
São depoimentos fortes que merecem ser lidos e relidos sempre. 

Os testemunhos das mulheres que ousaram combater a Ditadura Militar

Em pé sobre uma cadeira, nua, encapuzada e enrolada em fios, Ana Mércia Silva Roberts, então com 24 anos, esforçava-se para manter os braços abertos, sustentando uma folha de papel presa entre os dedos de cada mão. Ela estava naquela posição havia horas. A cada vez que o cansaço lhe fazia baixar minimamente os braços, um choque elétrico percorria todo seu corpo. E as gargalhadas preenchiam a pequena sala. Eram vários homens, talvez oito, talvez dez. Cada um com um rosto, uma história, uma vida. “Um dos meus torturadores poderia ser meu avô, um senhor de gravata-borboleta para quem eu daria lugar no ônibus; o outro era um loiro com chapéu de caubói. Havia um homem com jeito de pai compreensivo que chegou a me dar um chocolate, e um jovem bonito com longos cabelos escuros, que andava de peito nu, ostentando um crucifixo, de codinome Jesus Cristo”, afirma.
INTEGRANTES DO GRUPO "TEATRO EM GREVE CONTRA A CENSURA" PROTESTAM NO RIO DE JANEIRO EM FEVEREIRO DE 1968 (Foto: Gonçaves (CPDOCJB))
INTEGRANTES DO GRUPO "TEATRO EM GREVE CONTRA A CENSURA" PROTESTAM NO RIO DE JANEIRO EM FEVEREIRO DE 1968 (FOTO: GONÇAVES (CPDOCJB))

O rosto desses algozes, integrantes da repressão militar, e as cenas do dia em que teve de ser estátua viva perante eles são parte das lembranças que Ana Mércia, hoje 66, guarda de quase três meses de prisão no DOI-Codi e no Dops, dois centros paulistanos de tortura e prisão de oposicionistas ao regime militar, instaurado sete anos antes. Integrante do Partido Operário Comunista, ela esteve nos porões da ditadura em 1971, mesma época em que o País vivia a prosperidade do “milagre econômico” e o ufanismo alimentado pela conquista da Copa de 70 e por slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Nos meses em que ficou encarcerada, seu corpo e mente foram massacrados de diversas formas. Mas não é ao descrevê-las que seus olhos ficam marejados. “Estranhamente, eu não me lembro de quase nada daquelas semanas, meses. Fiz terapia, mas não consigo recuperar esses trechos da minha vida. O que mais me dói é isso. Vários pedaços de mim e da minha existência não me pertencem, ficaram com eles (os militares)”. Ana Mércia é uma mulher com pouca memória das torturas daqueles porões. E é também uma metáfora do próprio Brasil, que segue desmemoriado das histórias do regime militar (1964 a 1985) quase 30 anos depois do fim da ditadura. A diferença entre Ana Mércia e o Brasil é que ao País foi dada a chance de recuperar e registrar os detalhes de sua história. É essa a missão da Comissão Nacional da Verdade, criada pela presidenta Dilma Rousseff (ela mesma vítima de torturas do Estado) e que tornou acessíveis uma série de papéis até então secretos. Desde maio de 2012, 19 milhões de páginas de documentos foram retirados de seus arquivos e estão em análise, e cerca de 350 pessoas foram ouvidas. É um movimento delicado e, para muitos, atrasado. Até então, o Brasil já havia debatido por anos como lidar com a violência da época.
A Ordem dos Advogados do Brasil chegou a pedir, em 2008, a revisão da Lei da Anistia, que perdoava todos os “crimes políticos” e beneficiava também torturadores, mas teve o pedido negado pela Justiça. Da sua parte, grupos militares se opunham à quebra de sigilo e à própria Comissão por temer uma caça às bruxas. Foi depois de muito diálogo que se chegou à fórmula de um grupo de trabalho com ênfase na transparência: a Comissão da Verdade pode acessar qualquer documento que considerar importante e tem o poder de convocar pessoas para depor, mas não de julgá-las. Do primeiro ano de trabalho, emergiram as conclusões de que a tortura começou em 1964, pouco depois do golpe, e ocorreu em pelo menos sete estados diferentes. Nesse pouco tempo, o Estado brasileiro admitiu que os assassinatos do deputadoRubens Paiva e do jornalista Vladimir Herzog foram obra de seus agentes, e descortinou o recrutamento e o extermínio de tribos indígenas da Amazônia pelos militares.
Tudo isso dá contornos mais nítidos à história recente do País, mas o grupo ainda tem muito a contar até dezembro de 2014, quando os trabalhos serão encerrados. Uma das principais incumbências da Comissão é esclarecer a participação das mulheres na resistência à ditadura e as torturas a que foram submetidas. “Acreditamos que as mulheres sofreram violências específicas, sexuais, motivadas também por machismo, que buscavam destruir a feminilidade e a maternidade delas”, afirma Glenda Mezarobba, uma das coordenadoras do grupo Ditadura e Gênero, que investiga o assunto na Comissão da Verdade. Os trabalhos ainda não possuem conclusões definitivas, mas há fortes indícios do que pode ter acontecido às brasileiras durante as duas décadas de regime militar. “Hoje, trabalhamos com um número de 500 mortos pela ditadura, 50 deles seriam mulheres. Mas sabemos que os dois números estão subestimados”, afirma Glenda, empenhada em refazer a estatística.
CENA COMUM EM 1968: A CAVALARIA DS POLÍCIA MILITAR TOMA A AVENIDA SÃO JOÃO, NO CENTRO DE SÃO PAULO (Foto: Acervo Memorial da Resistência de São Paulo)
CENA COMUM EM 1968: A CAVALARIA DS POLÍCIA MILITAR TOMA A AVENIDA SÃO JOÃO, NO CENTRO DE SÃO PAULO (FOTO: ACERVO MEMORIAL DA RESISTÊNCIA DE SÃO PAULO)
A quantidade de processos reclamando anistia sugere que esse número é muito maior. Desde 2001, o Ministério da Justiça recebe pedidos de indenização de brasileiros que, de alguma maneira, tiveram a vida marcada pelo regime militar. São parentes e vítimas de violência ou pessoas que, por motivo exclusivamente político, ficaram impedidas de trabalhar. Hoje, o órgão contabiliza mais de 73 mil pedidos. Mais de 40 mil já foram aceitos. As mulheres foram fundamentais no combate ao regime em todas as suas fases. Seu engajamento nos movimentos pela anistia dos presos políticos, que muitas vezes culminaram com passeatas exclusivamente femininas,são a parte mais conhecida dessa militância. Mas, nas organizações de esquerda Ditadura, elas também foram importantes. Guardavam armas e abrigavam militantes (aliás eram preferidas para essa função, pois levantavam menos suspeitas), traduziam jornais comunistas estrangeiros, participavam das aulas de doutrinas ideológicas, da elaboração dos planos de assaltos e sequestros, tinham aulas de tiro e muitas foram a Cuba fazer curso de guerrilha. Nas organizações clandestinas, chegaram a dirigentes.
MANIFESTAÇÃO DE MULHERES CONTRA A VISITA DO ATIRADOR ARGENTINO JORGE VIDELA A SÃO PAULO, EM 1980 (Foto: Material Brasil Nunca Mais do Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp)
MANIFESTAÇÃO DE MULHERES CONTRA A VISITA DO ATIRADOR ARGENTINO JORGE VIDELA A SÃO PAULO, EM 1980 (FOTO: MATERIAL BRASIL NUNCA MAIS DO ARQUIVO EDGARD LEUENROTH/UNICAMP)

“Era preciso que houvesse uma mulher em cada esconderijo, para manter a aparência de uma casa normal”, afirma Glenda. Elas também agregavam uma faceta afetiva e familiar às organizações, muitas foram mães na clandestinidade ou na cadeia. Na descrição feita pela psicóloga argentina, naturalizada brasileira, Maria Cristina Ocariz, a mulher militante parece a expressão viva da frase do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara: “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. “Elas tinham a mesma garra que os homens. Perdiam companheiros, assassinados pelo regime, e ainda assim seguiam na luta, não por frieza, mas por convicção ideológica de poder construir um mundo melhor para seus filhos.” Cristina, que hoje coordena a Clínica do Testemunho Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo, um serviço que oferece espaço para reparação psicológica aos afetados por ditaduras, fez parte da resistência aos militares argentinos antes de se exilar no Brasil. Na juventude, na década de 70, ela deixava seu bebê de 1 mês nos braços da mãe, em Buenos Aires, ia a manifestações e corria para casa a tempo de amamentar seu filho. Quando eram presas, as mulheres tinham pela frente não apenas a tortura, mas também o sexismo e a violência sexual. “É claro que ser mulher fazia diferença. Porque ainda que os homens torturados também tivessem de ficar nus, eles tiravam as roupas na frente de outros homens. A mulher ficava nua diante dos olhos cobiçosos e jocosos daqueles homens, essa era a primeira violência”, afirmaTatiana Merlino, organizadora do livro "Luta, Substantivo Feminino", publicado em 2010 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que descreve o assassinato de 45 mulheres militantes.
NUDEZ E TORTURA
“A primeira coisa que eles fizeram quando entrei na sala de depoimento foi me mandar tirar a roupa, eu já fiquei apavorada”, afirma Ana Maria Aratangy, de 66 anos. “Eu não esperava por aquilo. Eu mesma fui tirando a roupa, achei que era melhor do que deixá-los arrancar. Acho que foi pior do que as torturas que vieram depois”. Ana Maria era membro do Partido Operário Comunista quando foi presa, aos 24 anos, e estava grávida de algumas semanas, mas não sabia. Estudante do sexto ano de medicina, ela afirma que sua militância era tímida: guardava duas armas em casa e tinha leituras consideradas

subversivas. Nem sequer conhecia os líderes do POC. Até por isso, não teve muito a dizer quando vieram os choques nos mamilos e os tapas no rosto. Tampouco pôde conter os gritos. Enquanto gritava, sua mãe, que havia sido presa junto com ela, ouvia da sala ao lado. Ana Maria só saiu da prisão aos cinco meses de gestação. Sua filha, hoje, tem 41 anos.
PASSEATA DE MULHERES NO LARGO CARIOCA À CINELÂNDIA, NO RIO DE JANEIRO EM 1983 (Foto: Almir Veiga (CPDOCJB))
PASSEATA DE MULHERES NO LARGO CARIOCA À CINELÂNDIA, NO RIO DE JANEIRO EM 1983 (FOTO: ALMIR VEIGA (CPDOCJB))

“Depois de nos colocarem nuas, eles comentavam a gordura ou a magreza dos nossos corpos. Zombavam da menstruação e do leite materno. Diziam ‘você é puta mesmo, vagabunda’”, afirma Ana Mércia. As violências que seguiam incluíam, em geral, choques nas genitálias, palmatórias no rosto, sessões de espancamento no pau de arara, afogamentos ou torturas na cadeira do dragão, cujo assento era uma placa de metal que dava descargas elétricas no corpo amarrado do prisioneiro. Mas com as mulheres era diferente. “Havia uma voracidade do torturador sobre o corpo da torturada”, afirma a psicóloga Maria Auxiliadora Arantes, cuja tese de doutorado sobre tortura no Brasil será publicada este ano. “O corpo nu da mulher desencadeia reações no torturador, que quer fazer desse corpo um objeto de prazer.”
Foi exatamente o que viveu Ieda Seixas, de 65 anos. Aos 23, ela foi presa por causa da militância do pai, operário. Demorou muito tempo para ser capaz de relatar o que passou. E, quase 40 anos depois, não consegue conter as lágrimas ao descrever: “Levaram-me para um banheiro durante a noite, no DOI-Codi, eram uns dez homens. Fiquei sentada em um banco com dois deles me comprimindo, um de cada lado. Na minha frente, em uma cadeira, sentou um cara que chamavam de Bucéfalo. Ele me dava muito tapa na cara, a minha cabeça virava de um lado para o outro, mas eu nem sentia, porque um dos homens que estava sentado ao meu lado não parava de passar a mão em mim, colocou os dedos em todos os meus orifícios. Era tão terrível que eu pedia: ‘Coloquem-me no pau de arara’. Mas aquele homem dizia: ‘Não, gente. Não precisa levar essa aqui para o pau de arara. Comigo ela vai gozar e vai falar’.
Todos riam. Naquela noite, se eu tivesse tido meios, teria tentado me matar.” O suicídio pode ter sido o destino de outras mulheres que não conseguiram suportaram a violência sexual. Segundo Luci Buff, da Comissão da Verdade, começam a aparecer informações de que até mesmo freiras teriam sido estupradas por militares. Amélia Teles, de 68 anos, relata que não foi capaz de conter o vômito ao ver que o torturador ejaculava sobre seu corpo nu e ferido, depois de masturbar-se olhando para a vítima, amarrada na cadeira do dragão. Militante do Partido Comunista, ela tinha dois filhos, de 5 e 4 anos, quando foi presa, em 1972. O assédio sexual do torturador não foi a pior parte. Em um dos dias na prisão, depois de ser exaustivamente torturada Amélia viu a porta da sala se abrir e seus dois filhos entrarem. “Foi a pior coisa do mundo. Eu, amarrada (nua) na cadeira do dragão, sem nem poder abraçá-los. A minha filha me perguntou: ‘Mãe, por que você está azul?’. Eram as marcas dos hematomas, do sangue pisado, espalhados pelo meu corpo”, afirma Amélia. “Eles foram claros comigo: para manter meus filhos vivos, eu teria que colaborar com eles.” Os dois filhos hoje são adultos. Passaram por terapia e guardam apenas fragmentos de memória de sua visita ao DOI-Codi. Nenhum quis ter filhos. Amélia credita esse fato ao trauma na infância.
A LÍDER ESTUDANTIL CATARINA MELONI EM PASSEATA. MAIS TARDE, ELA ESCREVERIA O LIVRO"1968: O TEMPO DAS ESCOLHAS" (Foto: Jesus Carlos (Imagem Global))
A LÍDER ESTUDANTIL CATARINA MELONI EM PASSEATA. MAIS TARDE, ELA ESCREVERIA O LIVRO"1968: O TEMPO DAS ESCOLHAS" (FOTO: JESUS CARLOS (IMAGEM GLOBAL))

Agredir crianças para atingir a mãe não era um recurso excepcional. Nem sequer as mulheres grávidas eram poupadas. Em 1974, com uma barriga de seis meses de gestação, a militante do grupo revolucionário MR-8 Nádia Nascimento foi presa, junto com o seu companheiro, em São Paulo. “Já foram logo me dizendo que filho  de comunista não merecia nascer. Arrancaram minha roupa na frente do meu companheiro, que já estava muito machucado pela tortura, e perguntavam se ele queria que me torturassem, diziam que dependia dele. Ameaçaram me estuprar na frente dele, mesmo grávida. Até que,em um dado momento, me colocaram na cadeira do dragão. Ali, comecei a sangrar por causa dos choques e perdi meu filho”, conta Nádia, que teve uma série de complicações médicas decorrentes do aborto provocado e da falta de cuidados hospitalares. A criança se chamaria Lucas e hoje teria 39 anos de idade.
Também presa aos seis meses de gestação, Criméia de Almeida, de 67 anos, conseguiu manter seu filho na barriga, a despeito das torturas. Quando a bolsa estourou, na cela solitária que ela ocupava em uma carceragem do exército em Brasília, dezenas de baratas que habitavam o lugar começaram a subir por suas pernas, alvoroçadas por se alimentar do líquido amniótico. Embora pedisse ajuda, teve de esperar horas até ser transferida a um hospital. Lá, a ex-guerrilheira do Araguaia, que havia trabalhado como parteira na Amazônia, teve as pernas e os braços amarrados. “Quando o bebê nasceu, já o levaram para longe de mim. E o médico me costurou sem anestesia, eu gritava de dor. Daí passaram a usar meu filho para me torturar. Passavam dois dias sem trazê-lo para mamar. Quando ele vinha, estava com soluço, magro, morto de fome. Ele nasceu com quase 3,2 kg. Mas com um mês de vida pesava apenas 2,7 kg. Na infância, ele tinha muitos pesadelos, chegou a ter convulsões. É claro que ficaram traumas em todos nós. Quando eu estava presa e ouvia o tilintar de chaves na carceragem, que significava que alguém seria torturado, o bebê começava a soluçar dentro do útero. Hoje, aos 40 anos, João Carlos ainda soluça toda vez que fica estressado”, afirma Criméia.

Sobre a experiência, a ministra diz: “A Maria superou tudo e hoje é uma vencedora. Eu também superei. Tive outro filho que me deu a certeza de que o que fiz foi correto e me mostrou que eu ainda era capaz de ser mãe mesmo depois de todas as torturas que sofri
. Mas, ainda assim, relembrar isso é muito sofrido. Acho que cada um resolve à sua maneira. A Maria aprendeu a lidar com isso com mais liberdade e menos sofrimento. Eu, tudo o que tinha de falar, eu falei. Porque o pior não é a tortura física, mas a psicológica, a ameaça. As ameaças que faziam comigo de torturar a Maria na minha frente eram tão pesadas que talvez fossem mais fortes do que a própria tortura em si”.Ele não conheceu o pai, André Grabois, que até hoje é considerado desaparecido político. Criméia não teve a chance de enterrar seu companheiro. É provável que André tenha sido assassinado pelos militares durante a guerrilha do Araguaia – movimento comunista na região amazônica combatido pelo governo entre 1972 e 1974, no qual acredita-se que os militares tenham lançado bombas de Napalm, o mesmo químico usado no Vietnã, de acordo com mais uma revelação recente da Comissão da Verdade. Sorridente até ali, em um evento sobre educação internacional para mulheres, a ministra das mulheres, Eleonora Menicucci, ganhou um semblante pesado ao ser indagada por Marie Claire sobre sua história na ditadura. Quando foi presa, em 1971, tinha apenas 22 anos e uma filha de 1 ano e 10 meses. Para forçála a dar informações de sua atividade política, os militares colocaram a menina, Maria,  apenas de fralda, no frio. A criança chorava e os torturadores ameaçavam dar choques nela. Ieda Seixas, que foi aprisionada na mesma cela que a atual ministra logo depois dessa sessão de tortura, afirma: “A Eleonora andava como um animal enjaulado, de um lado para o outro, e dizia ‘minha filha, minha filha’. Tinha os olhos esbugalhados, passava a mão pelos cabelos com desespero, parecia que ia explodir. Era mais do que estar transtornada, ela estava em estado de choque”.
AS GRADES DO DOPS (Foto:  Material Brasil Nunca Mais do Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp)
AS GRADES DO DOPS (FOTO: MATERIAL BRASIL NUNCA MAIS DO ARQUIVO EDGARD LEUENROTH/UNICAMP)







O FUTURO
É com essa mesma memória que o Brasil tenta aos poucos lidar. A abertura dos arquivos e os depoimentos, que pode resultar em processos contra os torturadores, não são as únicas manifestações. No cinema, "Hoje", filme da diretora Tata Amaral, mostra o quão atual é nossa dívida com a história. A protagonista do longa, vivida pela atriz Denise Fraga, é uma ex-militante de esquerda cujo marido foi morto pelos militares. Ela recebe uma indenização pela morte dele e compra um apartamento, mas, no dia da mudança, o desaparecido ressurge. A figura do retorno mostra como é difícil seguir em frente sem resolver o passado. É assim no filme e na vida de Criméia, Amélia, Ieda, Ana Mércia e Ana Maria. “Ao fazer "Hoje", me deparo com uma sociedade que permite que sua memória seja roubada. E que aceita que, neste momento, alguém esteja sendo torturado numa prisão brasileira. Será que em algum momento a gente vai dizer: ‘Chega!’?”

18 de set. de 2013

É menina!


Sobre as (des)venturas de um gênero e as frases que acompanham uma parte da vida da menina:

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney
preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Por Gregório Duvivier. Retirado daqui.

22 de jul. de 2013

Território quilombola em Porto Alegre

Trago hoje uma reportagem de um possível novo território quilombola em Porto Alegre. Antes de colar a notícia, vale a pena esclarecer alguns pontos.
A escravidão ocorreu em todo o território brasileiro. Portanto, pode haver territórios quilombolas em qualquer lugar do país.Quando a gente escuta ou lê sobre quilombos, é mais provável lembrar do Quilombo dos Palmares, que esteve localizado no território do atual estado do Alagoas, e de Zumbi dos Palmares. Entretanto, muitos territórios pelo país foram ocupados pelos escravos e seus descendentes, antes ou depois da abolição da escravatura em 1888. 
Atualmente, os locais que são considerados territórios quilombolas possuem garantias diferenciadas. A principal é a permanência do local para os descendentes de escravos. Nem todos os territórios quilombolas estão situados nas periferias das cidades. Aliás, a ocupação dos espaços mudam com o passar do tempo e o que antes era longe do centro da cidade, com o tempo, o crescimento da população, as transformações nas cidades e a especulação imobiliária, pode acabar se situando em uma zona muito valorizada. Estar em uma área que é muito valorizada é um problema para um quilombo, que em sua maioria é formado por uma população muito pobre, já que os escravos depois da abolição foram abandonados as suas próprias sortes e seus descendentes estão lutando, ainda hoje, por melhores condições de vida. Aos olhos de muitos, esses territórios são "favelas", "casebres", "lugar de gente pobre e feia", "onde só tem maloqueiro".
Para um local ser considerado um território quilombola é necessário muita burocracia e estudo. Necessita-se de um relatório sócio-histórico-antropológico feito por uma equipe multidisciplinar (antropólogos, historiadores, funcionários estatais, comunidade, etc) que realmente comprove que aquele espaço foi ocupado por escravos e que seus descendentes ainda estão lá. Isso leva anos para ficar pronto.

Segue a reportagem retirada do jornal Sul21:

Areal da Baronesa está perto de se tornar território quilombola

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Origem de área quilombola remonta ao século XIX | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Felipe Prestes
Foi publicado nesta quinta (18) no Diário Oficial o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade quilombola do Areal/Luiz Guaranha. Após a publicação deste documento, o rito determina um período de 90 dias para contestações, mas isto não deve acontecer. “Só afeta áreas públicas, do Governo do Estado e Prefeitura de Porto Alegre, e já há acordo com eles para a titulação do território quilombola”, explica a antropóloga Janaína Lobo, do INCRA. Em pouco tempo, portanto, a comunidade terá posse definitiva da área que habita há mais de um século.
Conhecido como o Areal da Baronesa, o local fica no limite entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus e é um dos mais tradicionais redutos de cultura negra na capital gaúcha. A área de 4,5 mil m² compreende a Avenida Luiz Guaranha, que, na verdade, é uma rua sem saída, onde vivem 67 famílias e cerca de 300 pessoas.
Segundo o relatório sócio-histórico-antropológico, que é parte do RTID e foi coordenado pela antropóloga Denise Jardim, da UFRGS, a área pertencia à Baronesa de Gravataí e passou a ser reduto de ex-escravos e seus descendentes no século XIX, em data imprecisa. “A ocupação remonta à chácara da Baronesa do Gravataí, essas pessoas são remanescentes de quem vivia na senzala desta chácara. Claro que, como em toda comunidade viva, outras pessoas foram se agregando ali. Não é possível precisar a data. O certo é que foi no século XIX”, explica Janaína Lobo.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Comunidade do Areal da Baronesa buscava titulação há mais de dez anos | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Naquela época os jornais tratavam o Areal como se fosse outro país dentro de Porto Alegre. Há uma especificidade cultural e uma história ligada ao período da escravidão, características dos territórios quilombolas, além de um vínculo comunitário e espacial”, complementa a antropóloga.
A comunidade busca a titulação há mais de dez anos, embora o processo tenha começado, de fato, em 2005. “Não temos palavras. É a vitória do nosso movimento. Muitas vezes a gente procurava ajuda e não tinha resposta”, comemora Alexandre Ribeiro, presidente da Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal.
Janaína Lobo explica que a posse da área será coletiva, em nome da associação. A área não poderá ser vendida, nem penhorada. Haverá total autonomia para admitir novos moradores, novas construções, mas todas as decisões têm que passar por reuniões da associação. “A emissão de título é muito importante porque garante que eles permanecerão, não ficarão à mercê de possíveis reestruturações urbanas forçadas. É incrível como a comunidade conseguiu se manter em uma área central da cidade desde o século XIX, já que Porto Alegre é alvo de frequentes remoções forçadas e processos de gentrificação”.
Alexandre Ribeiro afirma que já houve especulações sobre a remoção da comunidade, mas que nunca passaram de boatos. “Agora, a gente não sai mais. E poderemos nos focar em melhorias nas nossas casas, um futuro melhor para nossas crianças”.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Primeiro Rei Momo de Porto Alegre era morador do Areal da Baronesa | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Areal foi reduto do Carnaval em Porto Alegre
Entre as décadas de 1920 a 1950, aproximadamente, o Areal da Baronesa foi um dos redutos do Carnaval de rua em Porto Alegre. “Na época de minha avó e minha bisavó, grupos chamados de coretos passavam por aqui. Era costume moradores oferecerem uma grande festa em sua casa para determinado coreto”, conta Fabiane Xavier, integrante da Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal.
Com o surgimento das escolas de samba, o festejo nos bairros minguou, mas a região seguiu sendo importante para a folia. O primeiro Rei Momo negro de Porto Alegre, Adão Alves de Oliveira, o Lelé – que faleceu nesta semana, aos 88 anos – foi morador do Areal. “A fundação da Imperadores do Samba ocorreu na Rua Joaquim Nabuco, aqui na Cidade Baixa, e muitos fundadores eram da comunidade também”, complementa Fabiane.
Além disto, entre 1994 e 2000, o Areal da Baronesa teve uma escola de samba que competia no Carnaval porto-alegrense. Entre os nomes famosos da música gaúcha oriundos do Areal estão Bedeu e Leleco Teles, fundadores do Grupo Pau Brasil nos anos 1970 e tidos como precursores do samba-rock.
Alexandre Ribeiro conta que a comunidade tem procurado saber mais sobre a história que os liga ao futuro território quilombola. “Alguns jovens querem saber mais sobre nossa história. Nós temos casas de religião afro aqui, temos um grupo de capoeira. Estamos procurando resgatar nossas raízes para as nossas crianças entenderem”. Uma das iniciativas mais recentes é a escola de samba mirim do Areal da Baronesa, que tem marcado presença na atual onda de reerguimento do Carnaval de rua em Porto Alegre.

20 de jul. de 2013

Por que a Classe Média sofre tanto?


Eu adoro o blog da Lola. Um dos espaços mais inteligentes e esclarecedores dessa internet. O post de hoje é retirado desse blog e fala sobre a classe média e a história mais recente desse país. Achei o texto bem didático e tranquilo dos alunos entenderem.



POR QUE A CLASSE MÉDIA SOFRE TANTO?

Que email fofo que a Adri me mandou!... Eu respondo lá embaixo.

"Querida Lola, como vai? Conheci seu blog no ano passado fazendo uma pesquisa sobre a Marcha das Vadias e amei. Virei leitora assídua dos seus posts! 
Meu nome é Adriana, sou mineira, moro em BH e tenho 16 anos. Gosto muito do jeito como você escreve, você encanta quem te lê!
Eu gostaria de te perguntar uma coisa, que não entendo e já perguntei para várias pessoas que também não souberam me explicar. O seguinte: por que a classe media brasileira tanto reclama? E do que reclama?
Esta dúvida me apareceu depois de ver os protestos de junho pelo Brasil. Não que eu ache que o movimento pela queda dos preços na passagem de ônibus não seja justo, mas a grande maioria das pessoas que vi nas passeatas estavam protestando contra o governo Dilma e sempre reclamando dos impostos que a classe média paga, pedindo a volta do PSDB. Todos os meus amigos que participaram diziam a mesma coisa: 'Fora PT! Acabem com o bolsa família! A classe média paga muitos impostos!'
Eu sou classe média. Estudo em escola particular aqui em BH, tenho acesso à diversão e tecnologia. Mas sei que minha família trabalha bastante para me dar estas coisas, enquanto vejo amigos cujos pais são ricos e não têm a mesma dificuldade. E são justamente eles que mais reclamam do governo. Mas por quê? A minha grande dúvida mesmo é: era realmente melhor para a classe média no governo FHC?
Meus pais são comerciantes, tenho mais duas irmãs mais velhas (32 e 30 anos -– sou a raspa do tacho!) e todos sempre trabalharam muito, seja na época do FHC ou agora. Meus pais não sabem dizer exatamente se antes do governo Lula era melhor para eles ou não, só sei que o nosso padrão de vida hoje é muito melhor.
Meus pais não prestam muita atenção em política. Votaram na Dilma e no Anastasia ao mesmo tempo, então eu cresci bem apartidária. Não sei ainda dizer se sou de direita ou esquerda. Não me lembro do governo de direita no Brasil, mas pelo menos não posso reclamar do governo Dilma.
A não ser por uma empregada doméstica que já não temos porque está difícil achar gente de confiança (classe média sofre, eu sei!), não tem nada que nós não tínhamos há 16 anos, muito pelo contrário.
Minhas irmãs entraram facilmente na UFMG, graças à escola particular que meus pais pagaram. Sei que hoje com as cotas para escolas públicas, pra mim poderá ser mais difícil, mas meus pais já ofereceram para pagar PUC se eu precisar. Quando minhas irmãs prestaram vestibular nem PUC elas tentaram porque meus pais não teriam condições de mantê-las. Não acho ruim o governo ter reservado as cotas para a escola pública, mas todos os meus amigos na escola estão revoltados. O engraçado e que eles querem cursos que nem têm na UFMG, teriam que ir para uma faculdade particular mesmo! 
Quando minhas irmãs fizeram 15 anos o sonho delas era ir pra Disney, e eu pude fazer isto no ano passado. Aliás, a minha família inteira viaja pra fora do Brasil já há algum tempo, coisa que ninguém nem imaginava que um dia faria. Todas as minhas amigas da escola, até mesmo as mais pobres, já foram pra Disney. Os alunos mais ricos passam férias na Europa todo mês de julho, inclusive perdendo semanas de aulas (a escola chegou a cogitar a possibilidade de termos férias de verão em junho e julho para coincidir com o verão do hemisfério norte).
Meus pais sempre tiveram um carro básico e agora têm um carro importado. Há cinco anos temos um bom plano de saúde, coisa impensável no passado.
A minha dúvida nisso tudo é: o governo do PT melhorou a vida apenas da minha família? Para algumas pessoas piorou? Mas se piorou não é isso que eu vejo! Todo mundo ao meu redor está 'mais rico'!
Perguntei a alguns professores na escola e a única coisa que eles me respondem é que a classe média paga muitos impostos. Mas aumentaram depois do PT? Sempre foram os mesmos? Qual a diferença?
Pelas pesquisas que fiz, parece que a educação piorou, mas ensinos fundamental e médio não são da responsabilidade dos estados? SP e MG são governadas pelo PSBD há anos! Mesma coisa com relação à violência; segurança não é de responsabilidade do estado?
Juro que não entendo! Será que você poderia me responder? Estou extremamente frustrada por não encontrar essas respostas com meus professores.
Muito obrigada por ler este email. Um grande beijo!"


Minha resposta: Adri, que gracinha que vc é! É muito interessante que vc não vá na onda de todo mundo que te rodeia e não faça coro à toda essa classe média que tanto sofre. 
Eu, vc, e a maioria dos leitorxs aqui do blog (e de qualquer blog, arrisco dizer) somos classe média. Se bobear, somos até classe média alta. E, ao contrário do que diz a classe média, e que você já percebeu, é uma maravilha ser classe média. Temos um bom lugar pra morar, temos opções de lazer, temos algum acesso à saúde, temos educação de boa qualidade, não precisamos nos preocupar com comida, temos um carro, o que significa que já levamos imensa vantagem de ir e vir num país que não dá a mínima pro transporte público. Sério mesmo, ser classe média é o que há. 
Seria melhor ser rico? Provavelmente. Mas aí a gente precisaria pensar no que faria, no que teria, se fosse rica. Não trabalharia? Viajaria mais? Comeria mais chocolate? (Não, só se eu fizesse um transplante de fígado). Deixaria de passar por todas essas privações pelas quais a gente já não passa? Convenhamos: nossa vida boa não ficaria tanto melhor.
O bom de ser classe média é que a gente depende pouco do governo, qualquer governo. Eu vivi durante a ditadura militar, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma. Estou vivendo na minha sétima cidade agora e, salvo um breve período em que meu pai ficou desempregado e minha família mergulhou na incerteza, sempre fui classe média. E minha vida sempre foi bem igual. Quer dizer, hoje, depois de fazer mestrado e doutorado e virar professora universitária, meu salário dobrou. O maridão e eu gastamos mais que gastávamos em Joinville (hoje temos plano de saúde), mas nossa vida em geral é parecida. 
Hoje estou na faixa mais alta de imposto de renda, pra quem recebe acima de 47 mil reais ao ano. Pago 27,5% de imposto sobre o que ganho. Não acho injusto. Afinal, são os impostos que pagam educação, saúde, segurança etc. O que acho estranho é que quem tem salário acima de 47 mil ao ano paga 27,5%, a mesma coisa de quem recebe, sei lá, um milhão ao ano. Pra mim, quanto mais se ganha, mais se deveria pagar de imposto. Sou totalmente a favor do imposto sobre grandes fortunas e heranças, por exemplo. Mas a classe média é esquisita. Ela se identifica com os ricos, não com os pobres. Ela realmente acha que tem mais em comum com um bilionário que com o mendigo da esquina, tolinha. E não é só aqui, é em todo lugar. 
Olha só os EUA. Em 2011, Obama tentou aumentar os impostos daqueles que ganham mais de um milhão por ano. Essa alta só afetaria os 450 mil americanos mais ricos (0,3% da população!), e geraria uma receita extra de 1,5 trilhão de dólares por ano. Foi o bilionário Warren Buffett que deu a ideia, depois de notar que, em 2010, ele pagou US$ 6,9 milhões em impostos. Parece muito, mas foi apenas 17% da sua renda. No entanto, seus empregados pagaram entre 33% e 41% de taxas. 
Só que toda vez que se fala em aumentar impostos, a classe média (qualquer classe média) faz um escândalo, ainda que aquele aumento não afetará seu bolso. E foi isso: o projeto não passou. Ninguém paga menos impostos que os ricos.
No Brasil, ninguém paga mais impostos que os pobres. Então, se a classe média realmente quiser reclamar (e reclamar é diferente de protestar), deveria parar de defender os ricos e exigir que eles paguem mais impostos, ué. Isso é distribuição de renda, uma questão de justiça: os ricos pagam mais. Não é lógico? Mas a classe média acha que está no mesmo barco dos ricos, e odeia os pobres. Daí vem também o ódio à Bolsa Família, às cotas sociais e raciais... Boa parte da nossa classe média é contra a distribuição de renda, o que é de uma idiotice sem tamanho. Nosso país seria muito melhor pra todos se houvesse justiça social.
Praticamente todos os indicadores sociais apontam que o Brasil melhorou muito nos anos com o PT. Poderia, e deveria, ter melhorado muito mais, se o governo Dilma ousasse mais e honrasse seus ideais de esquerda, em vez de se aliar à direita em nome da "governabilidade". Mas PSDB nunca mais. Sei que pra vocês muito jovens é difícil lembrar, porque vcs eram crianças quando FHC foi defenestrado, mas o que me recordo dos anos FHC é que ele passou o primeiro mandato aprovando a emenda da reeleição, e o segundo acabou com um vergonhoso apagão. 
Mas, pra mim, por ser classe média, os anos 90 foram bons. Eu só sofri no bolso quando entrei no mestrado e vi que o valor da bolsa estava congelado havia oito anos!
Mas não tem como ficar comparando o governo FHC com os do PT pra sempre. A realidade da "herança maldita" (os problemas que o PSDB deixou ao país) não é mais assunto. Em 2014 os eleitores não vão comparar a administração de Dilma com a de um governo que acabou doze anos atrás. Vão comparar com o que deveria ser.
Saiu uma notícia esses dias que corrobora a ideia de que a classe média está sofrendo. Na última década, o salário médio de quem estudou mais de doze anos (ou seja, a elite intelectual do nosso país) caiu 8%, descontada a inflação. A média geral da população cresceu 22%, mas cresceu mais pra quem tem até quatro anos de estudo. Se a renda de quem tem menos escolaridade cresceu 32% em dez anos, e a de quem tem mais diminuiu 8%, isso reflete para reduzir a desigualdade. É o que faz a classe média reclamar que não se encontra mais uma empregada, ou que elas ficaram muito caras. 
Ainda assim, pergunta pra uma empregada se ela não trocaria a vida dela pela nossa num piscar de olhos. Então eu acho que é isso: a classe média sofre porque não reconhece seus privilégios. Porque finge que não sabe que classes mais baixas adorariam estar no lugar dela. Já eu torço pra que todo mundo seja classe média. Inclusive os ricos.