Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Ensino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ensino. Mostrar todas as postagens

2 de abr. de 2014

Ditadura Civil-Militar e Educação

Devido a correria do cotidiano de professora e estudante, perdi as datas de 31 de Março e 01 de Abril para postar algum conteúdo relacionado aos 50 anos do golpe militar no Brasil.
Entretanto, o ano é do cinquentenário e o assunto é bem presente neste blog. Postarei hoje uma reportagem do jornal Correio do Povo sobre a educação brasileira no contexto da ditadura. Para acessar diretamente no site, clique aqui.

Regime Militar deu golpe na educação do Brasil

Nos 50 anos da tomada de poder pela Ditadura, professores avaliam os prejuízos para o ensino

Nos 50 anos da tomada de poder pela Ditadura, professores avaliam os prejuízos para o ensino- Crédito: André Ávila
Nos 50 anos da tomada de poder pela Ditadura, professores avaliam os prejuízos para o ensino
Crédito: André Ávila
Na noite do dia 31 de março de 1964, o regime político vigente no Brasil sofreu um golpe. Mas o País seria golpeado muitas vezes até 1985. Para permanecer no poder, os militares prendiam, torturavam e manipulavam. A censura aos meios de comunicação limitou o acesso à informação dos brasileiros e também foi aplicada nas escolas, causando prejuízos com reflexos até hoje. 

Enquanto nos porões da ditadura, os que se opunham ao governo eram até mesmo mortos, na superfície, a tentativa era mostrar que o Brasil estaria vivendo um milagre econômico. A campanha ufanista da época encorajava a população a acreditar que vivia em um país do futuro, sem saber detalhes da repressão, ou de dados que desfavorecessem o regime. 

Certos livros considerados subversivos por qualquer motivo eram retirados do conteúdo bibliográfico dos colégios e das universidades. Os professores precisavam ficar atentos ao que falavam por medo de alunos e colegas infiltrados. O recado para se calarem era enviado através do sumiço de outros docentes. Além disso, houve reformas e inclusão de disciplinas com teor nacionalista. A mudança nos currículos na década de 1960 criou duas novas matérias: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil (OSPB). O objetivo era transmitir a ideologia da Segurança Nacional. 

“Aparentemente, estávamos vivendo uma normalidade, mas nós sabíamos que não era bem assim”, descreve a professora de História, Ione Osório, 76 anos. Mãe de três filhos pequenos na época do golpe, dava aula na Escola Estadual Cristóvão Mendonza Caxias do Sul e, mais tarde, no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o Julinho, em Porto Alegre. Ela lembra que a inclusão das duas novas matérias foi motivo de discussão, porque delegados de fora do colégio foram incumbidos de ministrar as aulas. “O currículo era para dar a aparência de que o Brasil era um modelo sob a gestão daquele governo, mas a estatística não era verdadeira. Os números eram maquiados, inclusive o de reprovados”, comenta. “Eu era coordenadora da História do Julinho e lutamos para que os próprios professores da escola dessem essas aulas. Dessa forma, adaptamos o currículo”, lembra esboçando um sorriso ao recordar da forma que encontrou para driblar o governo e de transformar a emenda das duas cadeiras nacionalistas em conteúdos de História do Brasil e de Geografia, transmitidos de forma mais crítica. 

Censura em sala de aula

Na Serra, logo no início do regime, a professora lembra uma ocasião em que ensinava regimes políticos. “Passava alguns exemplos do que acontecia no mundo e no Brasil”, conta. Ela ressalta que mencionava o que ocorria no país, mas não colocava o conteúdo da aula no papel por temer ser chamada pelos militares para dar explicação. “Sabíamos que muitos professores e alunos eram ligados ao regime e havia infiltrados”, diz. Essa era outra maneira de contornar a censura. Porém, um estagiário distribuiu à classe um programa não oficial. “Eu havia orientado que não colocasse no papel, mas acho que ele quis se expressar. A cópia em mimeógrafo foi parar no Comando do Exército e, depois disso, ele sumiu. Não concluiu o curso de História na universidade”, descreve sem conseguir controlar as lágrimas, enquanto lembrava também da detenção de cinco alunos.

Atualmente Ione é presidente da Fundação de Apoio ao Colégio Estadual Julio de Castilhos e voltou a uma das classes onde ministrava História para contar sobre os anos de chumbo. “Aqui no Julinho, a resistência era mais aberta, mas também havia na escola delegados do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). O Grêmio Estudantil foi extinto”, diz. 

Memória da Ditadura ainda é recuperada

Segundo a professora, em razão da tentativa de controlar a informação, a memória sobre aqueles anos, só foi recuperada depois. “Nem nós que tínhamos interesse, sabíamos de tudo que ocorria”, declara, afirmando que a maioria da população só passou a tomar pé da situação, na década de 1980, após a abertura. “Até hoje, muitas coisas não foram elucidadas e ainda estamos descobrindo. A história nunca termina”, observa. “Acho importante tudo o que leva à verdade, mesmo que seja tarde.”

Regimes autoritários exaltam o nacionalismo

A professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Maria Helena Bastos, assegura que todo regime autoritário costuma exaltar o nacionalismo e criar o sentimento de nação. Para ela, algumas mudanças no currículo foram responsáveis pela implementação de métodos que não estimulavam o pensamento crítico. “Formamos jovens para marcar cruzinhas”, descreve, avaliando que esse tipo de ensino não mudou muito efetivamente de lá para cá. 

Lembra ainda que os acordos e reformas não foram exclusividade do Regime Militar. Algumas versões já haviam sido ensaiadas. “Os acordos já vinham sendo gestados antes”, diz. 

Maria Helena observa que indiscutivelmente o controle à informação representou uma lacuna e atrasou o ensino. Eram diferentes formas de repressão, incluindo a proibição de livros, programas de TV e filmes. “Lembro de ler livros encapados”, diz. Porém, pondera que a censura sempre fez parte da história do Brasil desde o Império. “Portugal filtrava tudo o que vinha para cá”, afirma.

Contudo, observa que os malefícios do período militar ao ensino são relativos, já que houve alterações positivas no ensino universitário e de pós-graduação através de alguns acordos, por exemplo. Ela também lembra que houve expansão entre 1973 e 1985 da matrícula nas escolas em torno de 40%, apesar de essa ampliação do acesso não vir acompanhada de qualificação. “A memória tem sempre dois lados.”

Queda da qualidade do ensino público

Para o autor do livro Golpe na Educação, professor Luiz Antonio Cunha, as políticas educacionais durante o governo militar tinham o objetivo de cristalizar uma ideia de que a sociedade estaria em processo de degeneração. “A concepção da educação pública como elemento de regeneração da sociedade é herdada tanto do cristianismo, quanto do positivismo”, analisa. Por isso, foi reforçado o ensino religioso e, implementadas disciplinas com cunho nacionalista.

Outra vertente, explica o sociólogo, doutor em Filosofia e mestre em Planejamento Educacional, Luiz Antonio Constant Rodrigues da Cunha, foi a concepção de que o ensino seria um instrumento de acumulação de capital. “Se plantou essa ideia naquela época. Isso cresceu e deu muitos frutos colhidos até hoje”, ressalta. As consequências, segundo ele, foram subsídios para o fortalecimento do setor privado em todos os níveis. “Secretarias de educação foram assumidas por empresários em muitos estados, que fizeram com que a qualidade caísse nas escolas públicas”, observa. No período, também houve queda nos salários do Magistério. “Isso forçou uma demanda de educação privada”, afirma.

Em Minas Gerais, por exemplo, a lei determinava que para se abrir uma escola pública era preciso que o sindicato dos professores de escolas particulares estivesse de acordo. “A duras penas, o governo Tancredo Neves conseguiu mudar e legislação em 1983”, salienta.

O resultado foi o aumento da desigualdade. “É das mais fortes que já vi no mundo”, conta. “Até o Golpe, em todos os estados, as escolas públicas eram as melhores. Podia ter escola privada tão boa, mas não melhor do que as públicas. Depois a situação mudou”, declara, dizendo também que os quadros escolares nunca mais voltaram a ter o mesmo padrão. “Hoje a escola pública se transformou em escola para pobre e de má qualidade, com exceção de instituições federais e escolas técnicas”, diz.

Por outro lado, Cunha menciona, assim como a professora Maria Helena, que o ensino superior cresceu bastante na Ditadura. “Se criou um Frankenstein educacional: ensino público superior de alta qualidade e ensino fundamental e médio de baixa qualidade. Incongruente”, avalia.

13 de mar. de 2014

Sobre Educação

Gostei muito desse trecho final do texto "A Crise do Giz", de Thomaz Wood Jr.

"Ensinar e aprender trata-se de um processo relacional que vai além dos métodos e das tecnologias. Diz essencialmente respeito a relações humanas. Não é entretenimento ou diversão. Tampouco é sofrimento. Envolve escutar, avaliar, refletir e praticar. Pode ser penoso, às vezes, mas deve sempre recompensar estudantes e professores. Pode usar novos métodos e novas tecnologias, mas depende essencialmente da construção de um palco para a interação coletiva".


29 de nov. de 2013

Reflexões


“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente” (Carlos Drummond de Andrade).

Eu adoro esse trecho do poema Mãos Dadas do Drummond. O poeta conseguiu definir em poucas palavras minha paixão por estudar História, relacionando o Tempo, o Presente e a Vida. Se o Tempo é a principal perspectiva da análise história, ela não se faz sem pessoas, tanto as que se foram quanto as que estão aqui nesse mundo.
Hoje lembrei desse trecho olhando os alunos do último ano do Ensino Médio comemorando seu último dia de escola. Apesar de diversos últimos, foi um dia muito alegre e muito vivo para aquela gurizada. A alegria e o alívio de encerrar um ano cheio de provas, aulas, trabalhos, discussões e (in)definições foi bonito de se ver. Os sorrisos e as fotos se espalhavam pelo corredor e no final tudo acabou em tinta, fotos e bagunça, muita bagunça (de branquear cabelos dos adultos).
E eu no meio de tanta alegria e festa, lembrando do Drummond e pensando o quanto a escola congrega de vidas e histórias. Quantos dias passados lá com eles, quanta falta eles farão, como será o futuro dessa gurizada? Como esse espaço social concentra pessoas diferentes, com trajetórias diferentes, com momentos e pensamentos diferentes.
Por isso não é fácil a convivência em muitos momentos, é muita vida junto, é muita experiência acumulada e a acumular, são muitas falas e falatórios e será muita saudade. Eles até podem respirar fundo agora pelo fim da maratona de avaliações, mas em Fevereiro de 2014, quando a mochila já estiver aposentada é que a ficha cairá. E o tempo, esse invento dos humanos, irá mostrar aos poucos o quanto esse período foi importante. E a memória, amiga da História, fará o jogo do lembrar e esquecer (com certeza esquecerão da matéria – quem foi Tiradentes mesmo? O que é hidrocarbonetos? – e lembrarão da Gincana, do dia em que o fulano tentou colar na prova da professora tal).
Espero que sejam mais lembranças boas que ruins. Espero que sejam felizes, espero que saibam aproveitar as oportunidades e que cresçam na vida. Espero que quando pararem para refletir sobre suas vidas, e pensarem sobre suas Histórias, tenham a certeza que escolheram caminhos produtivos. E não estou me referindo a dinheiro (que é ótimo e a vida capitalista solicita), falo de satisfação, satisfação de ser e estar no lugar e na vida que construíram para cada um.
Feliz 2014, anjinhos!

24 de out. de 2013

Produções Discentes


Vamos falar de coisas boas nas escolas? 

Pois quando pensamos em escola e principalmente em escolas públicas, vem a nossa cabeça um tsunami de problemas, dificuldades, desaforos, trabalho e descasos. Sim, realmente existe esse "caos" educativo e o objetivo aqui não é discordar disso. Entretanto, dizem que todo o "caos" é criativo e em meio a esse turbilhão há momentos e situações positivas que merecem ser relatadas, comentadas e divulgadas por aí. 
É necessário uma posição diante das dificuldades, mas eu prefiro começar falando do que está dando certo para depois reivindicar e rever o que está errado. Relembrando, mais uma vez, que é somente a minha opinião, não quer dizer que é "a verdade" ou "a correta".

A partir disso, vou apresentar algumas produções textuais dos discentes do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública de Porto Alegre que merecem ser destacadas. Adianto que as produções foram cedidas pelos autores e que realmente merecem a leitura.

O tema da redação era o seguinte: "Gonçalves é um angolano nascido em Luanda que veio para o Brasil passar as férias. Além da curiosidade por conhecer as paisagens brasileiras, Gonçalves queria conhecer mais sobre a escravidão que aconteceu aqui. Como boa parte dos escravos que aportaram para o Brasil vieram de Angola, Gonçalves queria entender o que aconteceu com seus antepassados depois que eles atravessaram o Oceano Atlântico.
Você é muito amigo(a) do angolano e sabe que ele está vindo para o  Brasil. Escreva um texto relatando como tu contarias esse passado escravista brasileiro para o Gonçalves, onde você poderia levar ele, qual a influência dos africanos no país. Além de contar um pouco sobre esses 300 anos de regime escravista, é necessário comentar sobre a situação dos afrodescendentes atualmente. Como ficaram os escravos depois da abolição? Qual a situação dos negros hoje em dia no nosso país?"

A primeira redação a ser publicada é da aluna Gabriela da Rosa Neto:

Ao desfrutar os cocais do litoral, as praias de Copacabana, as matas amazônicas, e o frio gaúcho, você perceberá que não há outro lugar como o Brasil, um país cheio de corrupção política, um país onde a população se preocupa com as novelas da Globo, e com coisas que não fazem sentido e esqueçam que na vida real ainda há pessoas passando fome e falta de educação e hospitais, mas além de todos esses desastres culturais, um dos aspectos mais polêmicos é justamente a questão do negro em relação ao resto da população, é um fato historicamente triste que atinge uma boa parte da população.
O Brasil é um país de miscigenações, onde os índios nativos se escondem, os negros ainda sofrem influências do passado e o branco (colono) sempre se apodera de tudo, os costumes e conceitos etnocêntricos não mudaram muito hoje em dia, em pleno século XXI. No Brasil os “negros” ou “afrodescendentes”, possuem baixas condições econômicas, onde um suposto negro pós-graduado com mestrado e doutorado, muitas vezes ganha uma porcentagem inferior que a de um homem branco que trabalha na mesma área, mas não precisou se esforçar tanto para garantir sucesso na vida, a situação só piora para as mulheres negras, tendo uma porcentagem ainda menor em relação ao salário do homem negro, do homem branco e até mesmo da mulher branca, – quanto a isso, meu amigo Gonçalves, podemos dizer que não será nada fácil pra você, – pois ainda há um notável preconceito no mercado de trabalho, quanto  a questão genérica ou étnica.
Na região Sul do Brasil não há muita descendência negra, é uma etnia mais habitada para o litoral Norte e Nordeste do Brasil, pois na época da escravidão era mais fácil transportá-los dos navios negreiros chegados da África para o litoral do Brasil. A Bahia era o estado que mais produzia cacau na época, e era a região que mais havia escravos para produzir mais cacau e vender ao exterior, mais fluentemente entre a época do Brasil Colônia ao Imperialismo de Dom João VI, que foi uma época bastante conturbada para quem nasceu na África, até porque era abundante o comércio de escravos, estes eram vendidos como produtos e mão de obras baratas.
A Abolição da Escravidão, em 1888, e consequentemente a Proclamação da República, em 1889, não adiantaram de nada para as condições de quem trabalhava para “senhores de engenho”, muitos deles já não tinham oportunidades de emprego e não tinham como se sustentar, portanto, estes se acolheram em cortiços e morros, dando início a uma serie do que viria a ser a pobreza do negro hoje em dia, por isso a maioria, ainda hoje mora em vilas e têm mínimas condições econômicas, outros poucos se contentaram com o sistema, foram à luta e conseguiram mudar de vida econômica.
Ainda durante o século XX, foi uma época difícil para quem nasceu negro, pois ainda havia preconceitos e insultos, na década de 1950 algumas famílias negras ainda trabalhavam nas casas de pessoas brancas, mas isso não era visto como escravidão, pois essas famílias sustentavam os filhos dos trabalhadores e ainda davam um troquinho pela recompensa. Mas na década de 1980 foi legalizada uma lei, dizendo que era crime discriminar uma pessoa pela aparência externa, ou mais precisamente, descriminar um negro pela cor da pele ou pelas condições de vida. E por lei é permitido que todo o ser humano, seja lá qual etnia for, deve ser tratado como um cidadão, com direitos iguais, como todos os demais, pensando nisso, o sistema resolveu concretizar as Cotas Raciais nas Universidades, já que poucos têm condições de pagar para estudar em universidades públicas ou federais, enquanto outros têm que trabalhar muito para pagar os estudos, embora essa política não sirva somente para os negros, pois não adianta nada um negro ter estudado o ensino médio inteiro em escola particular, esse sistema vale para quem estudou durante todo o ensino médio em escola pública e que tenha uma renda média per capita de um salário mínimo.
Hoje em dia ainda é permitido dançar e lutar Capoeira pelas ruas, antes quem fizesse tais amostragens era condenado a no mínimo seis meses de cadeia, isso é um absurdo, mas depois da abolição da escravidão, da República Velha, e durante a década de 30, Vargas havia visto uma dessas danças e achou muito bom, então ele legalizou para que fosse possível dançar capoeira livremente na rua, também tem o Carnaval, criada e incentivada pelos negros na mesma época.
Conclui-se que o negro é a cara do Brasil, é a etnia que fez o Brasil ser o que é hoje, em questão de produção e em questões culturais. Mas o Brasil negro se esconde atrás da cara branca, ou seja, a população brasileira não se espelha na África, na verdade, o brasileiro se influencia com os costumes europeus.


16 de out. de 2013

Arquivos da Cidade

Para visualizar o documentário, clique nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=nIIma7ZtSPY

Informações sobre o documentário:
Diretores: Felipe Diniz e Luciana Knijnik
Ano: 2009
Depoimentos:
Antonio Losada;
Lino Brum Filho;
Carlos de Ré;
Gregório Mendonça;
Ignez Serpa Ramminger;
Bona Garcia.

Esse documentário proporciona uma boa aula de história sobre a Ditadura Civil-Militar Brasileira. A começar pelo nome “Arquivos da Cidade”: são seis pessoas, seis memórias, seis depoimentos, seis arquivos de seis diferentes experiências de quem lutou contra a ditadura em Porto Alegre. Os arquivos aqui não remetem a papeis e documentos antigos, mas se referem a diferentes pessoas: estudantes, líderes sindicais, familiares de desaparecidos, que viveram este período da história nacional e tem muito que contar de suas vivências.

Antes de continuar o texto sobre o documentário, uma ressalva teórica: memória não é história. Lembrar um evento ocorrido anos atrás não quer dizer que se está escrevendo “A” história do período. A memória é um mosaico que se faz e refaz a todo instante, dependendo do momento em que é solicitada a lembrança. Então, a memória dos acontecimentos ocorridos no período da ditadura para essas pessoas na década de 1990 era distinta das lembranças gravadas nesse documentário em 2009. Isso acontece não porque essas pessoas querem “mascarar” os acontecimentos e esconder a “verdade”. Isso ocorre porque a memória do ser humano é assim, inconstante, fugaz, transitória. Devido a essa característica, técnicas de pesquisa são utilizadas para escrever a história do período levando em consideração os depoimentos das pessoas, de maneira que o produto final esteja dentro dos métodos científicos que a ciência da história permite e aceita.

Os arquivos da cidade se referem a uma cidade em específico: Porto Alegre. Essa é mais uma característica que favorece a escolha desse documentário principalmente para quem leciona na própria cidade. É comum no ensino de história focar no Brasil. Sendo assim, algumas cidades mais “nacionais” são destacadas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. Essa é uma oportunidade de destacar o que aconteceu aqui, na cidade dos alunos, destacando locais que eles conhecem porque já passaram por lá, como o Hospital Nossa Senhora da Conceição comentado no vídeo.

É interessante destacar Porto Alegre também devido a sua participação dentro do contexto de Ditadura Civil-Militar. Por ser a capital do estado do RS o aparelho burocrático e repressivo do governo ditatorial era centralizado aqui. Além disso, o estado do RS é fronteira da Argentina e Uruguai, favorecendo trocas de informações e prisioneiros, pela Operação Condor. Isso favorece em pensar a cidade como ponto estratégico do governo brasileiro, não como um lugar em que nada aconteceu ou como palco secundário, deslocando o foco para o Rio de Janeiro ou Brasília.

Documentário não é um gênero cinematográfico que os alunos estão acostumados. Entretanto esse em específico foi feliz em dois quesitos: por ter uma curta duração, favorecendo que professores com poucos períodos de aula semanais consigam exibi-lo em um período e porque são as pessoas que contam, de “cara limpa e peito aberto” suas histórias, incluindo o período da prisão e da tortura. Nada mais impactante que ouvir e ver uma pessoa contando o que ela passou, a empatia é muito mais forte. Isso prende a atenção dos discentes, mesmo os mais dorminhocos.


Para finalizar, destaco a questão do vocabulário da época. “Expropriação”, “Revolução”, “Clandestinidade”, são palavras que os depoentes falam e que favorecem tratar do contexto desse vocabulário na época. Só essas três já propiciam uma outra aula. Cair na clandestinidade era abandonar a sua identidade: largar emprego, família, casa, trocar de nome, mudar de cidade, fugir da polícia que estava procurando por você. Normalmente as pessoas ficavam em “aparelhos”, que eram casas ou apartamentos alugados para disfarçarem os clandestinos e proporcionarem lugares para as reuniões dos movimentos organizados. A “Revolução” era a revolução de esquerda, sendo o modelo cubano o mais pensado e desejado, com a tomada do poder e a transformação do Brasil em um país comunista. E “expropriação” eram roubos e assaltos cometidos pelos movimentos de esquerda organizados para arrecadarem dinheiro para a “Revolução”, financiarem armamentos e manterem seus integrantes na clandestinidade.

13 de set. de 2013

12.000 Anos de História: o documentário

O post de hoje apresenta um extenso trabalho de pesquisa e elaboração. Esse é um dos produtos finais da exposição "12.000 Anos de História - Arqueologia e Pré-História do RS" que está em exposição no Museu da UFRGS em Porto Alegre até 31 de Dezembro de 2013.
Um ótimo recurso didático para quem quer saber mais dessa extensa época da História. Pois a "Pré-História" vai muito além do "Neolítico, Paleolítico e Idade dos Metais"!

Segue o link do documentário:


Segue informações sobre a exposição no Museu da UFRGS:
A exposição está aberta a visitação de segundas a sextas das 9 às 18 horas, entre 23 de de abril e 31 de dezembro de 2013. No último sábado de cada mês a mostra estará aberta à visitação das 9 às 13 horas. Além da exposição, durante o ano serão disponibilizadas oficinas, cursos de capacitação de professores e kits arqueológicos didático/pedagógicos.O Museu da UFRGS fica na Av. Osvaldo Aranha, 277, Porto Alegre. A entrada é franca.

8 de jul. de 2013

Diferença entre UFRGS e ENEM

A professora aqui resolveu procurar umas questões da UFRGS e do ENEM para um trabalho avaliativo dos alunos. Olhando provas e mais provas de diversos anos, eis que duas questões se parecem. Esse exemplo ajuda a perceber diferenças entre as provas. 
Vamos as questões:

ENEM 2012:

BURKE, P. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
Na França, o rei Luís XIV teve sua imagem fabricada por um conjunto de estratégias que visavam sedimentar uma determinada noção de soberania. Neste sentido, a charge apresentada demonstra

a) a humanidade do rei, pois retrata um homem comum, sem os adornos próprios à vestimenta real

b) a unidade entre o público e o privado, pois a figura do rei com a vestimenta real representa o público e sem a vestimenta real, o privado

c) o vínculo entre a monarquia e povo, pois leva ao conhecimento do público a figura de um rei despretensioso e distante do poder político.

d) o gosto estético refinado do rei, pois evidencia a elegância dos trajes reais em relação aos de outros membros da corte.

e) a importância da vestimenta para a constituição simbólica do rei, pois o corpo político adornado esconde os defeitos do corpo pessoal

UFRGS 2004

Observe a figura abaixo, que representa a construção da imagem do Rei-Sol.

Luís XIV assumiu o poder monárquico francês em
1661 e, em pouco tempo, impôs à França e à Europa a imagem pública de um Rei-Sol todo poderoso. Toda uma máquina de propaganda foi colocada a serviço do rei francês. Escritores, historiadores, escultores e pintores foram convocados ao 
exercício da sua glorificação. O mito de Luís XIV 
foi criado em meio a mudanças socioeconômicas 
e políticas na França do século XVII.

A esse respeito, considere as seguintes afirmações.
I - Luís XIV, rei por direito divino, suscitou a admiração de seus pares europeus, Versalhes foi copiada por toda a Europa, o francês consolidou-se como língua falada pela elite européia. Porém, sombras viriam a ofuscar o Rei-Sol, visto que a oposição exilada começou a denunciar a autocracia do monarca francês.
II - Para restabelecer a paz no reino, após a rebelião da Fronda e a Guerra dos Trinta Anos, e dedicar-se à consolidação da cultura francesa como universal, Luís XIV devolveu o poder das províncias às grandes famílias aristocráticas.
III - A fim de criar uma imagem pública positiva e democrática, Luís XIV organizou a partilha do poder de Estado com o Parlamento e com o Judiciário, dando início à divisão dos três poderes, cara a Montesquieu e fundamental para os novos rumos da política européia.

Quais estão corretas ?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e III.
e) Apenas II e III.

_________________________________________________________________________

Respostas: 
ENEM - E
UFRGS - A

As questões abordam a mesma imagem da construção simbólica do rei francês Luís XIV. Entretanto, há diferenças entre elas. A questão do ENEM é interpretativa. Somente com o texto da pergunta tu resolves. De acordo com o texto, o Luís XIV teve a "imagem fabricada por um conjunto de estratégias", o que remete a um simbolismo, à criação de um soberano que é mortal mas deve ser representante divino. 
Se analisarmos as alternativas, a resposta aparece de forma mais clara, pois se a ideia é apresentar "a imagem fabricada do rei" e o simbolismo do soberano, a alternativa A não poderia ser. A B não é contemporânea ao absolutismo, não havia público e privado nessa época, tudo era em torno do rei e as pessoas que moravam na França eram os súditos do soberano, nada de cidadania como conhecemos hoje. A C também é descontextualizada, pois se a ideia era "montar" um rei soberano, essa charge não seria apresentada aos súditos, somente o quadro com o Luís XIV todo poderoso. A letra D é para aqueles que não entenderam a pergunta, completamente fora da ideia de simbolismo e "fabricação do rei", mas correta se formos pensar no contexto do absolutismo. A corte francesa era chique, mas o rei seria sempre mais, afinal ele era o soberano.

Já a UFRGS não requer somente interpretação. Tem que saber o conteúdo. Para dificultar, essa pergunta é composta por alternativas que necessitam ser confirmadas em sua autenticidade. Isso só complica a vida do vestibulando. Não basta saber de Luís XIV e absolutismo. Tem que entender as alternativas e perceber se estão certas ou erradas. 
A alternativa II está errada, pois o rei não devolve o poder para as famílias aristocráticas das províncias. A alternativa III está errada devido à ideia de democracia totalmente fora de contexto ao absolutismo europeu.

Espero que a comparação entre as duas questões ajude a perceber que ENEM e UFRGS possuem suas diferenças quanto a cobrança do conteúdo.

21 de mai. de 2013

Dicionário feito por crianças


Olhem que reportagem bacana e que ideia genial (daquelas que tu querias ter pensado antes da pessoa fazer).
A reportagem foi retirada daqui.



Dicionário feito por crianças revela a adultos um mundo que já esqueceram



Um professor colombiano passou dez anos coletando definições de seus alunos e, como resultado, obteve um dicionário com verbetes ao mesmo tempo puros, lógicos e reais

A Feira do Livro de Bogotá, que aconteceu no final de abril, teve como maior sucesso um livro chamado “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças”. Mais especificamente, uma parte dele: um dicionário feito por crianças que traz cerca de 500 definições para 133 palavras, de A a Z.
Apesar de lançado originalmente em 1999, o livro foi reeditado neste ano. Javier Naranjo, o autor, conta que compilou as informações durante dez anos enquanto trabalhava como professor em diferentes escolas do estado de Antioquía, região rural do leste do país.
A ideia surgiu quando, em uma comemoração do Dia das Crianças, ele pediu que seus alunos definissem a palavra “criança”. O resultado encantou o professor – uma das definições era “uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo”. A partir daí foram surgindo novas definições, que eram sempre anotadas e guardadas.
Para ele, as crianças têm uma lógica diferente, uma maneira própria de entender o mundo e de revelar muitas coisas que os adultos já esqueceram. É assim que, no peculiar dicionário, o adulto é uma “pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si”,  água é uma “transparência que se pode tomar”, um camponês “não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos” e a Colômbia é “uma partida de futebol”.
Confira alguns dos verbetes encontrados no livro.
Os Verbetes

Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)
Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
Guerra:Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos

14 de mar. de 2013

Cidadania e Música

O ano de 2013 é o meu ano de estreia na docência. Depois de muito estágio, chegou a hora de encarar um ano de aulas e convivências com professores e alunos. Veremos o que dará!

Preparei essa aula sobre Cidadania baseada em duas músicas: "Até Quando?", do Gabriel O Pensador, e "Admirável Gado Novo", do Zé Ramalho. A ideia era contrastar essas duas letras e discutir com os alunos alguns pontos.

Eis o clipe da música do Gabriel (o clipe por si já dá uma boa discussão entre "o da poltrona" e o "questionador"):


Depois coloquei a música do Zé Ramalho. Como não há clipe sobre essa música feito pelo cantor, mostrei a capa do LP que trouxe pela primeira vez essa letra:


Os pontos que foram destacados levavam em consideração a diferença de tempo entre as duas letras. A música "Até Quando?" foi lançada em 2001 (nota: os alunos ainda não tinham visto o clipe, só alguns haviam escutado a música) e "Admirável Gado Novo" em 1980. Épocas distintas da história brasileira. A questão do eu-lírico também foi comentada, o eu-lírico do "Até Quando?" é mais revoltado, questionador e pretende ter uma posição de combate as injustiças e questiona os demais "Até quando você vai levando porrada?". Já o eu-lírico do "Admirável Gado Novo" é contemplativo, vê que a situação não está boa, mas não questiona a sua mudança. Visualiza que a engrenagem "já sente a ferrugem lhe comer" e conclui que "povo marcado e povo feliz".

Há mais questões que foram discutidas em sala de aula, porém para começar os argumentos eram esses.

14 de set. de 2012

Jorge Amado em sala de aula

Esse post foi retirado de uma matéria da Revista de História da Biblioteca Nacional que aborda a questão dos livros de Jorge Amado como material de estudo para as aulas de História, tanto seus livros como os filmes que surgiram dos seus escritos.

Para ver a matéria no site original, clique aqui.


Amado em sala de aula

Jorge Amado escreveu romances que retratam diversos aspectos da sociedade brasileira. Sua obra pode ser levada à escola e trabalhada por professores de História, Geografia, Sociologia e Literatura

Ilana Seltzer Goldstein

  • Ilustração: João Teófilo
    Ilustração: João Teófilo

























    Jorge Amado (1912-2001) foi um escritor superlativo: publicou 32 livros povoados por mais de 5.000 personagens e vendeu cerca de 30 milhões de exemplares somente no Brasil. Embora editado em 52 países e traduzido para 29 línguas, escreveu quase exclusivamente a partir de sua Bahia natal. Ainda assim, seus romances trazem para a sala de aula provocações relevantes sobre diferentes aspectos da sociedade brasileira, e até mesmo questões universais [como mostra o artigo Bahia universal, publicado este mês na Revista de História].

    Em Gabriela cravo e canela, por exemplo, há passagens em que a submissão da mulher fica evidente. O livro começa com o assassinato de Sinhazinha por seu marido, que a flagrara com outro. Há prostitutas que são posse exclusiva de certos coronéis. A protagonista Gabriela, por outro lado, destoa ao buscar sua liberdade e sua autonomia. Há também a heroína de Tereza Batista cansada de guerra é uma menina criada pela tia que, ainda adolescente, é obrigada a servir sexualmente um homem violento em troca de dinheiro. A partir da leitura desses romances, ou da projeção das respectivas adaptações audiovisuais, pode-se pedir aos alunos que tracem os perfis femininos encontrados no romance, para depois compará-los às possibilidades e atitudes das mulheres no Brasil do século XXI.
    Antonio Balduíno, herói de Jubiabá, tem Zumbi dos Palmares como ídolo. Seu antepassados foram escravos e ele frequenta terreiros de candomblé. Pedro Archanjo, protagonista de Tenda dos milagres, tenta convencer a todos de que as tradições afrobrasileiras enriquecem a cultura nacional e que a mestiçagem é uma grande riqueza. Mas há também personagens racistas, como a mãe de Lu, noiva de Tadeu Canhoto, em Tenda dos milagres, que não gosta dele por causa da cor de sua pele. Ou a cozinheira Amélia, de Jubiabá, que acredita que “o negro tem que saber o seu lugar”. A partir da leitura desses dois livros ou da projeção dos filmes homônimos, o professor de história terá elementos para abordar as consequências da escravidão africana no Brasil; o racismo baseado na cor e na condição socioeconômica; e as polêmicas recentes em torno das cotas raciais nas universidades.
    O cavaleiro da esperançaé uma biografia de Luís Carlos Prestes, líder comunista que liderou a lendária marcha da Coluna Prestes por todo o Brasil. Esse é um dos livros menos conhecidos de Jorge Amado – que, inclusive, foi um dos articuladores da campanha pela libertação de Prestes, quando de sua prisão. A leitura desse livrinho possibilita ao professor de história, geografia ou sociologia recuperar o movimento socialista no Brasil e no mundo, algo hoje distante da realidade dos alunos.
    O Sumiço da Santa se passa durante “os piores anos da ditadura militar”, nas palavras do próprio narrador. Episódios de prisão, censura e tortura se fazem presentes em várias passagens. O enredo é pontuado por indícios contextuais da década de 1970. O cineasta Glauber Rocha é citado no livro como um dos freqüentadores “subversivos” do Teatro Vila Velha, em Salvador. O narrador se refere a um show de Caetano Veloso e Gilberto Gil, recém-chegados do exílio, no ano de 1973. Já o poeta Vinícius de Moraes, outro figurante da trama, comenta que acabou de compor “Tarde em Itapoã”, canção gravada em 1971. Pode-se, a partir desse livro, que é divertido e fácil de ler, proporcionar a imersão do aluno no contexto da ditadura militar e da contracultura. Uma possibilidade é solicitar que liste nomes de personalidades e fatos históricos encontrados no romance e depois pesquise sobre suas histórias pessoais, seu engajamento político, e sua produção cultural.

    Produção de cacau

    O primeiro plantio de cacau na região de Ilhéus teve início ainda no século XVIII, com sementes trazidas da Amazônia. Até 1900, apenas agricultores estrangeiros dedicavam-se esparsamente ao cultivo do cacau; a partir de 1910, começou a corrida pelas terras da região. O governo passou a doar terras a quem quisesse plantar, atraindo nordestinos que fugiam da seca. A cidade enriqueceu e se transformou rapidamente: a população aumentou, foram erguidos palácios, estabelecimentos comerciais e hotéis, culminando com a construção do porto, em 1924 – financiada pelos próprios cacauicultores. As movimentadas décadas de 1910 e 1920 em Ilhéus constituem o pano de fundo de Terras do Sem Fim,São Jorge dos IlhéusGabriela, cravo e canela A descoberta da América pelos turcos. A leitura de qualquer um desses livros, pelos alunos, terá grande rendimento em aulas de geografia que tratem de migrações internas no Brasil (e também da imigração árabe para o Brasil); dos custos humanos e ecológicos da implantação de fazendas em áreas antes cobertas por mata atlântica; dos impactos da construção de infra-estrutura (estradas, portos) que acompanha o surgimento da agricultura de exportação.

    Amado na TV
    Jorge Amado, o autor brasileiro que mais inspirou adaptações para cinema e TV, se negava a assisti-las. Isso porque os roteiristas e diretores realçam um aspecto do livro em detrimento de outros, criam novos personagens ou eliminam passagens inteiras, levando em conta a duração dos episódios e as preferências do público. Na adaptação de Gabriela, cravo & canela, feita por Walter Durst, em 1975, Sônia Braga está presente nos primeiros capítulos, ao passo que no livro a protagonista só aparece depois da página 100. A liberdade social e sexual de Gabriela, que perpassa o livro, tornou-se erotismo na telenovela.
    Além disso, enquanto no texto literário as imagens se formam em nossa mente, em um processo solitário, silencioso e pautado por nosso próprio ritmo, as telenovelas e filmes nos oferecem imagens prontas – personagens têm rostos específicos, paisagens têm cores definidas –, acompanhados por trilhas sonoras penetrantes. O professor de língua portuguesa ou de artes poderia propor, primeiro a leitura, depois a visualização de um filme adaptado da obra de Jorge Amado, para comparar, junto com os alunos, cada uma das versões – o que têm em comum, o que só é possível em um dos casos, o que foi suprimido ou acrescentado na adaptação audiovisual etc.  Os livros/filmes ideais para essa atividade são: A Morte e a Morte de Quincas Berro D'águaTenda dos Milagres;  Capitães da Areia;Tieta do AgresteGabriela, cravo & canela (este último contém cenas de nudez).

    Diferentes gêneros
    Jorge Amado combina diferentes gêneros literários e textuais dentro de seus romances. Capitães da areia começa com cartas enviadas ao jornal, nas quais os remetentes emitem opiniões sobre o que deve ser feito com aqueles meninos que moram na praia. No início de Dona Flor e seus dois maridos, a protagonista escreve um bilhete a Jorge Amado, comentando uma receita de bolo de puba e oferecendo um pedaço ao autor, num jogo entre ficção e realidade. Em Tenda dos milagres, os textos que Pedro Archanjo escreve para combater as ideias racistas de Nilo Argolo são na forma de folhetos de cordel. Em Jubiabá, o personagem Gordo canta letras tristes para pedir esmola, ao passo que Zé Camarão é compositor de sambas com letras cheias de malandragem. Partindo desses exemplos, o professor pode trabalhar com seus alunos as diferenças de gêneros textuais e literários e pedir que exercitem-se na redação de alguns desses formatos. Um trabalho análogo pode ser feito em relação à norma culta e ao registro coloquial de linguagem e, por vezes, até mesmo registro vulgar, todos presentes nos livros de Jorge Amado e adequadamente empregados em função da situação de comunicação.
    Em 1961, a Editora Martins lançou uma coleção comemorativa especial dos 30 anos da obra de Jorge Amado, toda ilustrada por artistas nacionais. Renina Katz, por exemplo, fez gravuras para Os subterrâneos da liberdade; Oswaldo Goeldi ilustrouMar morto; e Poty criou ilustrações para Capitães da areia. Essas imagens são facilmente encontradas na internet. Sugere-se ao professor de artes e/ou língua portuguesa que discuta com os alunos as relações de complementaridade, redundância ou paralelismo entre texto e imagem. Que explique a técnica da xilogravura, utilizada pelos três ilustradores de Jorge Amado acima citados. E que, em seguida, convide-os a realizarem uma ilustração para uma passagem de Mar Morto ouCapitães da Areia.

    *Ilana Seltzer Goldstein é autora de O Brasil best-seller de Jorge Amado: literatura e identidade nacional (Editora Senac, 2003).

13 de ago. de 2012

Como enrolar em uma aula

O site de humor irônico chamado Puxa Cachorra publicou um texto com as "7 atitudes bondosas de professores universitários que só servem para enrolar aula". Eu diria que essas técnicas não estão reservadas para os professores e alunos de graduação. Tem exemplos também em escolas de ensino médio e fundamental.

Quem nunca passou por um desses momentos?

Aproveite a leitura e descubra se você já foi enrolado ou não!





jun132010
 
Nem todos os professores são a professora Helena, em tempo integral; eles também dão seus deslizes e tem preguiça de ensinar ou de preparar suas aulas, mas, com uma sala inteira espreitando, não dá para simplesmente sentar, respirar fundo e dizer: “não tenho nada para dizer hoje, podem ir embora”. Então, ao longo dos anos, a professorada desenvolveu técnicas dissuasivas e mágicas que encurtam o tempo que separa o primeiro do segundo sinal, e fez isso de um jeito tão bem acabado que conseguem até mesmo dar boas justificativas para sua picaretagem. Jogando contra o próprio patrimônio, o Puxa! agora lista 7 atitudes bondosas dos professores que, no fundo, servem para enrolar a aula.
por Vinício dos Santos | @vinisan | 13.06.2010

#7 Ler trechos de texto em aula

Tempo gasto: no mínimo, uns 20min.
O motivo [alegado]: é bom para a aula porque, assim, o professor dá mais uma chance para aqueles alunos, que não leram o texto durante a semana, de entenderem sobre o que a aula irá tratar.
E isso é bom mesmo? Quando você vai para a escola, sua intenção é que o professor compartilhe um conhecimento que só ele tenha na sala de aula. Ao ler um texto em voz alta, a única coisa que ele consegue dividir é uma habilidade que todo mundo tem desde os sete anos: a alfabetização. E isso fica ainda mais inútil quando nem paráfrase do texto o danado faz, tornando a aula uma espécie de sarau literário feito com leitura de bula de remédio.

#6 Grandes panoramas históricos

Tempo gasto: a aula inteira
O motivo [alegado]: é importante que os alunos saibam que as coisas não vieram do nada, e que há um contexto histórico fundamental para entender o que está acontecendo.
E isso é bom mesmo? Nós aprendemos a respeitar a Grécia Antiga: Sócrates, Platão, Aristóteles e todo aquele pessoal com cara de pedra tinham uma idéias tão boas, mas tão boas, que estão presentes até hoje – ou seja, faz sentido remeter a Antiguidade para explicar algumas coisas. O que não vira é ir até a Antiguidade na máquina do tempo e depois voltar a pé. Hoje nós vamos falar sobre esse autor americano dos anos 50? Então vamos ver antes um cara que influenciou ele lá em 532 a.C., e depois eu comento com vocês um evento importante de 531 a.C, 530 a.C, 529 a.C… a aula geralmente chega ao fim lá pela altura do ano 25 a.C, quando o professor irá dizer: “então chegamos no advento do cristianismo, que precisaria de uma aula inteira para comentar” – o que é, sem tirar nem por, o que ele irá fazer na semana seguinte, quando vai começar a aula dizendo “eu fiquei de comentar brevemente sobre o cristianismo na aula passada, mas antes disso, é importante que a gente fale sobre o surgimento do Universo, em 2.000.000 a.C…”

#5 Ouvir a opinião do aluno sobre o assunto

Tempo gasto: no mínimo, metade da aula
O motivo [alegado]: foi-se o tempo em que o professor só falava e o aluno escutava, passivamente. Hoje, é importante construir o conhecimento em conjunto.
E isso é bom mesmo? Olha professor, é realmente bacana que o senhor queria saber o que a gente entende do mundo, mas minha mãe me mandou para a escola justamente para que eu aprendesse outras coisas além daquelas que eu já sabia – e eu meio que dependo de você nessa. Pensem nisso como uma grande receita coletiva, em que a gente acha que está trazendo os ingredientes e que o professor só vai coordenar a mistura, quando, na real mesmo, o que a gente faz é ficar debaixo do sol tentando ferver a panela de água para, no fim, o professor abrir o pacote de miojo e resolver tudo em três minutos. Eu sonho com o dia em que o professor virá para a aula com a água fervida e um prato mais digno do que miojo.

#4 Destinar o fim da aula para perguntas dos alunos

Tempo gasto: os 15min finais
O motivo [alegado]: é importante que, ao final da explicação, os alunos levantem suas dúvidas para a turma, de modo que ninguém vá para casa sem entender algum dos pontos levantados.
E isso é bom mesmo? No fim das aulas, alunos costumam mesmo ter suas dúvidas – a principal delas costuma ser “o que diabo eu estou fazendo nesse curso?” – mas não se deixe enganar por esse momento bom samaritano do professor: quando ele encerra a aula antes do horário para “abrir-espaço-para-dúvidas”, está mesmo é encerrando a aula porque não tem mais nada relevante para dizer, mas simplesmente não pode admitir isso e liberar todo mundo. Assim, ao invés de dizer “ainda temos quinze minutos, então vamos jogar forca, eu começo!”, o professor tenta dar uma funcionalidade para seus 15 minutos de excesso e, depois que os alunos o contemplam por 15 segundos com a maior cara de bunda, ele se dá por aliviado e pensa “bom, minha parte eu fiz”, e aí libera todo mundo. Mas podia ser pior. Sempre tem aquele professor que resolve fazer um panorama histórico com o tempo que falta.

#3 Tolerar atrasos

Tempo gasto: os 15min iniciais
O motivo [alegado]: não vale a pena começar a aula sem que todos os alunos estejam presentes, porque os que ainda não chegaram serão prejudicados por perder a introdução da exposição.
E isso é bom mesmo? É fato: as pessoas vão atrasar, e isso depende exclusivamente de um único fator – o quanto elas serão punidas se fizerem isso. Se você atrasar e nada te acontecer, na semana seguinte irá atrasar mais um pouco, para testar até onde pode ir. Então, quando o professor começa com suas complacências de “vamos esperar quem mora longe”, “vamos esperar porque está frio hoje”, “vamos esperar que ontem teve festa”, “vamos esperar”, ele está encorajando o surgimento de bichos-preguiças, e mais do que isso, recebendo um salário bem grandão não para explicar uma coisa que só ele com sua formação em Oxford pode fazer, mas para acompanhar os alunos na complexa tarefa de inspirar e expirar ar.

#2 Fazer chamada usando os nomes inteiros

Tempo gasto: pelo menos uns 10min
O motivo [alegado]: é uma forma de se conhecer melhor os alunos
E isso é bom mesmo? Vocês conseguem pensar em algum motivo honesto para tratar as pessoas pelo nome completo, que não seja a mais pura e redonda tentativa de enrolar? Façam as contas: se cada pessoa tem, em média, dois sobrenomes, uma sala com 60 alunos tem 180 nomes para serem pronunciados, e se o professor gostar de exibir sua dicção perfeita e seu conhecimento de línguas, na certa irá parar em cada nome estrangeiro para perguntar se os dois ZZ pronunciam como S ou X. Isso quando ele não resolve ampliar sua rede de contatos e averiguar se algum aluno tem parentesco com um figurão importante: “Augusto Roberto da Gama Schiningler? Você é parente do August von Schiningler, presidente da Volkswagen? Ah, seu avô, que interessante”.
No instante seguinte, o professor faz uma anotação discreta ao lado do nome na caderneta: “possível desconto em carros”.

#1 Dar seminário

Tempo gasto: semanas de aula
O motivo [alegado]: é de extrema importância que o aluno adquira experiência em falar em público e realizar exposições, principalmente aqueles que desejam ser professores.
E isso é bom mesmo? A razão da existência das padarias é de que é trabalhoso fazer pão em casa. Agora, imagine se você fosse até uma padaria e, ao invés de chegar no balcão e pedir tantos paezinhos, o padeiro entregasse a farinha e os ovos na sua mão, mostrasse como mexe no forno e ainda dissesse “não esquece de colocar na balança e passar no caixa, hein!”
Quando um professor tasca uma renca de seminários em aula, é justo isso que ele está fazendo: colocando você para fazer o trabalho dele! A safadeza atinge níveis inéditos quando os seminários se estendem ao longo do semestre, ou seja, o sujeito simplesmente se dá quatro meses de férias com o corpo presente na sala de aula. Ainda na metáfora da padaria: a gente não recorre ao padeiro por acaso: ele é o cara que sabe fazer os pães, e a gente não. Com o seminário, o professor não só para de trabalhar, como ainda proporciona um banquete de pão encruado para a turma toda.
E não venham com essa de que “ajuda a se preparar a dar aulas”. Em um seminário de faculdade, o público-alvo tem a mesma carga de conhecimento dos apresentadores, então é como se você treinasse para a Copa do Mundo chutando a bola na parede da garagem.