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20 de jul. de 2013

Por que a Classe Média sofre tanto?


Eu adoro o blog da Lola. Um dos espaços mais inteligentes e esclarecedores dessa internet. O post de hoje é retirado desse blog e fala sobre a classe média e a história mais recente desse país. Achei o texto bem didático e tranquilo dos alunos entenderem.



POR QUE A CLASSE MÉDIA SOFRE TANTO?

Que email fofo que a Adri me mandou!... Eu respondo lá embaixo.

"Querida Lola, como vai? Conheci seu blog no ano passado fazendo uma pesquisa sobre a Marcha das Vadias e amei. Virei leitora assídua dos seus posts! 
Meu nome é Adriana, sou mineira, moro em BH e tenho 16 anos. Gosto muito do jeito como você escreve, você encanta quem te lê!
Eu gostaria de te perguntar uma coisa, que não entendo e já perguntei para várias pessoas que também não souberam me explicar. O seguinte: por que a classe media brasileira tanto reclama? E do que reclama?
Esta dúvida me apareceu depois de ver os protestos de junho pelo Brasil. Não que eu ache que o movimento pela queda dos preços na passagem de ônibus não seja justo, mas a grande maioria das pessoas que vi nas passeatas estavam protestando contra o governo Dilma e sempre reclamando dos impostos que a classe média paga, pedindo a volta do PSDB. Todos os meus amigos que participaram diziam a mesma coisa: 'Fora PT! Acabem com o bolsa família! A classe média paga muitos impostos!'
Eu sou classe média. Estudo em escola particular aqui em BH, tenho acesso à diversão e tecnologia. Mas sei que minha família trabalha bastante para me dar estas coisas, enquanto vejo amigos cujos pais são ricos e não têm a mesma dificuldade. E são justamente eles que mais reclamam do governo. Mas por quê? A minha grande dúvida mesmo é: era realmente melhor para a classe média no governo FHC?
Meus pais são comerciantes, tenho mais duas irmãs mais velhas (32 e 30 anos -– sou a raspa do tacho!) e todos sempre trabalharam muito, seja na época do FHC ou agora. Meus pais não sabem dizer exatamente se antes do governo Lula era melhor para eles ou não, só sei que o nosso padrão de vida hoje é muito melhor.
Meus pais não prestam muita atenção em política. Votaram na Dilma e no Anastasia ao mesmo tempo, então eu cresci bem apartidária. Não sei ainda dizer se sou de direita ou esquerda. Não me lembro do governo de direita no Brasil, mas pelo menos não posso reclamar do governo Dilma.
A não ser por uma empregada doméstica que já não temos porque está difícil achar gente de confiança (classe média sofre, eu sei!), não tem nada que nós não tínhamos há 16 anos, muito pelo contrário.
Minhas irmãs entraram facilmente na UFMG, graças à escola particular que meus pais pagaram. Sei que hoje com as cotas para escolas públicas, pra mim poderá ser mais difícil, mas meus pais já ofereceram para pagar PUC se eu precisar. Quando minhas irmãs prestaram vestibular nem PUC elas tentaram porque meus pais não teriam condições de mantê-las. Não acho ruim o governo ter reservado as cotas para a escola pública, mas todos os meus amigos na escola estão revoltados. O engraçado e que eles querem cursos que nem têm na UFMG, teriam que ir para uma faculdade particular mesmo! 
Quando minhas irmãs fizeram 15 anos o sonho delas era ir pra Disney, e eu pude fazer isto no ano passado. Aliás, a minha família inteira viaja pra fora do Brasil já há algum tempo, coisa que ninguém nem imaginava que um dia faria. Todas as minhas amigas da escola, até mesmo as mais pobres, já foram pra Disney. Os alunos mais ricos passam férias na Europa todo mês de julho, inclusive perdendo semanas de aulas (a escola chegou a cogitar a possibilidade de termos férias de verão em junho e julho para coincidir com o verão do hemisfério norte).
Meus pais sempre tiveram um carro básico e agora têm um carro importado. Há cinco anos temos um bom plano de saúde, coisa impensável no passado.
A minha dúvida nisso tudo é: o governo do PT melhorou a vida apenas da minha família? Para algumas pessoas piorou? Mas se piorou não é isso que eu vejo! Todo mundo ao meu redor está 'mais rico'!
Perguntei a alguns professores na escola e a única coisa que eles me respondem é que a classe média paga muitos impostos. Mas aumentaram depois do PT? Sempre foram os mesmos? Qual a diferença?
Pelas pesquisas que fiz, parece que a educação piorou, mas ensinos fundamental e médio não são da responsabilidade dos estados? SP e MG são governadas pelo PSBD há anos! Mesma coisa com relação à violência; segurança não é de responsabilidade do estado?
Juro que não entendo! Será que você poderia me responder? Estou extremamente frustrada por não encontrar essas respostas com meus professores.
Muito obrigada por ler este email. Um grande beijo!"


Minha resposta: Adri, que gracinha que vc é! É muito interessante que vc não vá na onda de todo mundo que te rodeia e não faça coro à toda essa classe média que tanto sofre. 
Eu, vc, e a maioria dos leitorxs aqui do blog (e de qualquer blog, arrisco dizer) somos classe média. Se bobear, somos até classe média alta. E, ao contrário do que diz a classe média, e que você já percebeu, é uma maravilha ser classe média. Temos um bom lugar pra morar, temos opções de lazer, temos algum acesso à saúde, temos educação de boa qualidade, não precisamos nos preocupar com comida, temos um carro, o que significa que já levamos imensa vantagem de ir e vir num país que não dá a mínima pro transporte público. Sério mesmo, ser classe média é o que há. 
Seria melhor ser rico? Provavelmente. Mas aí a gente precisaria pensar no que faria, no que teria, se fosse rica. Não trabalharia? Viajaria mais? Comeria mais chocolate? (Não, só se eu fizesse um transplante de fígado). Deixaria de passar por todas essas privações pelas quais a gente já não passa? Convenhamos: nossa vida boa não ficaria tanto melhor.
O bom de ser classe média é que a gente depende pouco do governo, qualquer governo. Eu vivi durante a ditadura militar, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma. Estou vivendo na minha sétima cidade agora e, salvo um breve período em que meu pai ficou desempregado e minha família mergulhou na incerteza, sempre fui classe média. E minha vida sempre foi bem igual. Quer dizer, hoje, depois de fazer mestrado e doutorado e virar professora universitária, meu salário dobrou. O maridão e eu gastamos mais que gastávamos em Joinville (hoje temos plano de saúde), mas nossa vida em geral é parecida. 
Hoje estou na faixa mais alta de imposto de renda, pra quem recebe acima de 47 mil reais ao ano. Pago 27,5% de imposto sobre o que ganho. Não acho injusto. Afinal, são os impostos que pagam educação, saúde, segurança etc. O que acho estranho é que quem tem salário acima de 47 mil ao ano paga 27,5%, a mesma coisa de quem recebe, sei lá, um milhão ao ano. Pra mim, quanto mais se ganha, mais se deveria pagar de imposto. Sou totalmente a favor do imposto sobre grandes fortunas e heranças, por exemplo. Mas a classe média é esquisita. Ela se identifica com os ricos, não com os pobres. Ela realmente acha que tem mais em comum com um bilionário que com o mendigo da esquina, tolinha. E não é só aqui, é em todo lugar. 
Olha só os EUA. Em 2011, Obama tentou aumentar os impostos daqueles que ganham mais de um milhão por ano. Essa alta só afetaria os 450 mil americanos mais ricos (0,3% da população!), e geraria uma receita extra de 1,5 trilhão de dólares por ano. Foi o bilionário Warren Buffett que deu a ideia, depois de notar que, em 2010, ele pagou US$ 6,9 milhões em impostos. Parece muito, mas foi apenas 17% da sua renda. No entanto, seus empregados pagaram entre 33% e 41% de taxas. 
Só que toda vez que se fala em aumentar impostos, a classe média (qualquer classe média) faz um escândalo, ainda que aquele aumento não afetará seu bolso. E foi isso: o projeto não passou. Ninguém paga menos impostos que os ricos.
No Brasil, ninguém paga mais impostos que os pobres. Então, se a classe média realmente quiser reclamar (e reclamar é diferente de protestar), deveria parar de defender os ricos e exigir que eles paguem mais impostos, ué. Isso é distribuição de renda, uma questão de justiça: os ricos pagam mais. Não é lógico? Mas a classe média acha que está no mesmo barco dos ricos, e odeia os pobres. Daí vem também o ódio à Bolsa Família, às cotas sociais e raciais... Boa parte da nossa classe média é contra a distribuição de renda, o que é de uma idiotice sem tamanho. Nosso país seria muito melhor pra todos se houvesse justiça social.
Praticamente todos os indicadores sociais apontam que o Brasil melhorou muito nos anos com o PT. Poderia, e deveria, ter melhorado muito mais, se o governo Dilma ousasse mais e honrasse seus ideais de esquerda, em vez de se aliar à direita em nome da "governabilidade". Mas PSDB nunca mais. Sei que pra vocês muito jovens é difícil lembrar, porque vcs eram crianças quando FHC foi defenestrado, mas o que me recordo dos anos FHC é que ele passou o primeiro mandato aprovando a emenda da reeleição, e o segundo acabou com um vergonhoso apagão. 
Mas, pra mim, por ser classe média, os anos 90 foram bons. Eu só sofri no bolso quando entrei no mestrado e vi que o valor da bolsa estava congelado havia oito anos!
Mas não tem como ficar comparando o governo FHC com os do PT pra sempre. A realidade da "herança maldita" (os problemas que o PSDB deixou ao país) não é mais assunto. Em 2014 os eleitores não vão comparar a administração de Dilma com a de um governo que acabou doze anos atrás. Vão comparar com o que deveria ser.
Saiu uma notícia esses dias que corrobora a ideia de que a classe média está sofrendo. Na última década, o salário médio de quem estudou mais de doze anos (ou seja, a elite intelectual do nosso país) caiu 8%, descontada a inflação. A média geral da população cresceu 22%, mas cresceu mais pra quem tem até quatro anos de estudo. Se a renda de quem tem menos escolaridade cresceu 32% em dez anos, e a de quem tem mais diminuiu 8%, isso reflete para reduzir a desigualdade. É o que faz a classe média reclamar que não se encontra mais uma empregada, ou que elas ficaram muito caras. 
Ainda assim, pergunta pra uma empregada se ela não trocaria a vida dela pela nossa num piscar de olhos. Então eu acho que é isso: a classe média sofre porque não reconhece seus privilégios. Porque finge que não sabe que classes mais baixas adorariam estar no lugar dela. Já eu torço pra que todo mundo seja classe média. Inclusive os ricos. 

9 de jul. de 2013

Ditadura Argentina em Desenho


Adorei essa iniciativa da televisão estatal da Argentina. Um desenho para crianças de seis a doze anos sobre o período da ditadura civil-militar da Argentina. Super bem feito o desenho, divertido e informativo.
Postarei a reportagem da Carta Capital sobre o assunto.

Animações argentinas explicam ditadura para crianças

Zamba
Desenho 'A Surpreendente Excursão de Zamba' mescla aventura com história para falar de episódios como a Guerra das Malvinas

Em uma viagem pelo tempo até a ditadura, a principal missão é resgatar o amigo das mãos militares e fazer a democracia voltar ao país com a ajuda das “urnas mágicas”. A ficção dá o tom fantasioso à aventura vivida pelo personagem Zamba, mas o roteiro do desenho animado La Asombrosa Excursión de Zamba (A Surpreendente Excursão de Zamba) tem um contexto amargo do passado argentino: o regime militar que vigorou entre 1976 e 1983.



Voltado para crianças de 6 a 12 anos, a série de animações é uma aposta do canal estatal argentino Paka Paka para ambientá-las a temas geralmente relegados aos livros de história nas salas de aula. Além do capítulo sobre a ditadura, entram no repertório episódios emblemáticos como a Guerra das Malvinas, no qual um soldado argentino explica ao pequeno Zamba que “há países que se sentem os reis do mundo” ao se referir à Grã Bretanha.

“Zamba convida as crianças a fazerem perguntas e refletirem sobre o que veem”, explica Cielo Salviolo, ex-diretora e atual consultora do canal Paka Paka. “São temas mais complexos, que não são contestados muito nas escolas, mas que quisemos contar em um formato mais atrativo e inovador para as crianças”, explica ela sobre a estética de videogame presente na animação - que até agora possui 14 capítulos.

No episódio sobre a ditadura, o menino José, cujo apelido é Zamba, tem contato com o regime militar durante uma excursão à Casa Rosada. Ainda dentro da sede de governo, seu amigo desaparece e, ao dizer que precisará voltar no tempo para resgatá-lo, o busto que remete ao classicismo e representa a “República” explica que a ditadura começou em 1976 com os militares tomando o poder e “disseminou o terror por todo o País”. Zamba precisará voltar à “época mais escura” da história argentina para ajudar seu amiguinho, mas sem a “República” por lá para defendê-lo. Depois do contato com os militares – que falam ao telefone com os EUA para garantir que o “plano de ditadura em toda a América Latina será um êxito” – Zamba é detido, mas consegue sair vitorioso com com a ajuda das urnas eleitorais, símbolo das eleições diretas. No final do episódio, Zamba, seus amigos e até mesmo as “Mães de Maio” celebram o fim do período repressor.

Regionalismo. Além de resgatar passagens da história argentina, o desenhos traz características comuns a qualquer criança – como o sonho de ser astronauta – e uma série de elementos regionais. No início de cada capítulo, o protagonista explica que vive na cidade de Clorinda, na província de Formosa, e que sua comida preferida é o chipá, cuja massa é semelhante ao nosso pão de queijo. Ele tem como animal de estimação uma capivara, e na escola interage com outras crianças e com a professora, que veste o clássico avental branco.

O projeto, explica Cielo, surgiu pela necessidade do Ministério da Educação em fazer um desenho pensado para meninos e meninas argentinas. “Temos um problema comum a todos os países da América Latina. Tínhamos nos canais daqui produções feitas nos EUA para México, Brasil, Argentina. O ministério resolveu apostar em uma produção nacional como política de educação e cultura para as nossas crianças”, conta. O canal funciona desde 2010. Para alcançar a verossimilhança com o universo argentino, a produção conta com a supervisão de historiadores e educadores.

Desde que começou a produzir e distribuir as animações nas escolas públicas do país, o canal estatal se viu envolto em polêmicas e críticas. Historiadores e sociólogos acharam precoce tratar determinados temas entre os pequenos. Alguns condenaram a “versão oficial” contida na animação, feita pela produtora Perro en la Luna e dirigida por Sebastián Mignona.

Os produtores rebatem as críticas. “Na verdade, mostramos que é possível contar uma história de maneira divertida e reflexiva. E isso sempre gerará polêmica”, avalia Cielo. “Mas o importante é não subestimarmos as crianças e lembrarmos que elas também são capazes de compreender os processos históricos.”

Segue o link para o trailer do desenho (com legendas em português): http://www.youtube.com/watch?v=6hd_i8HQC3o




8 de jul. de 2013

Diferença entre UFRGS e ENEM

A professora aqui resolveu procurar umas questões da UFRGS e do ENEM para um trabalho avaliativo dos alunos. Olhando provas e mais provas de diversos anos, eis que duas questões se parecem. Esse exemplo ajuda a perceber diferenças entre as provas. 
Vamos as questões:

ENEM 2012:

BURKE, P. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
Na França, o rei Luís XIV teve sua imagem fabricada por um conjunto de estratégias que visavam sedimentar uma determinada noção de soberania. Neste sentido, a charge apresentada demonstra

a) a humanidade do rei, pois retrata um homem comum, sem os adornos próprios à vestimenta real

b) a unidade entre o público e o privado, pois a figura do rei com a vestimenta real representa o público e sem a vestimenta real, o privado

c) o vínculo entre a monarquia e povo, pois leva ao conhecimento do público a figura de um rei despretensioso e distante do poder político.

d) o gosto estético refinado do rei, pois evidencia a elegância dos trajes reais em relação aos de outros membros da corte.

e) a importância da vestimenta para a constituição simbólica do rei, pois o corpo político adornado esconde os defeitos do corpo pessoal

UFRGS 2004

Observe a figura abaixo, que representa a construção da imagem do Rei-Sol.

Luís XIV assumiu o poder monárquico francês em
1661 e, em pouco tempo, impôs à França e à Europa a imagem pública de um Rei-Sol todo poderoso. Toda uma máquina de propaganda foi colocada a serviço do rei francês. Escritores, historiadores, escultores e pintores foram convocados ao 
exercício da sua glorificação. O mito de Luís XIV 
foi criado em meio a mudanças socioeconômicas 
e políticas na França do século XVII.

A esse respeito, considere as seguintes afirmações.
I - Luís XIV, rei por direito divino, suscitou a admiração de seus pares europeus, Versalhes foi copiada por toda a Europa, o francês consolidou-se como língua falada pela elite européia. Porém, sombras viriam a ofuscar o Rei-Sol, visto que a oposição exilada começou a denunciar a autocracia do monarca francês.
II - Para restabelecer a paz no reino, após a rebelião da Fronda e a Guerra dos Trinta Anos, e dedicar-se à consolidação da cultura francesa como universal, Luís XIV devolveu o poder das províncias às grandes famílias aristocráticas.
III - A fim de criar uma imagem pública positiva e democrática, Luís XIV organizou a partilha do poder de Estado com o Parlamento e com o Judiciário, dando início à divisão dos três poderes, cara a Montesquieu e fundamental para os novos rumos da política européia.

Quais estão corretas ?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e III.
e) Apenas II e III.

_________________________________________________________________________

Respostas: 
ENEM - E
UFRGS - A

As questões abordam a mesma imagem da construção simbólica do rei francês Luís XIV. Entretanto, há diferenças entre elas. A questão do ENEM é interpretativa. Somente com o texto da pergunta tu resolves. De acordo com o texto, o Luís XIV teve a "imagem fabricada por um conjunto de estratégias", o que remete a um simbolismo, à criação de um soberano que é mortal mas deve ser representante divino. 
Se analisarmos as alternativas, a resposta aparece de forma mais clara, pois se a ideia é apresentar "a imagem fabricada do rei" e o simbolismo do soberano, a alternativa A não poderia ser. A B não é contemporânea ao absolutismo, não havia público e privado nessa época, tudo era em torno do rei e as pessoas que moravam na França eram os súditos do soberano, nada de cidadania como conhecemos hoje. A C também é descontextualizada, pois se a ideia era "montar" um rei soberano, essa charge não seria apresentada aos súditos, somente o quadro com o Luís XIV todo poderoso. A letra D é para aqueles que não entenderam a pergunta, completamente fora da ideia de simbolismo e "fabricação do rei", mas correta se formos pensar no contexto do absolutismo. A corte francesa era chique, mas o rei seria sempre mais, afinal ele era o soberano.

Já a UFRGS não requer somente interpretação. Tem que saber o conteúdo. Para dificultar, essa pergunta é composta por alternativas que necessitam ser confirmadas em sua autenticidade. Isso só complica a vida do vestibulando. Não basta saber de Luís XIV e absolutismo. Tem que entender as alternativas e perceber se estão certas ou erradas. 
A alternativa II está errada, pois o rei não devolve o poder para as famílias aristocráticas das províncias. A alternativa III está errada devido à ideia de democracia totalmente fora de contexto ao absolutismo europeu.

Espero que a comparação entre as duas questões ajude a perceber que ENEM e UFRGS possuem suas diferenças quanto a cobrança do conteúdo.

14 de jun. de 2013

Por que estudar História?


Respondendo a pergunta, a historiadora Laura de Mello e Souza.
Texto retirado daqui.


Laura de Mello e Souza é professora titular de História Moderna da Universidade de São Paulo. É autora de O Diabo e A Terra de Santa Cruz (1986) e O Sol e a Sombra (2006), entre outros livros. Organizou e foi co-autora do primeiro volume de A História da Vida Privada no Brasil.


Para responder esta pergunta, a primeira frase que me ocorre é a resposta clássica dada pelo grande Marc Bloch a seu neto, quando o menino lhe perguntou para que servia a História e ele disse que, pelo menos, servia para divertir. Após 35 anos de vida profissional efetiva, como pesquisadora durante seis anos e, desde então – 29 anos – também como docente na Universidade de São Paulo, considero que a diversão é essencial, entendida no sentido de prazer pessoal: a melhor coisa do mundo é fazer algo que gostamos de fato, e eu sempre adorei História, sempre foi minha matéria preferida na escola, junto com as línguas em geral, sobretudo italiano e português, e sempre mais a literatura que a gramática.
Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para o entendimento de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Política, todas essas disciplinas têm de se reportar à História incessantemente, e com tal intensidade que o historiador francês Paul Veyne afirmou, com boa dose de provocação, que como tudo era História, a História não existia (em Como escrever a História). Quando os homens da primeira Época Moderna começaram a enfrentar para valer a questão de uma história secular, que pudesse reconstruir o passado humano independente da história da criação – dos livros sagrados, sobretudo da Bíblia – eles desenvolveram a erudição e a preocupação com os detalhes, os fatos, os vestígios humanos – as escavações arqueológicas, por exemplo – e criaram as bases dos procedimentos que até hoje norteiam os historiadores. Mesmo que hoje os historiadores sejam descrentes quanto à possibilidade de reconstruir o passado tal como ele foi, qualquer historiador responsável procura compreender o passado do modo mais cuidadoso e acurado possível, prestando atenção aos filtros que se interpõem entre ele, historiador, e o passado. Qualquer historiador digno do nome busca, como aprendi com meu mestre Fernando Novais, compreender, mesmo se por meio de aproximações. Compreender importa muito mais do que arquitetar explicações engenhosas ou espetaculares, e que podem ser datadas, pois cada geração almeja se afirmar com relação às anteriores ancorando-se numa pseudo-originalidade.
Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.
A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos - de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.
Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.
Para responder esta pergunta, a primeira frase que me ocorre é a resposta clássica dada pelo grande Marc Bloch a seu neto, quando o menino lhe perguntou para que servia a História e ele disse que, pelo menos, servia para divertir. Após 35 anos de vida profissional efetiva, como pesquisadora durante seis anos e, desde então – 29 anos – também como docente na Universidade de São Paulo, considero que a diversão é essencial, entendida no sentido de prazer pessoal: a melhor coisa do mundo é fazer algo que gostamos de fato, e eu sempre adorei História, sempre foi minha matéria preferida na escola, junto com as línguas em geral, sobretudo italiano e português, e sempre mais a literatura que a gramática.
Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para o entendimento de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Política, todas essas disciplinas têm de se reportar à História incessantemente, e com tal intensidade que o historiador francês Paul Veyne afirmou, com boa dose de provocação, que como tudo era História, a História não existia (em Como escrever a História). Quando os homens da primeira Época Moderna começaram a enfrentar para valer a questão de uma história secular, que pudesse reconstruir o passado humano independente da história da criação – dos livros sagrados, sobretudo da Bíblia – eles desenvolveram a erudição e a preocupação com os detalhes, os fatos, os vestígios humanos – as escavações arqueológicas, por exemplo – e criaram as bases dos procedimentos que até hoje norteiam os historiadores. Mesmo que hoje os historiadores sejam descrentes quanto à possibilidade de reconstruir o passado tal como ele foi, qualquer historiador responsável procura compreender o passado do modo mais cuidadoso e acurado possível, prestando atenção aos filtros que se interpõem entre ele, historiador, e o passado. Qualquer historiador digno do nome busca, como aprendi com meu mestre Fernando Novais, compreender, mesmo se por meio de aproximações. Compreender importa muito mais do que arquitetar explicações engenhosas ou espetaculares, e que podem ser datadas, pois cada geração almeja se afirmar com relação às anteriores ancorando-se numa pseudo-originalidade.
Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.
A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos - de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.
Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.
Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para o entendimento de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Política, todas essas disciplinas têm de se reportar à História incessantemente, e com tal intensidade que o historiador francês Paul Veyne afirmou, com boa dose de provocação, que como tudo era História, a História não existia (em Como escrever a História). Quando os homens da primeira Época Moderna começaram a enfrentar para valer a questão de uma história secular, que pudesse reconstruir o passado humano independente da história da criação – dos livros sagrados, sobretudo da Bíblia – eles desenvolveram a erudição e a preocupação com os detalhes, os fatos, os vestígios humanos – as escavações arqueológicas, por exemplo – e criaram as bases dos procedimentos que até hoje norteiam os historiadores. Mesmo que hoje os historiadores sejam descrentes quanto à possibilidade de reconstruir o passado tal como ele foi, qualquer historiador responsável procura compreender o passado do modo mais cuidadoso e acurado possível, prestando atenção aos filtros que se interpõem entre ele, historiador, e o passado. Qualquer historiador digno do nome busca, como aprendi com meu mestre Fernando Novais, compreender, mesmo se por meio de aproximações. Compreender importa muito mais do que arquitetar explicações engenhosas ou espetaculares, e que podem ser datadas, pois cada geração almeja se afirmar com relação às anteriores ancorando-se numa pseudo-originalidade.
Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.
A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos - de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.
Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.
Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.
A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos - de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.
Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.
A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos - de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.
Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.
Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.


12 de jun. de 2013

Escravidão Negra no Brasil (trecho RHBN - 2)

Posto hoje uma matéria antiga da RHBN (Revista de História da Biblioteca Nacional) sobre escravidão negra no Brasil. A história de Joanna, mulher liberta, que sem condições de se sustentar preferiu se tornar escrava.

Dica: se ficar ruim de ler na internet, salve a imagem no seu computador. Ela vai ser salva em um tamanho bom que proporciona um zoom agradável aos olhos.

Referência: Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n° 54, ano 5, p. 26-27, março de 2010.





9 de jun. de 2013

Escravidão Negra no Brasil (trecho da RHBN - 1)

Posto hoje uma matéria antiga da RHBN (Revista de História da Biblioteca Nacional) sobre escravidão negra no Brasil. A história de Rita, uma ex-escrava no Rio de Janeiro no século XIX, que foi reconstruída através de dois processos judiciais que foram preservados.

Dica: se ficar ruim de ler na internet, salve a imagem no seu computador. Ela vai ser salva em um tamanho bom que proporciona um zoom agradável aos olhos.

Referência: Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n° 54, ano 5, p. 18-19, março de 2010.