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8 de mar. de 2014

Dia Internacional da Mulher

Para lembrar esse dia de luta por igualdade de gêneros, deixo aqui o discurso de agradecimento de Lupita Nyong'o no evento "Black Women in Hollywood". O discurso foi retirado do blog Escreva Lola Escreva
Para quem não sabe, Lupita é atriz e ganhou o Oscar como Atriz Coadjuvante no filme também pemiado "Doze Anos de Escravidão".

Eis o discurso da moça:

Recebi uma carta de uma garota e gostaria de dividir um pequeno trecho com vocês: “Querida Lupita,” diz ela, “Acho que você é realmente sortuda por ser tão negra e ainda assim fazer esse sucesso todo em Hollywood da noite para o dia. Eu estava quase comprando o creme Dencia’s Whitenicious para clarear a minha pele quando você apareceu no mapa mundial e me salvou”.
Meu coração sangrou um pouco quando li essas palavras. Jamais poderia imaginar que meu primeiro trabalho após terminar os estudos seria tão poderoso em e por si mesmo que me lançaria como uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura o foram para mim.
Lembro de um tempo em que eu também não me sentia bonita. Eu ligava a TV e só via peles rosadas, clarinhas. Eu achava que minha pele de matiz noturnal era uma provocação e um insulto. E minha única súplica a Deus, o fazedor de milagres, era que eu pudesse acordar com a pele mais clara. Vinha a manhã e eu ficava tão excitada para ver minha nova pele que me recusava a olhar os meus pés até estar de frente ao espelho, porque eu queria ver meu rosto claro primeiro. E todos os dias eu vivia a mesma decepção de continuar tão escura quanto no dia anterior. 
Eu tentava negociar com Deus: dizia pra ele que iria parar de roubar torrões de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria; que ouviria todas as palavras de minha mãe e nunca mais perderia minha blusa da escola se ele simplesmente me tornasse um pouco mais clara. Mas acho que Deus não se impressionava com minhas moedas de troca porque Ele jamais atendeu aos meus pedidos.
E quando eu era adolescente meu ódio por mim mesma ficou ainda pior, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava com frequência que ela me achava linda, mas isso não me consolava: ela é minha mãe, é claro que se espera que ela me ache bonita. Foi então que Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, estava em todas as passarelas e em cada revista e todos falavam sobre o quanto ela era linda. Até a Oprah disse que ela era linda, o que tornou isso um fato. 
Eu não podia acreditar que as pessoas estavam aceitando uma mulher que se parecia tanto comigo como bonita. Minhas características físicas sempre foram um obstáculo difícil de vencer e, de repente, Oprah estava dizendo que não, elas não eram isso. Isso era espantoso e eu não queria aceitar isso porque eu estava começando a gostar da sedução da inadequação. Mas não dava para segurar a flor que estava desabrochando dentro de mim. 
Quando vi Alek eu, inadvertidamente, vi um reflexo de mim mesma que eu não podia refutar. Agora eu tinha molas nos pés, porque eu me sentia mais visível, mais valorizada pelos distantes porteiros da beleza, mas à minha volta a preferência por peles claras ainda prevalecia. Para os observadores que eu considerava importantes, eu ainda não era bonita. E minha mãe, de novo, me dizia: “Você não pode comer a beleza. Ela não te alimenta”. E essas palavras me atormentavam e aborreciam; eu não as entendi de verdade até finalmente compreender que a beleza não era algo que eu pudesse adquirir ou consumir, era algo que eu simplesmente precisava ser.
E o que minha mãe quis dizer quando me falou que não se pode comer a beleza foi que não se deve confiar no seu visual para se manter. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesma e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. É o que colocou Patsey em tantas dificuldades com seu senhor, mas também o que manteve sua história viva até hoje. Lembramos-nos da beleza de seu espírito, mesmo depois que a beleza de seu corpo se desvaneceu.
Assim, eu espero que minha presença no cinema e nas revistas possa levar você, jovem garota, em uma jornada parecida. Que você sinta a validação de sua beleza externa, mas também se dê conta do profundo trabalho de ser bela por dentro. Não há tons [jogo com os significados de shade, que pode ser sombra ou tom de cor] para essa beleza.

22 de jul. de 2013

Território quilombola em Porto Alegre

Trago hoje uma reportagem de um possível novo território quilombola em Porto Alegre. Antes de colar a notícia, vale a pena esclarecer alguns pontos.
A escravidão ocorreu em todo o território brasileiro. Portanto, pode haver territórios quilombolas em qualquer lugar do país.Quando a gente escuta ou lê sobre quilombos, é mais provável lembrar do Quilombo dos Palmares, que esteve localizado no território do atual estado do Alagoas, e de Zumbi dos Palmares. Entretanto, muitos territórios pelo país foram ocupados pelos escravos e seus descendentes, antes ou depois da abolição da escravatura em 1888. 
Atualmente, os locais que são considerados territórios quilombolas possuem garantias diferenciadas. A principal é a permanência do local para os descendentes de escravos. Nem todos os territórios quilombolas estão situados nas periferias das cidades. Aliás, a ocupação dos espaços mudam com o passar do tempo e o que antes era longe do centro da cidade, com o tempo, o crescimento da população, as transformações nas cidades e a especulação imobiliária, pode acabar se situando em uma zona muito valorizada. Estar em uma área que é muito valorizada é um problema para um quilombo, que em sua maioria é formado por uma população muito pobre, já que os escravos depois da abolição foram abandonados as suas próprias sortes e seus descendentes estão lutando, ainda hoje, por melhores condições de vida. Aos olhos de muitos, esses territórios são "favelas", "casebres", "lugar de gente pobre e feia", "onde só tem maloqueiro".
Para um local ser considerado um território quilombola é necessário muita burocracia e estudo. Necessita-se de um relatório sócio-histórico-antropológico feito por uma equipe multidisciplinar (antropólogos, historiadores, funcionários estatais, comunidade, etc) que realmente comprove que aquele espaço foi ocupado por escravos e que seus descendentes ainda estão lá. Isso leva anos para ficar pronto.

Segue a reportagem retirada do jornal Sul21:

Areal da Baronesa está perto de se tornar território quilombola

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Origem de área quilombola remonta ao século XIX | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Felipe Prestes
Foi publicado nesta quinta (18) no Diário Oficial o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade quilombola do Areal/Luiz Guaranha. Após a publicação deste documento, o rito determina um período de 90 dias para contestações, mas isto não deve acontecer. “Só afeta áreas públicas, do Governo do Estado e Prefeitura de Porto Alegre, e já há acordo com eles para a titulação do território quilombola”, explica a antropóloga Janaína Lobo, do INCRA. Em pouco tempo, portanto, a comunidade terá posse definitiva da área que habita há mais de um século.
Conhecido como o Areal da Baronesa, o local fica no limite entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus e é um dos mais tradicionais redutos de cultura negra na capital gaúcha. A área de 4,5 mil m² compreende a Avenida Luiz Guaranha, que, na verdade, é uma rua sem saída, onde vivem 67 famílias e cerca de 300 pessoas.
Segundo o relatório sócio-histórico-antropológico, que é parte do RTID e foi coordenado pela antropóloga Denise Jardim, da UFRGS, a área pertencia à Baronesa de Gravataí e passou a ser reduto de ex-escravos e seus descendentes no século XIX, em data imprecisa. “A ocupação remonta à chácara da Baronesa do Gravataí, essas pessoas são remanescentes de quem vivia na senzala desta chácara. Claro que, como em toda comunidade viva, outras pessoas foram se agregando ali. Não é possível precisar a data. O certo é que foi no século XIX”, explica Janaína Lobo.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Comunidade do Areal da Baronesa buscava titulação há mais de dez anos | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Naquela época os jornais tratavam o Areal como se fosse outro país dentro de Porto Alegre. Há uma especificidade cultural e uma história ligada ao período da escravidão, características dos territórios quilombolas, além de um vínculo comunitário e espacial”, complementa a antropóloga.
A comunidade busca a titulação há mais de dez anos, embora o processo tenha começado, de fato, em 2005. “Não temos palavras. É a vitória do nosso movimento. Muitas vezes a gente procurava ajuda e não tinha resposta”, comemora Alexandre Ribeiro, presidente da Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal.
Janaína Lobo explica que a posse da área será coletiva, em nome da associação. A área não poderá ser vendida, nem penhorada. Haverá total autonomia para admitir novos moradores, novas construções, mas todas as decisões têm que passar por reuniões da associação. “A emissão de título é muito importante porque garante que eles permanecerão, não ficarão à mercê de possíveis reestruturações urbanas forçadas. É incrível como a comunidade conseguiu se manter em uma área central da cidade desde o século XIX, já que Porto Alegre é alvo de frequentes remoções forçadas e processos de gentrificação”.
Alexandre Ribeiro afirma que já houve especulações sobre a remoção da comunidade, mas que nunca passaram de boatos. “Agora, a gente não sai mais. E poderemos nos focar em melhorias nas nossas casas, um futuro melhor para nossas crianças”.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Primeiro Rei Momo de Porto Alegre era morador do Areal da Baronesa | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Areal foi reduto do Carnaval em Porto Alegre
Entre as décadas de 1920 a 1950, aproximadamente, o Areal da Baronesa foi um dos redutos do Carnaval de rua em Porto Alegre. “Na época de minha avó e minha bisavó, grupos chamados de coretos passavam por aqui. Era costume moradores oferecerem uma grande festa em sua casa para determinado coreto”, conta Fabiane Xavier, integrante da Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal.
Com o surgimento das escolas de samba, o festejo nos bairros minguou, mas a região seguiu sendo importante para a folia. O primeiro Rei Momo negro de Porto Alegre, Adão Alves de Oliveira, o Lelé – que faleceu nesta semana, aos 88 anos – foi morador do Areal. “A fundação da Imperadores do Samba ocorreu na Rua Joaquim Nabuco, aqui na Cidade Baixa, e muitos fundadores eram da comunidade também”, complementa Fabiane.
Além disto, entre 1994 e 2000, o Areal da Baronesa teve uma escola de samba que competia no Carnaval porto-alegrense. Entre os nomes famosos da música gaúcha oriundos do Areal estão Bedeu e Leleco Teles, fundadores do Grupo Pau Brasil nos anos 1970 e tidos como precursores do samba-rock.
Alexandre Ribeiro conta que a comunidade tem procurado saber mais sobre a história que os liga ao futuro território quilombola. “Alguns jovens querem saber mais sobre nossa história. Nós temos casas de religião afro aqui, temos um grupo de capoeira. Estamos procurando resgatar nossas raízes para as nossas crianças entenderem”. Uma das iniciativas mais recentes é a escola de samba mirim do Areal da Baronesa, que tem marcado presença na atual onda de reerguimento do Carnaval de rua em Porto Alegre.

28 de mai. de 2013

Como conversar com meninas

A mudança está nas novas gerações

Mais uma vez, posto um texto muito bacana sobre crianças. Agora o foco são as meninas que desde muito cedo (ou melhor, desde a descoberta do sexo do bebê) estão sendo educadas, estimuladas, influenciadas, treinadas dentro de uma cultura extremamente machista. Precisamos não criar "princesas", mas garotas que pensem e entendam que a loucura da beleza perfeita é um caminho de muito estresse, pressão, gasto e sofrimento.
O texto foi retirado daqui.

Não, não é um guia de paquera para garotos tímidos. Este texto da Lisa Bloom nos faz pensar sobre as consequências que nossas atitudes podem ter na educação das crianças, e como podemos mudar parâmetros sociais apenas conversando de modo diferente com uma menininha, segurando o impulso de dizer o quanto ela é linda para surpreendê-la ao ressaltar as outras qualidades que ela tem. Vale dizer que a educação dos meninos também precisa ser repensada, e que autora já escreveu sobre os dois.


Como conversar com meninas

Eu fui a um jantar na casa de uma amiga na semana passada, e encontrei sua filha de 5 anos pela primeira vez. A pequena Maya tinha os cabelos castanhos e cacheados, olhos escuros, e estava adorável em seu vestidinho rosa e brilhante. Eu queria gritar, “Maya você é tão fofa! Veja só! Dê uma voltinha e desfile esse vestidinho rosa, sua coisinha linda!”
Mas eu não fiz isso. Eu me contive. Como sempre me contenho quando conheço garotinhas, negando meu primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão.
“O que há de errado nisso? É a conversa padrão de nossa cultura para quebrar o gelo com as meninas, não é? E por que não fazer-lhes um elogio sincero para elevar suas auto-estimas? Porque elas são tão lindas que eu simplesmente quero explodir de tanta fofura quando as encontro, sinceramente.”
Guarde este pensamento por um tempo.
Esta semana a ABC News informou que quase metade das meninas de 3 a 6 anos se preocupam por estarem gordas. No meu livro, Think: Straight Talk for Women to Stay Smart in a Dumbed-Down World, eu revelo que 15 a 18% das meninas com menos de 12 anos usam rímel, delineador e batom regularmente; distúrbios alimentares estão em alta e a auto-estima está em baixa; e 25% das jovens mulheres americanas prefeririam vencer o America’s Next Top Model a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Até universitárias inteligentes e bem sucedidas dizem que preferem ser ‘gostosas’ a serem inteligentes. Recentemente uma mãe de Miami morreu durante uma cirurgia estética, deixando dois filhos adolescentes. Isso não pára de acontecer, e isso parte o meu coração.
Ensinar as meninas que a aparência delas é a primeira coisa que se nota ensina a elas que o visual é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso as leva a fazer dieta aos 5 anos de idade, usar base aos 11, implantar silicone aos 17 e aplicar botox aos 23. Enquanto a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia se torna regra, as mulheres têm se tornado cada vez mais infelizes. O que está faltando? Um sentido para a vida, uma vida de ideias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações.
Eu me esforço para falar com as meninas assim:
“Maya,” eu disse, me ajoelhando até ficar da sua altura, olhando em seus olhos, “prazer em conhecê-la”.
“O prazer é todo meu,” ela disse, com a voz já bem treinada e educada para falar com adultos como uma boa menina.
“Hey, o que você está lendo?” Perguntei, com um brilho nos olhos. Eu amo livros. Sou louca por eles. Eu deixo isso transparecer.
Seus olhos ficaram maiores, e ela demonstrou uma empolgação genuína, mas contida, sobre o assunto. Ela pausou, no entanto, tímida por estar com um adulto desconhecido.
“Eu AMO livros,” eu disse. “E você?”
A maioria das crianças gosta de livros.
“SIM,” ela disse. “E agora eu consigo ler sozinha!”
“Que incrível!” eu disse. E é incrível, para uma menina de 5 anos.
“Qual é o seu livro preferido?” perguntei.
“Vou lá pegar! Posso ler pra você?”
Purplicious foi a escolha de Maya, um livro novo para mim, e Maya se sentou junto a mim no sofá e leu com orgulho cada palavra em voz alta, sobre a nossa heroína que adora rosa mas é perturbada por um grupo de garotas na escola que só usam preto. Infelizmente, o livro era sobre garotas e o que elas vestiam, e como suas escolhas de roupas definiam suas identidades. Mas depois que Maya virou a última página, eu conduzi a conversa para as questões mais profundas do livro: meninas más e pressão dos colegas, e sobre não seguir a maioria. Eu contei pra ela que minha cor preferida é o verde, porque eu amo a natureza, e ela concordou com isso.
Em nenhum momento nós discutimos sobre as roupas, o cabelo, o corpo ou quem era bonita. É surpreendente o quão difícil é se manter longe desses tópicos com meninas pequenas, mas eu sou teimosa!
Eu falei para ela que eu tinha acabado de escrever um livro, e que eu esperava que ela escrevesse um também, algum dia. Ela ficou bastante empolgada com essa ideia. Nós duas ficamos muito tristes quando Maya teve que ir pra cama, mas eu disse a ela para da próxima vez escolher outro livro para lermos e falarmos sobre ele. Ops! Isso a deixou animada demais para dormir, e ela levantou algumas vezes…
Aí está, um pouquinho de oposição a uma cultura que passa todas as mensagens erradas para as nossas meninas. Um empurrãozinho em direção à valorização do cérebro feminino. Um breve momento sendo um modelo a ser seguido, intencionalmente. Meus poucos minutos com a Maya vão mudar a multibilionária indústria da beleza, os reality shows que diminuem as mulheres, a nossa cultura maníaca por celebridades? Não. Mas eu mudei a perspectiva de Maya por pelo menos aquela noite.
Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos.Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.

3 de abr. de 2013

Tarefas domésticas são coisas de mulher?

Publico aqui a coluna dessa semana do Ivan Martins que aborda a questão da divisão de tarefas por gêneros e os conflitos originários disso. Conviver com outras pessoas requer uma organização diferente do que morar sozinho (e ser o único responsável pela bagunça e sua organização). 
A cada dia a figura da mamãe ou esposa que limpa toda a casa e organiza a bagunça de todos está saindo de cena, ainda bem! As tarefas devem ser divididas por todos que convivem e compartilham o espaço. Dividir tarefas e dividir responsabilidades.

Segue a coluna que foi retirada daqui.

Quem cuida da casa?

Essa é a questão cotidiana das pessoas que vivem juntas, não é amor ou sexo
IVAN MARTINS


Caro Leitor:

Se você vai dividir a casa com uma mulher que trabalha, seja pelo casamento ou por qualquer outra espécie de arranjo (ela pode ser sua namorada, sua amiga ou sua irmã), tenha o cuidado, antes de cruzar o batente dela ou permitir que ela cruze o seu, de acertar quatro coisas com ela: Quem vai lavar a louça, quem vai fazer as compras, quem vai arrumar a casa e quem vai cozinhar.

Agora, no conforto do seu apartamento de solteiro, ou estendido no sofá da casa-útero da sua mãe, você pode achar que o mais importante na vida dos casais é sexo, sentimentos e dinheiro para pagar as contas. Não é bem assim.

Na noite de quinta-feira, quando você chegar em casa a fim de um romance, sua mulher vai lembrá-lo que a coisa mais importante da vida de vocês é a louça de três dias na pia da cozinha – ou a lista de compras colada há três dias na porta da geladeira, ou a roupa que você há três dias esquece de tirar da máquina. E faz todo sentido.

Se a sua mulher trabalha, o assunto mais importante da vida conjugal dela é aquilo que você faz ou não faz em casa – e não estou falando de sexo. O que vai definir a paz doméstica é a sua capacidade de dividir os trabalhos domésticos. Se você não for para pia e para a feira, está condenado a bater boca com uma frequência intolerável, e não há romance que resista a uma briga por semana.


Você não precisa acreditar nas minhas palavras. Leia aqui mesmo a reportagem especial que a Época fez sobre as expectativas atuais das mulheres em relação aos homens. Depois passe os olhos pelos comentários deixados pelos leitores ao pé da primeira parte do especial. Foi a leitura dos comentários que me fez escrever esta coluna. Foi perceber quão anacrônicos são os caras que se opõem às mudanças de hábitos. Eles são machos que temem serem emasculados pela rotina doméstica, eles são provedores injustiçados pela exigência de uma segunda jornada, são caras que acham que as mulheres que trabalham fora são todas putas. Um horror. As mulheres, por seu lado, estão exaustas e furiosas. Não entendem de onde vem a nossa autocomplacência quando elas são tão organizadas e tão exigentes consigo mesmas, quando, no exemplo de um amigo meu, elas botam as crianças para dormir, dão um tapa na casa, organizam o dia seguinte e voltam ao computador para terminar o trabalho que trouxeram do escritório, às 11 da noite...

Se você não é o sádico bilionário de Cinquenta Tons de Cinza, que dispõe de serventes, helicópteros e dinheiro inesgotável para pagar por todos os serviços, sua mulher ou namorada ou colega de moradia espera que você arregace as mangas e bote a mão na massa com ela. Não é mais opcional. A nova divisão de trabalho social é essa. Todo mundo trabalha fora, todo mundo rala, e todo mundo faz as coisas de casa. É uma simples questão de modernidade. Se a sua mulher olhasse para a sua cara e dissesse que tem o direito de ser sustentada sem trabalhar, apenas por ter nascido mulher, você perguntaria em que século ela pensa que está vivendo. Como nós, homens, achamos que elas se sentem quando sugerimos, com dezenas de argumentos meio frouxos, que temos o direito inato de que nos façam comida, lavem a nossa roupa e limpem o nosso banheiro, apenas por termos nascido homens?

Meu pai nasceu em 1930 e não gostava que a minha mãe trabalhasse fora. Eu nasci em 1960 e desde que fiquei adulto nunca namorei uma mulher que não tivesse ocupação. Meus filhos, que nasceram nos anos 1980, terão o direito de ver o jogo do time deles na TV enquanto a mulher deles lava a louça? Duvido. Só se o relógio andar para trás e o mundo for retomado pelos felicianos. Uma das medidas mais constantes do avanço civilizatório é a expansão dos direitos da mulher. Há 50 anos, quando a Betty Friedan escreveu A mística feminina, elas exigiam o direito de trabalhar fora. Conseguiram. Agora, no início do século 21, exigem que nós também trabalhemos dentro de casa - e conseguirão da mesma forma, provavelmente em menos tempo. É uma simples questão de racionalidade e de justiça. Pense no fim da servidão doméstica de metade da humanidade.

Escrevo essas coisas sem hesitação, porque eu mesmo não sou exemplo de nada. Minha mãe pedia ajuda em casa e eu fingia de surdo, enquanto as minhas irmãs cooperavam. Nunca aprendi a cozinhar. Agora, um bocado mais velho e talvez um pouco mais sábio, tento mudar, mas é duro alterar os hábitos de uma vida. A divisão das tarefas domésticas ainda é o motivo de sete em cada 10 discussões na minha casa. Não discuto SE, discuto QUANDO e COMO fazer o que tem de ser feito, mas ainda discuto. A vontade é deixar tudo para amanhã. No fundo, conto com a faxineira, que, uma vez por semana, restaura a base material do meu casamento. Ela também é mulher e provavelmente não estará na minha casa dentro de 10 anos. Nem na sua. Melhor seria aprender a fazer rápido o que tem de ser feito: lavar a louça, lavar a roupa, cuidar da casa e cozinhar.

Forte abraço,
Ivan


17 de set. de 2012

Racismo cotidiano

Esse post foi retirado do blog Escreva Lola Escreva e discute uma cena de racismo presenciada por uma das leitoras do blog. Racismo velado, mas muito claro para quem visualizava a cena.

GUEST POST: RACISMO NA CABELEIREIRA

Cecilia é uma cientista com um cabelão loiro, crespo, que vai até o joelho. Esta foto que ela me enviou é de quatro anos atrás. Hoje seu cabelo está muito mais longo e, como dá pra imaginar, exige muito tempo pra cuidar. 
Bom, o guest post em que o Robson falava do nosso padrão de beleza racista inspirou Cecilia a relatar algo que tinha acabado de acontecer com ela. Quer dizer, não com ela -- ela foi mais testemunha que vítima da história. A vítima? Todos nós. Uma sociedade só tem a perder quando é racista. Ainda mais quando o racismo está enraizado dentro de nós.

Este post caiu como uma luva para uma situação horrível que vivi ontem, e que gostaria de desabafar. Não quero me expor nem expor o nome do salão cabeleireiro, já que vou relatar um crime do qual não tenho nenhuma prova (além do meu testemunho). Não quero sofrer retaliação ou mesmo gerar uma onda de ódio caso a pessoa seja reconhecida. 
Moro numa cidade no interior de São Paulo. Meus pais são imigrantes europeus, o que me garantiu uma pele branca, olhos claros e cabelos loiros. 
Não sou exatamente vaidosa, mas gosto muito do meu cabelo. Muito mesmo -- ele tem mais ou menos 1,5m de comprimento, e o cultivo com muito carinho! 
Hoje resolvi experimentar um salão novo que abriu aqui perto de casa para fazer uma hidratação (faço mensalmente). Geralmente quando chego no salão já vou logo avisando que meu cabelo é difícil -- é fino, embaraça muito fácil. E que topo pagar mais por causa disso, sei que é quase tortura tratar dele. 
Como sempre, fui muito bem tratada; a moça, que é dona do salão, disse que não cobraria a mais por causa do comprimento (R$ 150 para cabelos longos) e foi logo puxando papo. Disse que iria até me fazer desconto, porque o movimento tá fraco agora em agosto, e ela está com dificuldades para pagar as contas, muitos horários vazios, naquele dia mesmo ela não tinha mais ninguém, e ainda era 13h. 
Começou o serviço. Primeiro, tentou me convencer a fazer escova progressiva (meu cabelo não é liso, é ondulado). Não, obrigada, gosto dele do jeito que é. Depois de insistir um pouco, começou a me oferecer fazer luzes, que ficaria muito bom. Novamente, não, obrigada, gosto dele do jeito que é e não quero pintar/mudar, estou satisfeita. Não gosto da ideia de passar produtos que possam prejudicá-lo, e realmente gosto dele do jeito que é. 
Aí veio o primeiro choque. Ela tentou me provar que luzes não fazem mal ao cabelo mostrando a foto da sua sobrinha de um ano (!) que tinha feito luzes. E aproveitou para compará-la comigo, que ela era loirinha como eu. Essa situação me desconcertou: dizer que a menina era loira sendo que não era. A menina (devo dizer bebê?) tinha a pele morena e traços fortemente africanos. Não tinha nada de loira além das luzes no cabelo. Não sei dizer o que me chocou mais: fazer luzes numa criança de um ano ou fazer isso para que ela fique 'loira'. Essa criança vai ouvir desde sempre que é errado ser do jeito que ela é, com seus cabelos negros -- melhor é ser loira. 
Comecei a me sentir desconfortável no salão. A moça não parava de sugerir que a cor do meu cabelo era ótima, bem melhor do que os cabelos que ela costumava atender. Como se ela me dissesse: você é melhor porque é branca. 
Mas isso não foi o que mais me chocou. Quando estava quase terminando, um carro parou na porta e uma moça entrou. A princípio não dei muita atenção, ela só estava pedindo para fazer uma hidratação. A cabeleireira disse que para o cabelo dela custaria 450 reais. Isso me chamou a atenção (três vezes mais do que ela me pediu! -- qual seria o tamanho do cabelo da moça?) e dei uma boa olhada nela. Era uma mulher bonita, vinte e poucos anos, negra, com uma cabelo muito bonito um pouco abaixo dos ombros. Ou seja, bem mais curto que o meu. 
Mesmo com o preço salgado, a moça disse ok e perguntou se poderia ser no mesmo dia ou no dia seguinte. A cabeleireira abriu a agenda e disse que estava lotada até setembro -- enquanto eu olhava a agenda pelo reflexo do espelho, vendo que não tinha NADA marcado. 
A cliente agradeceu e perguntou se ela conhecia algum salão na região. A resposta: "Ah, para tratar seu tipo de cabelo, sugiro que você procure salões nos bairros tal e tal" (bairros extremamente pobres da minha cidade). 
Novamente ela agradeceu e foi embora num carro novinho (não entendo de carro, mas era um carrão -- desses grandes, que custam bem caro). E a cabeleireira voltou para finalizar o meu, comentando:
Cabeleireira: "Ah, ainda bem que ela foi embora. Tentei colocar um preço alto mas mesmo assim ela não desistiu"
Eu (chocada): "Mas você não estava precisando de dinheiro e com horário vago?"
C: "Estava, mas ainda não tô passando fome para atender gente assim."
Eu: "Assim como?"
C: "Ah, esse pessoal de cor. O cabelo é muito ruim, não é bonito e fácil de lidar como o seu. Além do mais eles têm um cheiro esquisito, já reparou? Não cheiram bem como a gente que é loira, o suor deles é muito fedido."
Não consegui responder. Fiquei olhando para ela. Loira como a gente? Ok, eu sou loira, mas ela decididamente não era. Tinha os olhos castanhos claros, a pele bem escura, cabelos que no original deviam ser negros e ondulados, mas que estavam alisados e pintados de loiros, e traços africanos no rosto. 
Não sei o que me chocou mais: se foi o racismo, ali, na minha frente, quase cuspindo no meu rosto, ou se foi a fonte dele, uma moça comum, com óbvia ascendência negra. Não que o racismo por pessoas brancas seja justificável, mas aquela mulher, além de rejeitar o próximo, estava rejeitando a si mesma. 
Eu fiquei pensando naquela moça que foi dispensada. Não bastava ela ter dinheiro para pagar (pertencer à tão privilegiada e minoritária classe média), ter tempo livre (não é todo mundo que pode ir para um salão numa sexta à tarde), dirigir um bom carro. Nada disso importava. Ela ia continuar sendo mandada para a periferia, lá é o seu lugar, não importa quanto dinheiro tenha. Ela ia continuar sendo 'fedida'. 
Eu não consegui reagir. O que responder, Lola? O que responder, pessoal? Denunciar para quem? Provar como? Se a própria vítima foi embora.  
Essa moça não entrou no salão da Ku Klux Kan. Não havia uma suástica desenhada na parede. A pessoa que a atendeu não era um exemplar racista, era uma mulher como ela, como somos todos nós, filhos de pessoas de outras terras. Era só um salão de esquina, igual a tantos outros. E mesmo assim ela sofreu um racismo bárbaro. 
Visualizei a cena dela entrando de salão em salão e sendo rejeitada, enquanto todos a mandavam para o seu lugar. 
Não consegui falar mais nada depois disso. A moça ainda fez alguns comentários, mas respondi com monossílabos, paguei e fui embora. Sei que não vou voltar mais lá. Pessoas da minha família também não. Mas me pergunto se isso é o bastante. Mesmo que a mulher tivesse sido processada e presa (afinal, racismo é crime inafiançável), seria o bastante? Quando as pessoas negam a si próprias, tentam ser aquilo que não são, acham que os outros que têm os genes ligeiramente diferentes são melhores, o que fazer?
Parei e pensei: quantos amigos negros eu tenho? Dois. Sou racista? Não. Mas no meu mundinho de classe média pessoas negras não entram. Tenho amigos brancos como eu e asiáticos, porque essas pessoas estudam em escolas particulares, moram em bairros bons e estudam em faculdades de primeira. Os negros são minoria nesse mundo. E, quando entram, há aqueles que não os aceitam, que acham que eles devem continuar pobres, como gente fedida deve ser. 
O que fazer quando o racismo bate tão violentamente a sua porta? 

Meu comentário: Deixo para vocês responderem às questões da Cecilia. Mas eu me lembro de um dos maiores exemplos de racismo que já vi impressos. Saiu na coluna esportiva de um jornal catarinense, talvez em 1996. Tinha havido um daqueles tensos duelos do vôlei feminino, Brasil vs Cuba, arena de muita rivalidade. E o jornalista decidiu focar na aparência física das jogadoras. As brasileiras, quase todas brancas (apesar de vivermos num país em que mais de 50% da população é negra ou parda), eram lindas, delicadas e dignas, segundo o colunista. As cubanas, todas negras, ele chamou de crioulas, macacas, fedidas -- enfim, todos os termos racistas que a gente conhece. Eu fiquei de cara. Não conseguia acreditar que estava lendo aquilo. E, a ironia suprema: o jornalista é negro. Deve ser o único colunista negro de SC, se bobear.
Eu não escrevi pro jornal protestando, porque pensei: sou branca, acho, e o cara é negro. E eu vou estar acusando um negro de racismo. Hoje protestaria sem piscar. Aliás, hoje, com a internet, aquela coluna, e as reações a ela, correriam o Brasil. Mas eram outros tempos, pré-internet. Não li nenhuma carta de protesto no jornal. Nunca vi aquele colunista se retratar.
Só que individualizar o problema é fácil demais. Pensar que a cabeleireira com ascendência negra ou o jornalista negro é que são racistas, e a gente não, é bem cômodo. Dá até pra jogar aquelas frases de efeito no meio, né? Aquelas baboseiras de "negros são os piores racistas". Pena que não é verdade. A cabeleireira, o jornalista, eu e você, somos produtos da nossa época e lugar. Eles não foram jogados de uma nave espacial e vieram parar no Brasil por acaso. Eles -- nós -- respiram o racismo de toda uma sociedade. E internalizam tudo. Fica automático. Eles -- nós -- aprendem qual é a cor desejável, a cor padrão, a cor bonita, a cor de quem tem poder. Aprendem que negros são feios e fedidos. E que tudo bem chamar negro de crioulo e macaco, ainda mais se for só uma piadinha inocente, o politicamente correto quer acabar com nossa liberdade bla bla bla!
Este relato da Cecilia é interessante também para rebater o pessoal do "não somos racistas", que tá mais pra "não somos apenas racistas". Sabe o pessoal que diz que a discriminação no Brasil é pela classe social, não pela cor? Pois é. Pensem na moça que, mesmo tendo dinheiro pra pagar, não é atendida num salão por uma cabeleireira que acredita que negros cheiram mal.

16 de jul. de 2012

Brasil e América Latina: como abordar o assunto em sala de aula?

A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou uma matéria sobre o ensino de história da América Latina e do Brasil. Afinal de contas, somos latino-americanos ou não? As trajetórias dos países localizados na América do Sul são parecidas entre si? Por que a maioria dos alunos saem da escola sem saber o mínimo sobre a história dos países latino-americanos?

Achei o texto muito interessante. Ele está publicado aqui, mas se você quiser, poderá lê-lo no site da RHBN.


‘Hermanos’ independentes

Conhecer a formação dos países vizinhos pode ser um importante recurso para apresentar nossa História aos alunos

Maria Lígia Coelho Prado

Quem vive o cotidiano da sala de aula sabe que não é exagero afirmar que os alunos brasileiros do ensino médio, ou mesmo os que chegam à universidade, praticamente desconhecem a História da América Latina. Esse distanciamento entre o Brasil e os demais países latino-americanos se deve em parte ao fato de a tradição cultural brasileira estar profundamente voltada para a Europa. Cultivado desde os tempos coloniais, o fascínio pela “civilização do Velho Mundo” ainda tem forte apelo na sociedade brasileira dos nossos dias.
Historicamente, muitos fatores contribuíram para a construção desse fosso. As áreas de colonização portuguesa e espanhola suportaram rivalidades entre suas metrópoles que acabaram por traçar limites não apenas geográficos, mas também culturais, políticos e sociais. Mesmo após as independências, ao longo do século XIX, as diferenças se mantiveram, especialmente pela escolha de regimes políticos – enquanto o Brasil se configurou como uma monarquia, os países hispânicos deram origem a diversas repúblicas. 
Mas as últimas décadas trouxeram expressivas mudanças nas relações entre o Brasil e os demais países da América Latina. As várias facetas da integração regional e latino-americana têm sido intensamente discutidas e ganharam destaque no cenário político brasileiro, especialmente após a constituição do Mercosul (zona de livre comércio da qual fazem parte Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).  Este é um momento privilegiado para se ampliarem no Brasil o ensino e a pesquisa da História da América Latina. O paralelismo que encontramos nos grandes temas históricos das duas Américas – a portuguesa e a espanhola – permite indagações comparativas que podem provocar uma reflexão inovadora sobre a própria historiografia brasileira.
Uma comparação interessante pode ser feita entre duas pinturas históricas que retratam dois processos de independência: a do Uruguai e a do Brasil.As fortes vinculações com a Europa durante a segunda metade do século XIX fizeram com que vários artistas do Novo Mundo – brasileiros, uruguaios, argentinos e mexicanos – fossem estudar no Velho Continente, onde aprenderam novas técnicas e se familiarizaram com as correntes artísticas em voga, muitas vezes patrocinados por seus respectivos governos. Mas, de volta à terra natal, o cenário político e o ambiente acabaram impondo a questão nacional a esses artistas, que então dirigiram seu olhar para dentro de suas sociedades, interrogando-se sobre sua história e suas peculiaridades. Como resultado, produziram interpretações sobre os acontecimentos considerados primordiais naquele momento, como a chegada dos europeus à América e os processos de independência política.
No Brasil, Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) pintou o quadro “IndependênciaouMorte” ou “OgritodoIpiranga”, em 1888.Às margens do riacho do Ipiranga, D. Pedro, montado a cavalo, levanta a espada e proclama a Independência do Brasil, bradando: “Independência ou Morte!”. Seu gesto é saudado pela guarda, vestida em trajes de gala, e bem à sua frente, um cavaleiro arranca da farda o laço vermelho e azul que simbolizava a união entre a Colônia e a metrópole. Vinda do alto, uma luz esplendorosa ilumina D. Pedro. O único homem que não faz parte da comitiva oficial – um caipira, puxando um carro de boi – está apartado da cena principal e assiste a tudo com admiração e surpresa. É o “povo”, praticamente ausente nessa representação e cujo papel não é nem mesmo de coadjuvante, mas sim de um mero espectador.
Já o uruguaio Juan Manuel Blanes (1830-1901) havia pintado, em 1877, “OJuramentodos33Orientais”.A obra retrata o grupo de homens liderado por Juan Antonio Lavalleja (1784-1853) e Manuel Oribe (1792-1857) que se lança à reconquista militar da Província Oriental, nesse período incorporada, com o nome deCisplatina, ao território brasileiro.O acontecimento marca, na história do Uruguai, o início simbólico da chamada Cruzada Libertadora, que levará à Independência, a ser proclamada em 25 de agosto de 1825.
Na tela, Lavalleja empunha a bandeira dos 33 orientais – branca, azul e vermelha, com os dizeres Libertad o Muerte – acompanhado por Oribe, com o chapéu na mão, ambos demonstrando o mesmo entusiasmo e disposição dos homens que estão à sua volta. A cena se abre como num leque, personalizando os principais atores e caracterizando as figuras secundárias, como a do gaúcho ajoelhado, em seus trajes costumeiros, bem à frente. Um clarão os ilumina e parece brotar da terra, dando dramaticidade e valorizando a determinação e a confiança do grupo. A pintura está concebida de tal forma que os dois líderes não podem ser separados de seus comandados. Colocados no mesmo plano, formam um grupo político coeso, movidos pela mesma causa.
Tanto Juan Manuel Blanes quanto Pedro Américo escreveram textos de reflexão sobre a criação e a elaboração de seus quadros. Nestes relatos, há um ponto em comum: ambos afirmaram que não espelhavam exatamente a verdade histórica, pois as necessidades essenciais da construção artística precisavam ser levadas em conta.  
Pedro Américo afirmava que visitara o local do “Grito” e realizara extensas pesquisas, mas que algumas mudanças se faziam necessárias: o riacho do Ipiranga foi incorporado ao quadro; a cor dos laços da farda foi mudada de branco e azul para vermelho e azul, para se adaptar melhor à composição de cores; a casa e as árvores ao redor foram inventadas, assim como o declive do terreno. O objetivo era “restaurar com a linguagem da arte um acontecimento que todos desejam contemplar revestido dos esplendores da imortalidade”. Ele argumentava que todos tinham que estar de acordo com aquela época “cerimoniosa e brilhante”, desde os cavalos até os uniformes da Guarda de Honra. O cavalo de D. Pedro, que segundo alguns era um asno baio, foi pintado como sendo um zaino escuro, e seu cavaleiro deveria ser pintado de acordo com o caráter do príncipe: “propenso às pompas do trono”, e não refletindo as perturbações gástricas que sofria na ocasião.
Blanes achava importante fazer referência aos 33 orientais que iniciaram a luta pela independência. Pelas pesquisas atuais, não se sabe ao certo se esse número é exato. Mas a escolha do pintor está diretamente vinculada à sua filiação à maçonaria. Para os maçons, o número 3 é perfeito, compondo os três lados do triângulo, outro de seus símbolos. No quadro de Blanes, a vestimenta também é significativa, mas numa visão bastante diferente, já que ele dizia que “nossos pais não pensaram em fundar o orgulho nacional com seus trajes, e sim com seu valor e seu sangue”. Para ele, as roupas descuidadas de alguns dos heróis deviam ser assim retratadas, porque “atos de coragem e patriotismo não podem decorar-se previamente”. Então, a dignidade e a beleza seriam mostradas em sua simplicidade e de acordo com as particularidades dos costumes uruguaios.
As virtudes – coragem e dignidade – eram muito valorizadas pelo republicano Blanes, e por isso os trajes eram meros acessórios que não deviam ofuscar o brilho da cena histórica. Mas Pedro Américo pensava diferente: as aparências – a pompa, os trajes – eram indispensáveis, faziam parte da imagem da monarquia e integravam seu significado.  Da mesma forma, a luz, que na pintura do brasileiro vem do alto, na do uruguaio surge da terra. Ao comparar os dois quadros, é possível então afirmar que as escolhas pictóricas de Pedro Américo estão relacionadas ao imaginário simbólico da monarquia e que Blanes foi inspirado pelo ideário republicano, isto é, a perspectiva de que o poder político emana do povo e não da Divina Providência; que as pessoas nascem iguais, não cabendo privilégios à aristocracia; que as virtudes individuais são o sustentáculo do regime; que Estado e Igreja devem ser separados.
Bastante reveladoras são também as primeiras exibições dos dois quadros. Pedro Américo expôs “IndependênciaouMorte” pela primeira vez em Florença, em 1888, em “uma inauguração solene”, com a presença de D.Pedro II e da imperatriz, das rainhas da Sérvia e da Inglaterra e de vários membros da aristocracia europeia. O tom solene da cerimônia se adequava ao lugar escolhido para a exposição, a Academia Real de Belas Artes de Florença. Já Blanes expôs seu quadro pela primeira vez em seu próprio ateliê, no dia 31 de dezembro de 1877, com a presença do presidente da República e de outras autoridades. O quadro ficou disponível por um mês para a visitação de todos os cidadãos que desejassem contemplá-lo, provocando “uma comoção pública sem precedentes”, comprovada pelo impressionante número de 6.237 visitantes.
Além de simbolizarem as independências dos dois países, as duas pinturas históricas foram elaboradas por homens envolvidos com as discussões de seu tempo sobre arte, nação e política. As telas revelam as escolhas de cada um e demonstram que as afinidades com o regime monárquico, no caso do Brasil, ou com o regime republicano, no caso do Uruguai, indicam percepções diferentes sobre a independência de cada país.
É certo que o conhecimento sobre a História do Brasil pode ser enriquecido nas salas de aula quando direcionamos o olhar dos alunos para o horizonte ampliado da América Latina. E cruzando as fronteiras, descortina-se o rico – muitas vezes inimaginável – panorama da circulação de pessoas, de ideias, de livros, de proposições políticas e de projetos econômicos pela região.
Maria Lígia Coelho Pradoé professora da Universidade de São Paulo e autora de América Latina no Século XIX. Tramas, Telas e Textos (Edusp, 1999).

Saiba Mais - Bibliografia
CAPELATO, Maria Helena Rolim. “O ‘gigante brasileiro’ na América Latina: ser ou não ser latino-americano”. In: Mota, Carlos Guilherme (org.). Viagem incompleta: A experiência brasileira. A grande transação. São Paulo: Editora Senac, 2000.
PAMPLONA, Marco A. e MÄDER, Maria Elisa (orgs.). Revoluções de independência e nacionalismos nas Américas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.
PRADO, Maria Lígia Coelho. “O Brasil e a distante América do Sul”. In: Revista de História, nº 145. São Paulo: 2001.
SANTOS, Luís Cláudio Villafañe G. O Brasil entre a América e a Europa. O Império e o Interamericanismo (do Congresso do Panamá à Conferência de Washington). São Paulo: Editora Unesp, 2004.

17 de mai. de 2012

Dia de Combata a Homofobia

Blogueira correndo pois é final de faculdade e as demandas são grandes.

Mas hoje é Dia de Combate a Homofobia! Faça parte dessa luta!



21 de nov. de 2011

Dia da Consciência Negra (2)

Olá pessoal!

Como o Dia da Consciência Negra nesse ano caiu em um domingo, aproveito essa semana também para escrever mais um pouco sobre esse tema. Como boa professora de História que pretendo ser, é mais do que necessário abordar a questão dos afrodescendentes na escola, se queremos que algumas atitudes mudem nesse país e que o preconceito racial diminua na sociedade.

Aproveitando as ferramentas da internet, posto um vídeo do youtube com a música Identidade, gravada pelo sambista Jorge Aragão:


A letra segue pelo vídeo, mas vou colocá-la aqui também (com alguns destaques feitos por mim):

Identidade
Jorge Aragão

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade


Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história


Agora um outro videozinho, de uma campanha contra o racismo:


Vocês viram que um simples local, como o elevador, pode ser símbolo de um preconceito e discriminação racial? 
Elevador de serviços é para as compras e para aqueles que estão trabalhando (entrega de rancho, carteiro, motorista, etc). Já o elevador social pertence aos moradores, portanto não é local para que entregadores e pessoas que estão trabalhando transitarem. A situação piora se o condomínio for bem localizado, na parte mais chique da cidade. Nesses locais, pessoas negras são caracterizadas como pobres, entregadores ou assaltantes, portanto merecem uma maior atenção da parte de segurança do prédio.

O racismo no Brasil é presente, mas de maneira sutil. Não há uma política de Estado que divida brancos e negros, porém há atitudes que demonstram a divisão social e racial das pessoas, como utilizar um simples elevador em um condomínio chique. "Mas ele pode estar aqui? Não deveria utilizar o de serviço?", a pergunta pode pairar no ar de maneira preconceituosa.

20 de nov. de 2011

Hoje, dia 20 de Novembro, é dia da Consciência Negra!



Por que escolheram essa data? No dia 20 de Novembro de 1695 morria Zumbi dos Palmares, figura histórica negra muito importante, pois foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares, que se localizava na atual região do Alagoas.

Na época da escravidão no Brasil, quilombo era um local em que negros fugidos ou alforriados moravam e conviviam longe das regras da sociedade escravocrata. Normalmente, o quilombo ficava em um local escondido, ou de difícil localização, para dificultar o contato com outras pessoas e por em risco os escravos que lá estavam. O Quilombo dos Palmares foi um dos quilombos mais famosos, que durou muito tempo e abrigou muitos escravos. O último líder desse quilombo foi Zumbi dos Palmares.

Celebrar o 20 de Novembro como dia da Consciência Negra é procurar destacar o papel do negro na sociedade brasileira ao longo do tempo. É destacar a sua atuação de forma ativa na história do Brasil. Antes do dia 20 de Novembro, celebrava-se a Abolição da Escravatura (13/Maio/1888). Porém, a assinatura da Princesa Isabel dá a ideia de concessão: a liberdade dos negros escravos foi “concedida”, “dada” pela Princesa, não demonstrando a luta que os afrodescendentes tiveram ao longo do tempo pela liberdade.

Luta essa que não terminou: o preconceito racial está todos os dias em cada cidade desse Brasil. “Trabalho de Negro”, “Preto bandido”, “Neguinha atrevida”, e mais outras expressões que demonstram o preconceito de 300 anos de regime escravista. Sim, pessoal, não nascemos na época da escravidão, no entanto, não estamos livres de absorver preconceitos e pensamentos que estão pela sociedade e se reproduzem a cada dia.

Inté!

23 de set. de 2011

O que você conhece sobre a história da África?


Durante muito tempo, considerou-se que a África não tinha história. O terceiro maior continente do mundo aparecia nos livros didáticos somente no capítulo sobre as grandes navegações europeias, como fornecedor de matérias-primas e escravos para outras regiões do planeta. Antes disso, não havia nada de histórico na África. Era como se a espécie humana surgisse no território africano, e em pouco tempo se espalhasse pelo planeta, conseguindo se desenvolver plenamente em outras regiões (e especialmente na Europa) que garantiram a sobrevivência da espécie humana e sua evolução até o domínio da terra e dos mares.
Essa visão de mundo imperial que a Europa tinha sobre si mesma e sobre a humanidade por muito tempo fez da África um extenso terreno, com plantas e animais diversos, propícios para um divertido safári. A África e seu povo estariam em uma escala evolutiva inferior e nada haveria nesse continente a não ser selvageria, barbárie e um povo incapaz de construir uma história. O detalhe é que os europeus percebiam o que acontecia na África com olhos de um europeu. Eles procuravam um Estado organizado, com um comandante, leis, um parlamento ou senado que votasse ou autorizasse o comandante a tomar as decisões e uma religião que respeitasse um deus somente, nascido de uma mulher com a ajuda de um espírito santo. Dessa forma, comparando o conhecido ao desconhecido, a África era um lugar completamente inferior, sem passado e nem cultura, portanto, não haveria história alguma nessa parte do planeta.
Outra questão relativa a esse olhar imperial era dividir o continente africano em dois: a África branca e a negra. Perto da Europa, ao redor do Mar Mediterrâneo, estaria a África Branca (Egito, Líbia, Marrocos, Argélia, Tunísia e Saara Ocidental) que não pertencia propriamente à África, pois nada mais era que a continuação da Espanha e da Europa ao redor do centro da historia universal, que era a região do Mediterrâneo. O deserto do Saara estaria logo abaixo dessa região e seria o responsável por separar a comunicação e o intercâmbio entre as duas Áfricas, preservando a parte branca. A África negra era aquela abaixo do deserto, sendo uma parte praticamente desconhecida e sem importância para o europeu.
Esse discurso vigorou por muito tempo e somente nos últimos anos está havendo um movimento de “quebra” desse olhar europeu sobre a África e uma valorização da história africana feita pelos africanos (nada melhor que o próprio habitante falar sobre sua região) e por quem deseja ressaltar uma história que não pode ser explicada pelo olhar do europeu. Diversos documentos foram relidos, como relatos de viajantes muçulmanos e europeus (traficantes de escravos, comerciantes, militares, administradores, exploradores e missionários), escavações arqueológicas foram realizadas e a tradição oral das etnias foi estudada para procurar quebrar com a ideia de “mundo vazio africano” e demonstrar que por muito tempo se esteve com uma postura errada ao se referir a essa parte do mundo e aos seus habitantes, que são diversos, com múltiplas línguas e culturas. O trabalho a ser feito é grande e muito interessante!


Referência: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à Historia Contemporânea. São Paulo, Selo Negro, 2008.