Retirada daquelas imagens compartilhadas do Facebook:
Uma boa semana!
Inté
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23 de abr. de 2012
3 de abr. de 2012
Fotografia: registro da História numa linguagem de imagem
A fotografia surgiu na década de 1830 e nesses quase duzentos anos mudou a forma de registrar os momentos vividos. Cada vez mais a facilidade de ter algum aparelho com câmera fotográfica e a rapidez de compartilhar, divulgar ou vender essa imagem se tornou maior. No entanto, será que a foto reproduz completamente o que foi fotografado?
Até o início do século XX pensava-se que as fotos eram provas infalíveis, como um espelho que refletia o que havia sido fotografado. Não se tinha dado conta que a máquina fotográfica por si só não produz imagens, é necessário que alguém a manipule. Se alguém “tira” a foto, está usando a sua subjetividade, a sua maneira de ver o mundo. Além disso, se o retrato for com pessoas, elas estão posando de uma forma que consideram o resultado final satisfatório. O significado do “bonito”, do que é “adequado” para a foto, muda ao longo do tempo. Antigamente as pessoas não sorriam nas fotografias. O retrato era feito com elas sérias, posando de maneira estática. Isso era uma convenção social, considerava-se “feio” ou “errado” sorrir nas fotos. Com o tempo isso foi se modificando, principalmente porque a máquina fotográfica e a foto foram se tornando mais baratas, proporcionando o registro de outros momentos e em maior quantidade.
Portanto, observar fotografias antigas é uma forma de estudar história. Porém, não se pode perder de vista a ideia de vestígio: as fotos não mostram como era realmente determinado lugar ou indivíduos, porém dão pistas do que foi aquele pequeno momento no passado. Memórias podem ser criadas pela visualização desse registro, e tudo depende de quem observa aquela fotografia. Visualizar a fotografia de Getúlio Vargas para um adolescente do século XXI, que estudou o governo Vargas na escola, é completamente diferente de uma pessoa mais velha que viveu na época em que Vargas era presidente. O adolescente pode se lembrar do livro didático ou da professora de História falando, enquanto a pessoa mais velha pode se lembrar do dia em que Getúlio morreu ou do que estava vivendo naquele contexto histórico.
12 de mar. de 2012
Historiadores pra quê?
Algumas perguntas volta e meia reaparecem nas discussões dos historiadores ou do público em geral (principalmente os alunos irritados com os trabalhos e provas da disciplina). "Historiadores pra quê?", "Por que ensinar História?", "O que eu ganho aprendendo sobre situações que já passaram?", são alguns exemplos.
O post de hoje é do "mundo dos historiadores". Traz uma discussão sobre a validade de se estudar História somente dentro dos muros da universidade. Vale a pena o conhecimento histórico permanecer em textos acadêmicos, artigos de revistas científicas, apresentações em simpósios, dificultando o acesso ao público geral que gosta de História? Ser professor acadêmico e ter a possibilidade de garantir pesquisas na área com o apoio estatal é o único objetivo de quem estuda a disciplina? O "encantamento" e a curiosidade que a História traz junto com seus métodos científicos deve ficar guardado para os "não-iniciados"? Historiadores escrevem academicamente e cheio de conceitos e expressões difíceis, enquanto jornalistas escrevem sobre História de maneira simples e agradável ao leitor que nunca cursou uma graduação na área, mas adora História do Brasil? Onde está a História para os Historiadores?
Keila Grinberg é professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seus estudos estão inseridos na História da escravidão no Brasil, principalmente nas estratégias jurídicas utilizadas pelos escravos para conseguir a liberdade ao longo do século XIX.
O texto na autora foi retirado desse site. Aproveite a leitura!
Historiadores pra quê?
À luz do debate que sacode o campo de história estadunidense sobre a função social dos historiadores, Keila Grinberg contrapõe, em sua coluna de março, as expectativas do graduando em história no Brasil e a realidade que ele encontra depois de formado. A reflexão sugere um novo direcionamento profissional nos cursos de pós-graduação na área.
Pergunte a qualquer estudante de pós-graduação em história no Brasil o que ele quer ser quando defender, e a resposta vai ser quase sempre a mesma: professor universitário. Nos Estados Unidos também é assim. Mas a realidade dos doutores recém-formados tem sido bem diferente da expectativa. Com a crise econômica, a maioria, quando acha emprego, acaba trabalhando em museus, escolas e outros lugares tidos como de menor prestígio.
A redução de vagas no mercado de trabalho universitário para a área de humanidades – o que, aliás, acontece nos Estados Unidos desde a década de 1970 – é a provável razão por trás da grande discussão sobre os programas de pós-graduação em história e a função social dos historiadores que está sacudindo o campo desde outubro do ano passado naquele país. Ainda que a motivação seja mesmo esta, ela está vindo para o bem.
Em outubro de 2011, Anthony Grafton, presidente da Associação Americana de História, e Jim Grossman, diretor-executivo da entidade, escreveram o artigo “No more plan B” (Não mais plano B, em tradução livre), defendendo que as chamadas carreiras alternativas, principalmente no campo do ensino e da história pública, não deveriam ser mais o plano B dos recém-doutores na área de história, mas sim o caminho principal. E isto não apenas porque falta vaga no mercado, mas porque os historiadores devem rever a sua relação com a sociedade, deixando de ver a si mesmos apenas como profissionais que pesquisam e ensinam dentro da universidade.
O artigo caiu como uma bomba no meio acadêmico. Houve quem criticasse, dizendo que Grafton só defendia essas ideias por ser, ele próprio, professor de Princeton, uma das universidades de pesquisa mais prestigiadas dos Estados Unidos. Mas prefiro entrar na fila dos que aplaudiram, como Claire Potter e Thomas Bender, ambos professores da Universidade de Nova Iorque.
De maneiras diferentes, os dois defendem uma mudança radical no ensino universitário de história: Bender, para recuperar o comprometimento dos intelectuais com a vida pública que marcou a formação universitária na área de humanidades no século 19; e Potter, para defender que o trabalho do historiador no século 21 deve ser feito em conjunto e acessível ao grande público, um modelo radicalmente diferente daquele do pesquisador solitário, em vigor no século passado, que escreve somente para seus pares.
Para dar conta das novas tecnologias e para estar em dia com a produção acadêmica internacional, o historiador deve trabalhar em conjunto
Segundo Potter, os historiadores, para dar conta das novas tecnologias, das variadas formas de divulgação dos resultados de suas pesquisas, e para estar em dia com a produção acadêmica internacional, deve trabalhar em conjunto com outros historiadores. E isto vale também para o ensino e para um diálogo mais igualitário e engajado com o público (que, nas universidades do Brasil, poderíamos chamar de extensão).
Nisto não há muita novidade, a não ser a constatação, comum a ambos, de que o ensino universitário de história está muito longe de prover as competências necessárias para que os recém-formados possam se adequar aos novos tempos do mundo real. As disciplinas existentes na maioria dos cursos de pós-graduação em história são orientadas tão somente para a especialização excessiva e para a pesquisa individual.
Perda total
No Brasil, estamos no mesmo barco. A diferença é que a Associação Americana de História acabou de se engajar em um grande projeto de reflexão sobre a profissão, que, nos próximos três anos, vai estudar e discutir os currículos de várias universidades dos Estados Unidos.
Enquanto isso, aqui, são pouquíssimos os cursos de graduação em história que têm disciplinas como “Patrimônio” ou “Relações internacionais” em seus currículos. Candidatos a historiadores pouco estagiam em museus ou em centros culturais. Mesmo a área de ensino de história na educação básica é frequentemente neglicenciada. O resultado disso é que a maioria dos graduados na área foge das salas de aula dos ensinos fundamental e médio e nenhum curso de pós-graduação se dedica a formar professores para a educação básica.
Dos 63 cursos de mestrado e doutorado existentes na área de história no início de 2012 no Brasil, apenas dois são mestrados profissionais, um dos quais especializado em bens culturais e projetos sociais. Nenhum é devotado ao ensino de história.
Para se ter uma ideia do contraste com outras áreas, existem hoje 72 cursos de pós-graduação no Brasil dedicados exclusivamente ao ensino de ciências – física, química, biologia, ciências da terra – e matemática, entre mestrado profissional (39), mestrado acadêmico e doutorado.
Da mesma maneira, a produção acadêmica resultante de trabalhos realizados em conjunto é frequentemente desvalorizada. Por decisão dos próprios historiadores, os livros didáticos – realizados necessariamente em equipe – não são considerados pela Capes como produção intelectual qualificada, item de fundamental importância na avaliação dos programas de pós-graduação.
Dos 63 cursos de mestrado e doutorado em história no Brasil, nenhum é devotado ao ensino
O mesmo vale para textos escritos em parceria, principalmente se a coautoria for entre aluno e professor – há quem desconfie que ou o professor se aproveita do trabalho do aluno ou o aluno se aproveita do prestígio do professor para publicar – e para o conhecimento divulgado em outros meios que não a palavra escrita, como filmes e sites.
A flagrante competição entre os programas de pós-graduação – têm mais recursos e bolsas de estudos aqueles cujos professores têm produção acadêmica considerada mais qualificada – completa o quadro.
Daí não ser de espantar que a maioria dos pesquisadores da área de história só se dedique a escrever livros, artigos e capítulos para serem lidos por seus pares; que suas aulas sigam esse mesmo padrão; e que seus alunos tenham no horizonte apenas a restrita carreira acadêmica.
Seguindo esse padrão, perdemos todos: pesquisadores, professores e alunos; Perdem os programas de pós-graduação, viciados em produzir apenas o que é bem pontuado na avaliação da Capes; perdem os alunos universitários, que têm uma formação voltada para um trabalho que dificilmente exercerão e que deixam de ser qualificados em competências que fatalmente deverão desenvolver.
E perde o público, ávido por ler bons livros, ver bons filmes, frequentar bons museus e navegar em bons sites de história.
25 de fev. de 2012
Os Simpsons contando História
Desculpem pelo trocadilho infame, mas a dica é interessante.
Acabei de ver essa matéria no site do Guia do Estudante. Confesso que não vi nenhum desses episódios, mas vale a pena a sugestão. Quem estiver disposto, é só baixar e assistir.
Acabei de ver essa matéria no site do Guia do Estudante. Confesso que não vi nenhum desses episódios, mas vale a pena a sugestão. Quem estiver disposto, é só baixar e assistir.
Segue a matéria retirada do site:
Criada em 1987 e completando 500 episódios este mês, Os Simpsons é a série mais longa a ocupar o horário nobre da TV americana. Quem curte o desenho sabe que ele é cheio de referências de todo tipo – inclusive históricas. Para comemorar o recorde, listamos alguns episódios que podem ajudar quem está se preparando para o vestibular. Como os fatos históricos não são contados com exatidão pela família amarela, fica a ideia de um desafio para você: comparar a versão deles com os fatos reais e tentar encontrar as diferenças e referências. É um jeito bem mais divertido de estudar – e facilita a memorização!
Lemon of Troy (O Limoeiro de Troia)
Temporada 6, episódio 24
Para estudar: Guerra de Troia
Como indica o próprio nome do episódio, a história é uma referência à lenda da Guerra de Troia, contada pelo poeta grego Homero. Os gregos teriam declarado guerra contra seus vizinhos troianos após o rapto de sua mais famosa e bonita cidadã do sexo feminino, a princesa Helena. No desenho, depois de uma discussão com Bart e seus amigos, os meninos de Shelbyville (a cidade vizinha) roubam o limoeiro histórico de Springfield. Ao descobrir isso, Bart, Milhouse, Nelson, Martin e Todd usam um plano semelhante ao do Cavalo de Tróia para recuperar a árvore na cidade inimiga.
Margical History Tour (Marge Viaja na História )
Temporada 15, episódio 11
Para estudar: Henrique VIII da Inglaterra e a criação da Igreja Anglicana, no século 16
Marge leva Lisa, Bart e Milhouse para fazer um trabalho na biblioteca de Springfield, mas descobrem que todos os livros importantes foram levados embora. Marge decide então dar uma aula do que os meninos precisavam estudar. Uma delas é a história do rei Henrique VII (Homer), que decide se divorciar de sua primeira esposa (Marge) porque ela não consegue lhe dar um herdeiro do sexo masculino. Como a Igreja Católica não lhe permitiu o divórcio, ele decide criar sua própria igreja e casa-se com Ana Bolena. O problema é que ela também não lhe dá filhos homens e o rei passa por vários casamentos, sem nunca conseguir o que deseja.
Homer vs. the Eighteenth Amendment (Homer contra a Lei Seca)
Temporada 8, episódio 18
Para estudar: a Lei Seca nos Estados Unidos nos anos 1920
O episódio faz referência à Lei Seca colocada em vigor com a 18ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que proibiu a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas entre 1920 e 1933. A população apoiou a medida inicialmente, mas depois o comércio e consumo ilegal de bebidas se tornaram comuns, com traficantes e mafiosos como Al Capone ganhando um imenso poder e fortuna. Nos Simpsons, a questão aparece após uma comemoração cheia de excessos do dia de São Patrício. Bart fica bêbado na frente de uma câmera de TV e, chocadas, as esposas de Springfield exigem uma lei que impeça o consumo exagerado de bebida na cidade. Então é reativada a Lei Seca, que havia sido criada 200 anos antes e estabelecia a “pena da catapulta” para quem a desrespeitasse. A partir daí, Homer se torna o “Barão da Cerveja”, vendendo a bebida ilegalmente.
The way we was (Nós somos jovens, jovens)
Episódio 25, temporada 2
Mother Simpson (Vovó Simpson)
Episódio 8, temporada 7
Para estudar: anos 60 e 70 e o feminismo
Em “The way we was”, a TV da família quebra e Marge decide contar para Bart e Lisa a história de como ela e Homer se conheceram. Voltamos então para 1974, com muitas referências culturais da época, como o feminismo – Marge até chega a queimar seu sutiã.
Em “Mother Simpson”, Homer inventa um plano para fingir que morreu só para não ter que trabalhar num sábado. O problema é que todo mundo acreditou – inclusive a sua mãe, Mona Simpson, sumida há quase 30 anos e que volta para o suposto enterro do filho. Lisa e Bart perguntam porque ela sumiu por tanto tempo e ela conta a sua história, que se passa no ano de 1969. Na época, ela se junta ao movimento hippie e se envolve em confusões com a polícia por se envolver em protestos, tendo de fugir. O nome da vovó Simpson foi uma homenagem à verdadeira Mona Simpson, uma escritora americana feminista nascida em 1957 que foi casada com Richard Appel, um dos escritores da série. Mona é também a irmã biológica mais nova de Steve Jobs.
Lisa’s First Word (A primeira palavra de Lisa)
Episódio 10, temporada 4
Para estudar: a Guerra Fria e os anos 80
Enquanto tentam fazer Maggie falar “papai”, Homer conta a história da primeira palavra de Lisa. Para isso, voltam aos anos 80 em um episódio cheio de referências da época, incluindo a Guerra Fria e o boicote da União Soviética às Olimpíadas de 1984 em Los Angeles, Estados Unidos, em retaliação ao boicote aos Jogos Olímpicos de Verão de 1980 encabeçado pelos EUA. Com isso, os americanos dominam o evento e Krusty, que havia prometido um hambúrguer para cada medalha de ouro que o país ganhasse, se dá mal e perde milhões de dólares com a promoção.
22 de fev. de 2012
Outros Carnavais
Nessa quarta-feira de cinzas, mais conhecida como "Enterro dos Ossos", trago algumas imagens de carnavais antigos retiradas do facebook do Memória Viva. Vejam como a comemoração mudou ao longo do tempo, seja pelas fantasias, locais onde se "pulava" Carnaval ou pelos acessórios presentes nas folias, como o Lança Perfume (hoje considerado droga ilícita e proibido seu uso e venda). Uma característica que permanece é a vontade dos foliões de se divertir e comemorar esses dias de festa e quebra de rotina.
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| Magé Lin e a sua irmã Thereza Lima em Salvador no ano de 1958. |
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| Baile de Carnaval em clubes era comum. Na foto, a festa aconteceu no Clube Curitibano, por volta de 1950. O pessoal fantasiado e com lança-perfume na mão eram familiares de Lisiane Barberi. |
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| Outro baile de Carnaval no Clube Comercial de São Borja , RS, em 1963. A moça posando com sua fantasia é Magda Lucia Magalhães Bonfiglio |
Quer saber um pouco mais do projeto Memória Viva? Acesse o site aqui.
Inté!
26 de jan. de 2012
Elis Regina: Um diamante verdadeiro
Olá pessoal!
Blogueira de férias, portanto recorro mais uma vez ao site da Revista de História da Biblioteca Nacional para trazer novidades por aqui. Esse ano, 2012, completam-se trinta anos da morte de Elis Regina, que morreu precocemente aos 36 anos. Eu gosto muito de escutá-la e é uma pena que não tive a oportunidade de vê-la em um show.
Segue a reportagem retirada do site da RHBN sobre a cantora que pode ser vista completamente aqui. Aproveite!!!!
Um diamante verdadeiro
Elis Regina contraria expectativas e chega ao topo em sua vida breve
Celso de Castro Barbosa
No prefácio de “Furacão Elis”, biografia que Regina Echeverria lançou apenas três anos depois da morte da cantora, Hamilton Almeida Filho, o Hamiltinho, jornalista e marido da autora, matou a charada. “Essa Elis, mulher, por muito tempo foi a voz que nos revelou o quanto morríamos de saudade do Brasil”.
Pobre, vesga, rechonchuda, tampinha – só cresceu até 1,53m – e linda, Elis Regina Carvalho Costa (1945-1982) nasceu na periferia de Porto Alegre e viveu a infância e adolescência num conjunto habitacional*. Tinha tudo para dar errado. Não deu. Compõe qualquer lista das maiores cantoras populares do século XX, com a vantagem de ser muito mais versátil do que Ella Fitzgerald, Billie Holiday ou Edith Piaf. Além do blues, do jazz e das canções românticas que as divas consagraram, ela também mandava muito bem no samba, rock, bolero, bossa nova, Milton Nascimento (um gênero à parte), em tudo o que tem a ver com melodia, ritmo e harmonia. E com uma mistura de técnica e emoção de cair o queixo.
Uma vez Elis contou que tinha tanto som dentro da cabeça que era inevitável, em algum momento, pôr tudo pra fora. Pôs ainda menina, vencendo concursos de programas de rádio na capital gaúcha e imitando, descaradamente e com perfeição, o ídolo Angela Maria. A inspiração da Sapoti acompanhou Elis até o fim.
Porto Alegre, naturalmente, ficou pequena para a cantora e em 31 de março de 1964 Elis desembarcou no Rio de Janeiro com o pai, que trazia no bolso uma carta de recomendação do PTB, o partido do presidente João Goulart, deposto em golpe militar no dia seguinte. Foi preciso se virar. Primeiro, chamou a atenção dos músicos que animavam a noite carioca, especialmente pela emissão e divisão rítmica. Um espanto, ninguém até ali ouvira nada parecido. Um passo importante para conquistar a amizade de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, que confiaram a ela a defesa de Arrastão no festival da TV Excelsior de 1965. Pronto. O Brasil tinha uma estrela que brilharia pelos próximos 17 anos. Nossa primeira cantora moderna. A era do rádio ficara, para sempre, no passado.
Até o fim dos 1960 só deu Elis. No Fino da Bossa, programa de maior audiência da TV Record, dividiu o palco com mais de 60 artistas de todos os gêneros da música brasileira. Alguns duetos, como o com Elza Soares são registros de um tempo que, se não volta mais, pode ao menos servir de inspiração para quem se aventurar.
Mas estava tudo bom demais para ser verdade. Roberto, Erasmo e Wanderléa não estavam para brincadeira. O iêiêiê, a Jovem Guarda, decretou a morte do Fino e uma disputa inusitada, engraçadíssima vista de hoje, pôs a turma do samba em pé de guerra contra a turma do rock. Sobrou para a guitarra elétrica, um dos instrumentos que compõem a base harmônica da música brasileira desde os anos 1920. Houve até passeata contra ela no centro de São Paulo. Elis, Gilberto Gil e Edu Lobo à frente.
Ciclotímica, como se chamavam na época os bipolares, são impressionantes os relatos dos que conviveram com Elis e viram de perto suas mudanças bruscas de comportamento. Em cinco minutos ia da depressão à euforia ou vice-versa. Por isso não levou muito tempo para incorporar a “maldita” guitarra a suas bandas. E o resultado foi espetacular.
Em três discos, dois produzidos por Nelson Motta em 1970 e 1971, a ciclotimia se manifestou de forma inequívoca. Está tudo lá. Guitarras, Roberto e Erasmo, autores de As Curvas da Estrada de Santos, Se você pensa e Mundo Deserto e, não bastasse, a apresentação de um cantor novo, um tal de Tim Maia com quem divide “These are the songs”. Há ainda uma gravação memorável de “Golden slumbers”, de Lennon e McCartney, e outra não menos, “Cinema Olympia”, de Caetano Veloso.
Nos anos seguintes, ao lado de Cesar Camargo Mariano, dublê de marido e maestro, Elis viveu seus anos dourados que a música, penhoradamente, agradece. Aperfeiçoou a técnica, descobriu mais de uma dezena de bons compositores, gravou discos antológicos e produziu shows idem. Que disco é capaz de reunir, como no LP de 1972, “Águas de março” (Tom Jobim), “Atrás da porta” (Francis Hime e Chico Buarque), “Mucuripe” (Fagner e Belchior) e “Bala com bala” (João Bosco e Aldir Blanc), entre outras joias raras? Pergunta que permanece sem resposta, quarenta anos depois.
Sua obra-prima, no entanto, estava reservada para dois anos depois quando, ao lado de Tom Jobim, gravou, em Los Angeles, na modesta opinião deste redator, o melhor disco da música brasileira de todos os tempos, Elis & Tom. Nossa cantora mais talentosa ao lado do mais inspirado compositor. Juntos. E para sempre.
Nos palcos, Elis deu início a uma revolução. Em sua carreira e na maneira de se conceber e produzir espetáculos no Brasil. Música, teatro e dança, tudo ao mesmo tempo agora como no show “Falso Brilhante”, de 1976. Antes de sua morte ela ainda estrelaria quatro grandes espetáculos: O Trem Azul, Saudade do Brasil, Essa Mulher e Transversal do Tempo. Neste último, panfletário do início ao fim, deu a impressão de querer sair do palco e derrubar a ditadura. Pessoalmente. Não perdeu a oportunidade de hostilizar Caetano Veloso, numa versão debochada de um trecho da música “Gente”.
Àquela altura, 1978, o pessoal da cultura se dividia entre duas patrulhas. A ideológica, da qual Elis fazia parte, e a odara, da qual Caetano era uma espécie de fundador e comandante em chefe. Enquanto a Patrulha Odara via com desdém as manifestações explícitas de horror à ditadura, a Patrulha Ideológica cobrava engajamento político dos que se dedicavam a cultuar a beleza e o prazer e que produziram coisas belas e prazerosas no período, como a música “Odara”, de Caetano. Uma bobagem.
Nos últimos anos de sua vida breve, de 36 anos, Elis já era uma das maiores, senão a maior cantora popular em atividade no planeta. Quando morreu, em 1982, o povo e a imprensa foram generosos, exceção da revista Veja, que serviu um aperitivo do que se tornaria vinte anos depois: informações jamais confirmadas e muita ficção para atingir a imagem da cantora. Caetano Veloso protestou, com veemência, na TV Globo, dizendo que os filhos de Elis precisavam saber que a mãe não era a pessoa de que a revista falava. Veja vendeu muitos exemplares e perdeu muito prestígio.
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* Comentário da blogueira: o bairro onde Elis Regina nasceu chama-se IAPI, fica na zona norte de Porto Alegre, e possui como característica prédios com até três andares e um modelo de arquitetura que mescla os prédios com diversas áreas verdes, como praças ou parques, próprio para famílias de operários residirem (foi um bairro criado para trabalhadores viverem).
* Comentário da blogueira: o bairro onde Elis Regina nasceu chama-se IAPI, fica na zona norte de Porto Alegre, e possui como característica prédios com até três andares e um modelo de arquitetura que mescla os prédios com diversas áreas verdes, como praças ou parques, próprio para famílias de operários residirem (foi um bairro criado para trabalhadores viverem).
Segue, só para ilustrar, um vídeo da cantora:
9 de jan. de 2012
Dica de filme antigo: Olga
Janeiro, mês de férias, o blog traz uma dica de um filme brasileiro antigo, lançado em 2004: Olga.
O filme é baseado no livro de Fernando Morais, também chamado "Olga", e trata de forma romanceada a biografia da alemã judia Olga Benário que veio para o Brasil com o objetivo de auxiliar a implantação de uma revolução que levasse o Brasil a se tornar um país comunista, em meados da década de 1930.
Aqui no Brasil, ela foi escalada como segurança de Luis Carlos Prestes. Prestes era militar e uma figura conhecida por liderar um movimento de oposição ao governo que percorreu o interior do Brasil e ficou conhecido como "Coluna Prestes". Em 1935, durante o governo de Getúlio Vargas, a tentativa de revolução por parte de Prestes, Olga, outros dirigentes do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora, acabou não dando certo e o movimento ficou conhecido como "Intentona Comunista".
Nesse meio tempo, Prestes foi preso e Olga também. No entanto, o governo Vargas queria deportá-la para a Alemanha, que estava sob o comando de Hitler. Olga descobriu que está grávida de Prestes e permaneceu no Brasil enquanto a gestação e o período de amamentação da filha ocorreram. Logo depois ela foi deportada para a Alemanha. Imaginem que fim teve uma mulher judia em plena Alemanha de Hitler?
Indico tanto o livro quanto o filme. Na verdade, eu li o livro há muito tempo, nem estava na faculdade ainda, mas achei muito interessante. O filme eu vi no colégio também, quando estava estudando o governo Vargas e a Segunda Guerra Mundial. Segue abaixo o link do trailer:
Enfim, se a Sessão da Tarde estiver com a "Lagoa Azul", aproveite e olhe "Olga"!
Inté!
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